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Porque A Arte Somos Nós

Ele não deixou nada escrito. Não era uma pessoa nada agradável. Não se pautava pelas regras da sociedade. Para dizer a verdade, estava-se cagando e andando para todas as regras. Irónico e extravagante ao extremo, estou a escrever sobre Diógenes de Sínope (413 a. C. – 323 a. C.), um mendigo que vivia em Atenas aprontando das suas. Comumente ele é designado como o Filósofo Cínico, sendo que cínico vem do grego Kynikos e significa Cão. Pois o nosso personagem vivia (ou sobrevivia) como a um cão. Platão (427 a. C. – 347 a. C.) parece ter sido a sua vítima preferida.

Afirmava Diógenes que ele havia traído os ideais do seu mestre Sócrates (469 a. C. – 399 a. C.) e que havia criado a Academia para proferir as suas idiotices metafísicas e elitizado o acesso ao conhecimento. Reza a lenda que ao saber de um enunciado de Platão acerca de que “o homem é um bípede sem penas”, invadiu uma das aulas com uma galinha depenada debaixo do braço e disse num tom provocador: “Eis aqui o homem de Platão”. Este relevava as ofensas, levando-o a definir Platão como “uma espécie de Sócrates que enlouqueceu”.

Diógenes vivia num tonel, a mesma espécie de barril em que um famoso personagem de televisão mexicano vive, o Chaves. Provocador nato, satisfazia todas as suas necessidades em público, fosse a de se alimentar das sobras, dormir, defecar, etc. Quando não existiam nem as sobras, saiu-se bem com esta sábia reflexão, desejando que a carência fosse suprimida pela fricção, pois, do mesmo modo que se masturbava em público, saciando-se sexualmente, não compreendia o motivo de ao friccionar o estômago a fome não ser saciada. Relatou o óbvio aos seus conterrâneos.

Pintura de Jean-Léon Gérôme,1860, retratando o filósofo Diógenes

É célebre e anedótica a passagem em que saía pelas ruas com uma lanterna acesa em plena luz do dia. Inquirido acerca dos motivos, respondia que estava à procura de uma pessoa honrada. Acredito que a sua ironia mordaz irritava a muitos, para não dizer a todos. Acontece que alguns desvalidos e inconformados passaram a enxergar nele um exemplo de despojamento e bom senso, por mais tresloucado que fosse o nosso anti-herói.

Atentemo-nos para o facto de o tal mundo civilizado e o modo de vida grego já ostentar naquela época (estamos a falar de dois séculos e meio) muitas das mazelas ainda observadas na nossa contemporaneidade, qual seja a ostentação dos bens de consumo e as riquezas desnecessárias, decorrendo daí a ganância e o desejo de muitos em ‘passarem a perna’ aos outros, etc.

Uma outra passagem bastante interessante diz respeito a um encontro entre Diógenes e, nada mais nada menos, do que o dono do mundo à época, o conquistador Alexandre, o Grande (356 a. C. – 323 a. C.). Lembremo-nos que este teve como preceptor Aristóteles de Estagira (384 a. C. – 322 a. C.). Alexandre, curioso com o personagem excêntrico, para espanto do seu séquito, dirige-se a ele e pergunta qual o bem ou os bens que ele desejaria, que automaticamente lhe seria concedido. Dentro do seu tonel, o filósofo não se fez de rogado: “Desejo que pare de obstruir a passagem da luz do sol que incide sobre mim e que me está a aquecer”.

Todos à volta se riram e Alexandre viu ali um ser humano de valor e não preocupado com ideologias. Deve ter sido a única vez em que um Rei todo poderoso se curvou a um escravo, pois afirmam que de vez em quando ambos se encontravam, mesmo que Alexandre se surpreendesse sempre com a troça do pensador. Afirmam que num outro encontro ao perceber que Diógenes estava observando uma pilha de ossos, ao ser questionado sobre o que tanto analisava este respondeu: “É que não consigo diferenciar se é um osso do seu pai ou de qualquer outro escravo”.

Diógenes por John William Waterhouse (1882)

Resignado e talvez rindo, Alexandre exclamou que, caso não fosse ele Alexandre, teria gosto em ser Diógenes. Como sempre respondia de bate-pronto, o nosso “cão” respondeu: “Pois se eu não fosse Diógenes, gostaria de ser Diógenes mesmo”.

Um pensador iconoclasta, angariou para si fama e reconhecimento mesmo não querendo saber disso. Chegou a ser vendido como escravo por piratas e não apresentou nenhuma queixa, tanto fazia para ele o seu estar no mundo. Sábio, certamente nunca imaginaria que fosse alvo de estudos por muitos que o sucederam, notadamente a corrente filosófica denominada Estoicismo e que hoje, mais de dois séculos e meio depois, estaríamos aqui a escrever acerca dele e rindo de algumas das suas excentricidades.

Que tenhamos coragem e paciência para escutarmos os nossos Diógenes atuais. Quem sabe aquele louco da esquina e da calçada não tem uma lógica de vida menos neurótica e insana do que a maioria de todos nós? Quem sabe a sabedoria não está com o morador de rua que se abriga de baixo da marquise do viaduto e não com os doutos da Universidade, muitos deles idiotas e apenas ‘punhentando’ os seus próprios egos? Enfim, são muitas perguntas que nos intrigam e que sejamos todos gratos ao sol que nos aquece.

Marcelo Pereira Rodrigues

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