No espaço de um ano, muito pode mudar e foi de um ano turbulento na vida de Piper Kerman que nasceu a série de sucesso da plataforma de streaming Netflix, “Orange Is The New Black”, estreada em 2013. É sobretudo uma série sobre mulheres e sobre as suas vidas, mais concretamente encarceradas (de forma literal e também simbólica). Foi, e continua a ser, uma produção de Jenji Kohan com grande impacto, desenrolando-se sobre temas como a sexualidade, estigmas sociais, abuso de poder, racismo e xenofobia, amor e união, tudo isto através de um elenco detentor de um talento poderosíssimo.
Esta história começa com a apresentação de Piper Chapman (Taylor Schilling) (inicialmente o nosso personagem principal) e a sua rendição no Estabelecimento Prisional feminino de Litchfield. Piper é uma mulher branca, elegante, de classe média, oriunda de uma família socialmente bem posicionada e numa relação estável com o seu noivo Larry (Jason Biggs). Porém, a sua vida nem sempre foi tão clara e simples. Nos seus “vintes”, rebelou-se contra a figura que era esperada de si e juntou-se a Alex Vause (Laura Prepon), a sua namorada à altura, numa vida de luxo, festas, viagens e crime. Como é espectável, os erros do nosso passado acabam por nos apanhar, eventualmente, e a vez de Piper chegou dez anos depois.
A primeira temporada inicia-se devagar, como que para nos habituarmos, assim como Piper, à sua nova situação – a rendição, a entrada na prisão, a adaptação e, obviamente, a sua ingenuidade relativamente a tudo e todos à sua volta.

Somos apresentados a uma grande parte das personagens que nos vão acompanhar ao longo de toda a série, cada uma com a sua história e importância, especialmente Red (Kate Mulgrew), uma russa de personalidade impenetrável e com um instinto maternal em relação às mais novas, Taystee (Danielle Brooks), uma mulher negra com um carisma inabalável, “Crazy Eyes”, ou Suzanne (Uzo Aduba) – inicialmente é-nos impercetível o quão importante e complexo se tornará este ser especial – e também Nicky (Natasha Lyonne), uma figura bastante engraçada que esconde a sua dor através do humor e da boa disposição.
A vida de Piper não é fácil na prisão devido ao ritmo a que estava habituada e, pior ainda, com um conselheiro homofóbico e controlador, Mr. Healy (Michael Harney), que em muitas vezes tentou ajudá-la, julgando-a superior às outras prisioneiras devido às suas origens, até que acabou mesmo por prejudicá-la quando percebeu que isso não era completamente verdade. A temporada termina com um confronto entre Piper e uma fanática religiosa, Pennsatucky (Taryn Manning), deixando em suspense o que aconteceu entre as duas.
Um aspeto extremamente diferenciador de “Orange Is The New Black” é que, ao longo de todas as temporadas, somos presenteados com vislumbres da infância e da vida antes do encarceramento dos nossos personagens mais emblemáticos (praticamente todos, na verdade). São justamente estas analepses que nos permitem, enquanto espectadores e seres humanos, conectar com as mulheres no ecrã, que sabemos representarem muitas outras mulheres e histórias reais.
Na segunda temporada surge um novo personagem, Vee (Lorraine Toussaint), que vem gerar o caos, intensificando os conflitos raciais existentes, mas meio que adormecidos. Vee começa por controlar aos poucos as mulheres negras, incentivando-as a imporem-se perante as outras prisioneiras e a ganharem poder na prisão. Red e Vee são antigas rivais, o que só aumenta os conflitos e o desejo de vingança entre as mulheres. O foco desta temporada é justamente o de mostrar a forma como os preconceitos existentes no nosso mundo se densificam num ambiente stressante, tornando situações difíceis ainda mais complicadas, afastando cada vez mais as pessoas, sem ajudar absolutamente nada.

