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No dia em que o Brasil bateu o número das 400 mil mortes pela Covid-19 (no momento em que o leitor estiver a ler este texto, possivelmente estaremos com meio milhão de vítimas) assisti a um virologista convidado na Globo News, Atila Iamarino, discorrer sobre os motivos que nos levaram a esse exorbitante número de vidas perdidas. Como medidas de prevenção, ele citou o básico: uso de máscaras, distanciamento social, etc. Gosto de ouvir especialistas, principalmente nas áreas em que não domino, mas refleti se Atila não estaria a ser óbvio demais. Pensei: “Um profissional renomado que parece estar a dar conselhos a meninos da 5.ª série!” Mas aí entendi a genialidade de se demonstrar o óbvio ululante.

Todo comunicador deve falar ao seu público, e quando este é ignaro em sua grande maioria, é necessário sim reafirmar o básico. Penso que se Atila receitasse essas prevenções em países da Europa, Japão, Austrália, Estados Unidos, Canadá e Israel, seria taxado de simplório. No Brasil, é até recomendável que se expresse desta forma.

O músico Lobão certa vez afirmou que “O Brasil é o arraial do cu do mundo“. Sou obrigado a concordar com ele. A nossa irrelevância no campo das Ciências é desanimadora, isso historicamente. Quando muito, alguns iluminados escapam dessa mediocridade acarretando a “fuga de cérebros” e alguns dos nossos melhores cientistas estão na NASA, no MIT, no CERN, etc.

Quando soube que uma bolsa de estudos na área das pesquisas científicas no Brasil indicava a bagatela de R$ 2.500,00, pensei: “Como pode um aluno dedicar-se a pesquisas recebendo este pecúlio miserável?” O ex-presidente da República João Baptista de Oliveira Figueiredo disse a certa altura que caso ganhasse um salário mínimo, meteria uma bala no ouvido. Desconfio que caso fosse investigador científico e ganhasse R$ 2.500,00, tomaria a mesma decisão.

Investiguei o pouco caso do brasileiro com a ciência. Vou-me ater aqui ao mundo Ocidental, respeitando o Oriental, mas para explanação acerca de um objeto de estudo, delimitarei o mundo greco romano e a sua tradição. Se a Filosofia é a mãe de todas as ciências, tendo surgido na Grécia, é de fácil compreensão que duas nações formularam a teoria filosófica enquanto tradição: França e Alemanha. Façam uma lista dos mais importantes filósofos da História e verão Descartes, Leibniz, Voltaire, Kant, Montaigne, Fichte, Hegel, Comte, Schopenhauer, Marx, Nietzsche, Heidegger e Sartre.

Auguste Comte

Imaginemo-nos numa final da Copa do Mundo Filosófica: França x Alemanha. Países europeus com vertente latina ficaram à sombra, sempre relacionando e estudando a estes clássicos, mas insisto: nada se estuda de Filosofia que não seja alemã ou francesa.

Nas Ilhas Britânicas, ocorreu a cisão epistemológica que confrontou o Racionalismo francês e europeu e criou-se desta forma o Empirismo, notadamente pelas mãos de Locke e Hume. Esse experimentalismo exacerbado e importante legou-nos cientistas dos mais brilhantes, e dessa tradição o sir Isaac Newton foi pilar. Óbvio que sei das nacionalidades de Copérnico, Galileu Galilei, Kepler e outros, mas foi na Grã-Bretanha que a coisa se solidificou. O ambiente universitário formou brilhantes cientistas, que avançaram em muitas das pesquisas e assim a coisa segue até aos dias atuais.

Este é o cenário do mundo Ocidental civilizado. Investiguemos agora as nações emergentes e que conquistaram as suas independências em fins do século XVIII e XIX: Austrália, Estados Unidos e Brasil. Aqui sugeriria a leitura de “A Ética Protestante“, do sociólogo Max Weber, para compararem o modelo de colonização entre países atrasados e progressistas.

Da colónia que se tornou potência, os Estados Unidos, tão jovem quanto o Brasil, é este sucesso que aí está: população toda vacinada (ou perto disso), cientistas despontando com destaque pelo mundo e não à toa, os Prémios Nobel na área são vários, e quando vamos estudar os melhores cérebros percebemos que são estadunidenses, britânicos, canadenses, alemães e outros. Se houvesse uma final de Copa do Mundo de Ciências, o clássico seria Reino Unido x Estados Unidos. Cambridge, Harvard, Oxford, MIT, os nomes de algumas instituições académicas dão até peso. São “pica grossa”.

Sendo filósofo, não puxarei a brasa à minha sardinha. Descreverei aqui sobre as ciências exatas, as que demandam experimentações, teorias e campos de observação. Os “malucos” metidos nos laboratórios inclusos. Os Prémios Nobel. No campo da Física, Astrofísica, Biologia, Química, Mecânica, etc. vamos investigar duas mentes fecundas do nosso século: Stephen Hawking e Richard Dawkins. Li os seus livros, “Uma Breve História do Tempo” (do primeiro) e “O Gene Egoísta” e “Evolução” (do segundo). Britânicos, vale esclarecer.

Stephen Hawking

Aí estudamos as investigações acerca do tempo-espaço, buraco negro, universos; constituição das células, os genes, a nossa linhagem ancestral e quase dá um nó na cabeça. Gosto dos cientistas pois eles não se arvoram a senhores da razão. Nunca li uma obra de um cientista que fosse dogmático e que não elucidasse que as suas premissas eram atuais até ao momento da publicação da tese.

Perceberam a enorme distância que nos separam a nós, brasileiros, do dito mundo civilizado? Quando Atila Iamarino tem que dizer que devemos usar máscaras, lavar as mãos com “alquingel” (sic), essa expressão não foi dita por ele, escrevi-a para retratar a forma como as pessoas não conseguem soletrar álcool em gel, e alardear o afastamento social.

Ele é brilhante pois sabe que está a concorrer com alguns pastores de rebanho que tosquiam as suas ovelhas, fazendo-as acreditar que entregando as suas preces a Deus, tudo se resolverá e nessa tradição jesuítica com a qual o brasileiro foi catequizado, nessa permanência do que observamos até hoje, com a máxima presidencial de “Deus acima de todos”, entendemos os reais motivos de tantas mortes e o desrespeito pelos preceitos mais elementares da Ciência.

Em 2018, o Brasil publicou 60,1 mil estudos e ficou em 11.º lugar no ranking internacional da NSF (Fundação Nacional da Ciência), dos EUA

Insisto: não estou a pedir para as pessoas compreenderem os genes, os buracos negros, não, nada disso, estou a sugerir cuidados básicos de higiene, de medidas eficazes de profilaxia e de não fazer circular o vírus. Ainda bem que no Brasil não existe o Rio Ganges, pois desta forma afirmo perentoriamente que muitos de nós mergulharíamos no rio da ignorância e do obscurantismo religioso mais medonho e atrasado. Nada contra a prática religiosa de quem quer que seja, mas quando atuam em bando acarretam até a audiência no STF na discussão de se abrir templos ou não.

Nessa Copa do Mundo imaginária da ciência e progresso, o Brasil está sumariamente desclassificado. Numa Copa imaginária da eficiência, progresso e êxito, os oitavos de final apontariam a Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Japão, China e Austrália.

Findo este humilde texto com uma advertência a todos os brasileiros: lavem as mãos com “alquingel”, mantenham o distanciamento social e se não for pedir muito, usem máscaras!

Marcelo Pereira Rodrigues

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