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“O Muro” (título original em francês “Le Mur“) foi publicado em 1939, um ano após a publicação de “A Náusea“. “O Muro” se constitui de cinco contos, nos quais se percebe o viés existencialista do seu autor. Contos aporéticos e aforismáticos criam um prisma de equivalência do absurdo.

No primeiro conto, homónimo ao título da obra, Sartre nos conta a história de Pablo Ibbieta, preso político que passa sua última noite antes da fatídica execução sumária, que se dará logo ao amanhecer do dia. Das torturas psicológicas que acometem a um “irlandês cabeça-dura” e a um “fracote” (companheiro de cela de Pablo), as horas assumem um caráter assustador.

“A Náusea”, Jean-Paul Sartre

Quando o médico belga avisa que já são três e meia da madrugada, revela aos prisioneiros o disparo da bomba-relógio que exasperava a todos. Sartre joga com o contraste e auto-parodia a moral de Pablo que, em nenhum momento, cogita entregar o paradeiro do “terrorista” Ramón Gris, motivo este que faz com que Pablo seja preservado, na primeira execução. Hora depois e a tortura se perpetua.

Novamente ele é chamado e lhe é anunciado que agora teria quinze minutos para revelar o paradeiro do comparsa. Após esse tempo, Pablo, ensandecido pela tortura dos algozes, anuncia o paradeiro erróneo como forma de menosprezo às autoridades. Coincidência e desatino! Pablo, após ver seus algozes voltando da empreitada, se vê livre da execução temporariamente. Um preso que está no pátio anuncia-lhe a captura de Ramón no exato lugar onde Pablo houvera indicado às autoridades. Tremenda e infeliz coincidência. A consciência contingente e a incerteza assolam a reles existência de Pablo, esmagando-o com o peso de uma culpa não comprovável. Termina em aporia.

No segundo conto, “O Quarto”, a loucura passeia pelo seio da família Darbédat. A loucura de Pierre é o cerne do conto que traz à luz os indícios de “um mundo como vontade e representação”, numa referência shopenhauriana que encontra luz nos estudos da Filosofia Clínica moderna, respeitando-se o contexto posterior aos estudos do filósofo gaúcho Lúcio Packter. Eve Darbédat, mulher de Pierre, é dotada de um amor ingénuo pelo marido. Pressões sociais, teia de preconceitos, intersecção de famílias sendo Eve o entreposto entre as desconsiderações do pai e as necessidades do marido. Um vago pensamento finda o conto. Aporia.

“Erostrato” conta-nos a pequena sociopatia de Paul Hilbert. Do seu estranhamento pelo mundo, ele observa as pessoas do alto do seu apartamento, com o pensamento: “É preciso ver os homens do alto”. Paul convida uma prostituta para um programa; quando esta tira a roupa, ele ri do absurdo daquele corpo ridículo. Sadismo corruptível a uma personalidade fadada ao extremismo. Como decisão autónoma, resolve que irá disparar seu revólver entre os transeuntes: “Pena que o tambor só aceita seis cápsulas”.

Levada a ferro e fogo, Paul associa a “filosofia do esbarrão”: quando corpos se tocam, todos com suas vidinhas insignificantes e austeras, ao mesmo tempo. O intento de Paul só fica saciado em partes: consegue atirar em um indivíduo qualquer e segue-se daí a cena de perseguição. A sagacidade de Sartre nos deixa em suspenso: o transeunte morreu ou conseguirá se safar? Término do conto.

“Intimidade” parece ser uma referência à vida sexual nada promissora de Sartre com a sua companheira de todas as horas, Simone de Beauvoir. Contraditório, o conto nos relata o impotente sexual Henri e sua esposa Lulu, e toda aquela relação conjugal socialmente aceitável. A necessidade de um amante e a amizade de Rirette, conselheira sentimental da famigerada Lulu. Ao final, a “moral do aceitável” compõe a ausência do julgamento pela “pulada de cerca” de Lulu. Termina enlaçada com o esposo, que sabe perdoar uma traição qualquer. O livro “As filhas do segundo sexo“, de Paulo Francis, irá beber nessa fonte deste conto específico.

Simone de Beauvoir
Paulo Francis

“A infância de um chefe” fecha o livro com letras de ouro. De forte psicologia freudiana, o conto narra a vida de Lucien Portier, filho único de um pequeno burguês dono de fábrica (qualquer coincidência com a própria biografia de Sartre terá sido mera coincidência). Garoto paparicado e perspicaz, passa por experiências enriquecedoras como forma não muito sedutora de se formar o carácter.

É seviciado sexualmente por um adulto, negligencia o seu próprio corpo a ponto de duvidar da sua existência, na acepção do Cogito ergo sun. Pequenos amores, transposição heterossexual em seus relacionamentos, aliado a um anti-semitismo forte, que se vê então preparado para assumir a chefia, que será herdada de seu pai. Há neste conto uma citação interessante: “… bem posso suportar um preço da dúvida: é o preço que se tem de pagar pela pureza”, que serviu de inspiração e transcrição para a letra de Humberto Gessinger, na música Infinita Highway: “A dúvida é o preço da pureza / e é inútil ter certeza“.

“O Muro” como um todo é o muro que se interpõe entre individualidades não relacionadas, onde o acaso passeia pelas vicissitudes do ser humano, num jogo livre de ideias e ações, onde se delega ao homem a condenação de se sentir livre. Inferir ao livro as passagens finais não faz desinteressar uma leitura com mais acuidade, afinal, cada palavra sartriana parece delegar ao homem esse mesmo compromisso com a sua liberdade individual e intrínseca.

O autor da crítica, Marcelo Pereira Rodrigues, no Café de Flore, Paris: um ponto de encontro entre os existencialistas franceses

Marcelo Pereira Rodrigues

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