Já na terceira temporada, a prisão de Litchfield submete-se à privatização e é aqui que o ambiente começa a mudar cada vez mais. Com cortes no orçamento, as condições na prisão são cada vez mais decadentes, criando um sentimento de desconforto e insegurança entre as mulheres. É também nesta fase da nossa história que ocorre uma falha de segurança enquanto a vedação do pátio exterior é arranjada, resultando assim na tentativa de fuga de inúmeras prisioneiras, acabando estas por ir parar a um lago. Este raro momento de liberdade, enquanto nadam, mostra-nos o desespero por um pouco de normalidade que sentem estas mulheres aprisionadas.
A temporada seguinte é uma intensificação dramática das consequências da privatização: os guardas contratados são cada vez menos competentes, originando um abuso de poder e agressões constantes, bem como o aumento do número de detidas na cadeia e consequentemente os conflitos raciais que, unindo-se à falta de condições básicas (refeições adequadas ou acesso a bens essenciais), criam um ambiente cada vez mais hostil. O final da quarta temporada é marcado por uma morte inesperada, mas extremamente revoltante de um personagem inofensivo, deixando-nos com o estômago revirado. Inicia-se um motim, o grito de guerra das mulheres maltratadas.
O motim acontece ao longo de três dias, durante a quinta temporada, e trata-se de um acontecimento crucial e modificador de toda trama. É aqui que se dá o grito final que evolui para uma orquestra de caos, desorientação e desespero. Já ninguém sabe quem é nem o que deve fazer, o que causa um colapso em (quase) todas as personagens, trazendo à tona reações e emoções inesperadas. Somos confrontados com a natureza humana num estado cru, e enquanto umas tentam lutar pelos seus direitos, liberdades e garantias, que mesmo dentro da prisão nunca lhes poderão ser negados, outras aproveitam para soltar o lado selvagem da sua liberdade individual. Nada corre como planeado.
Na temporada seguinte, tudo colapsa. As principais personagens são transferidas para uma prisão de segurança máxima, enfrentando novas dinâmicas e outras mulheres, num ambiente ainda mais tenso e hostil. Neste ponto, o futuro de muitas delas é incerto devido aos conflitos internos de velhas rivais, das consequências do motim nas penas e vidas das envolvidas e ainda devido a uma nova problemática – a deportação de imigrantes, colocadas em condições ainda mais deploráveis que nas prisões.

Na última temporada, a nossa primeira personagem principal, Piper, é libertada e vemo-la a tentar adaptar-se à sua nova vida no exterior – que não é nada como a anterior. Os episódios finais abordam os desafios do sistema de justiça, especialmente o impacto das penas perpétuas e ainda a falta de oportunidades aquando da saída do sistema prisional. A série encerra num tom melancólico, mas realista, mostrando que, apesar da luta incessante, a injustiça prevalece.
A importância de assistir e refletir sobre “Orange Is The New Black” não se prende no drama ficcional apelativo, nas lutas ou nas drogas, mas antes na quantidade de questões sociais complexas que são levantadas sobre o encarceramento e as suas consequências e impacto na vida das pessoas (as que estão dentro e fora da prisão), sobre o sistema de justiça criminal e a enorme quantidade de falhas e injustiças que este comporta. Destaque para o abuso de poder, quer seja das entidades que gerem a prisão, ou dos próprios guardas que muitas vezes abusam sexualmente e psicologicamente das prisioneiras para seu próprio benefício, e ainda sobre nós próprios e a nossa reação perante todas estas dinâmicas.
Mais do que uma série de sucesso, trata-se de um apelo à consciência coletiva acerca do que se passa por detrás das grades, especificamente no contexto americano, e das mudanças urgentemente necessárias para combater as degradantes condições dos seres humanos encarcerados, assim como as injustiças que viveram antes, durante a depois da prisão. De facto, tudo começa antes da própria prisão, quando uma criança inocente não tem apoio, amor, condições ou sequer as oportunidades certas e é levada para o mundo do crime como única escapatória, método de sobrevivência e, em alguns casos, onde encontra uma família que acolhe e cuida, mesmo que imperfeitamente.
Como reflexão final, convido-vos a explorar a Poussey Washington Fund, uma associação sem fins lucrativos criada pela equipa da série com o objetivo de financiar oito outras associações focadas em questões sociais relacionadas com a justiça criminal, reformas políticas, direitos dos imigrantes e apoiar todos aqueles que são afetados pelo encarceramento em massa.
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