A volta completa ao sol sinaliza que é hora de balanços. Paramos para olhar os números e recordamos bons e maus momentos passados à frente dos ecrãs, sejam eles gigantes ou mais pequeninos, em grupo ou na solitude das notas. Em certa medida, o cinema de 2024 foi igual a outro qualquer: quem se limitou à estreia do momento, ou melhor, à estreia cujo orçamento engole todas as outras novidades em cartaz, continuará provavelmente a lastimar que “já não se fazem filmes como antigamente”. Por outro lado, quem esticou mais a perna, quem reparou em vez de se limitar a olhar para as parangonas, pode ter sido recompensado pelo esmero.
A Crise de Espetadores como Sintoma de um Desamparo Cultural
Foquemo-nos então nos números, antes de irmos àquelas que considero ser as grandes obras cinematográficas de 2024. O caso está malparado. Até 18 de dezembro, o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) registou 11 milhões de espetadores nas salas de cinema nacionais, ou seja, o quarto ano com menos espetadores desde 2008 (que à data registou 15 milhões de espetadores).
Então se nos cingirmos às produções nacionais, que este ano chegavam às salas amiúde, os números são ainda mais alarmantes. As 70 produções nacionais que estrearam na sala escura tiveram pouco mais de 500.000 mil espetadores – e este é um número inflacionado sobretudo por dois filmes: “Balas & Bolinhos: Só Mais uma Coisa” (248.693 espetadores) e “Podia Ter Esperado por Agosto” (102.732 espetadores).
Num ano – particularmente este último quadrimestre – em que não faltaram oportunidades de ver cinema de bandeira nacional, os números dizem-nos que os portugueses rejeitaram de forma atroz as produções da sua língua (mesmo as que merecem público, como “Baan“, de Leonor Teles, ou mesmo “Estamos no Ar“, de Diogo Costa Amarante). Facto que parece preocupar apenas a pequeníssima bolha que luta dia após dia para fazer do cinema o seu trabalho. Sem interesse em pôr a mão na consciência, é seguro dizer que, enquanto país, andamos distraídos.

Ainda me ecoam as palavras do compositor Luís Tinoco, quando diz em entrevista ao Expresso: “Fico muito feliz de que as pessoas se entretenham, às vezes também sinto essa necessidade. Acho é que não podemos passar a vida entretidos“. Com isto, não quero reduzir o problema ao duelo clássico do cinema de apelo popular contra o cinema dito erudito. As raízes do problema são mais profundas.
Quanto a mim, têm que ver com um sistema de ensino que insiste em manter de parte a literacia visual, em geral, e o cinema português em particular (apesar das ações do Plano Nacional de Cinema), a decrescente perfusão de recintos de cinema ao longo do território nacional (em 1968 eram 492, em 2019 apenas 185) e, crucialmente, o vazio de programações e agentes que aproximam e enquadram o espetador nas respetivas sessões.
Agora Sim, Os Melhores Filmes de 2024
Era assunto que dava pano para mangas, não houvesse uma lista para expor e explanar. Impõem-se as tradicionais menções honrosas, que começam com o enigma de Pascal Plante, “Red Rooms“. Estudo de personagem obscuro que, em retrospetiva, cresceu na minha mente pela sua extraordinária capacidade de contenção. Segue-se o documentário “No Other Land“, realizado por vários resistentes da causa palestina frente à opressão israelita. É o cinema a cumprir função de denúncia, tão pessoal como urgente, reconhecido no Festival Internacional de Cinema de Berlim.
Permanecemos no Médio-Oriente para a última menção honrosa, que na próxima quinta-feira bem podia constar na lista. A dupla de cineastas iranianos Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha já me haviam convencido em 2022 com “O Perdão“, e desta vez voltam a surpreender-me com “O Meu Bolo Favorito“. Drama de enternecer o coração para logo a seguir o desfazer, não fosse o enredo uma demonstração simbólica das implicações de viver sob a cruel vigilância de um regime tecnocrático. Apropriadamente, não há espaço para finais felizes.
Avanço, então, para a décima posição da lista, onde encontro o filme de terror mais marcante do ano, “A Substância“, de Coralie Fargeat. Sátira de ponto de vista afiado e inspiração cronenbergiana, que está a iniciar conversas sobre a condição da mulher tanto na indústria do entretenimento como na sociedade. É provável que perdure na consciência popular e ajude a renovar o género de terror enquanto permanente espelho das nossas inquietações mais profundas.

Já no nono lugar assistimos à dança dos corpos; uma peculiar busca por poder. “Challengers“, de Luca Guadagnino, é não só puro divertimento, como um convite à descoberta de um trio romântico por uma lente estilizada e recheada de significados. Nunca o realizador filmou tão bem as suas obsessões.
Recordo o vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional e de Melhor Som no oitavo lugar: o drama histórico “A Zona de Interesse“, de Jonathan Glazer. Peculiar experiência sensorial, que num oceano de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, consegue reinventar-se com um trabalho austero e metódico. De seguida, um gigante do cinema pós-moderno: “A Besta“, protagonizado por Léa Seydoux, uma das atrizes francesas mais instigantes da sua geração. Nesta parábola oblíqua e desafiante, a comando do cineasta Bertrand Bonello, a intérprete conquista um novo patamar de subtilezas, seja a dançar num baile do início do século XX ou a sacudir-se numa discoteca futurista.
Perto do top 5, talvez a produção mais inesperada de 2024 e certamente uma das mais iradas que jamais passaram pelas nossas salas: “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo“, de Radu Jude. Estreia discreta, mas que certamente marcou quem conheceu Angela (Ilinca Manolache), escrava do capitalismo moderno, num filme que nos confronta com o absurdo de uma existência minada pela aflição de sobreviver nas metrópoles do século XXI. E o que acontece quando o capitalismo não tem rédeas? Expande-se sem limites.
É também isso que trata o sucessor de “Drive My Car” (2021), um pequeno grande filme chamado “O Mal Não Está Aqui“. Resposta contundente de Ryusuke Hamaguchi, que insiste em realizar filmes que resistem à passagem do tempo. Neste caso, trata-se de um drama ecológico de múltiplas camadas e final intrigante, cujas leituras ainda me assombram (à semelhança do quebra-cabeças final de “R.M.N.” (2022)).
Para não sairmos dos temas contemporâneos, eis em quarto lugar a única estreia do streaming: “Desconhecidos“, de Andrew Haigh. A composição do isolamento suburbano com matérias queer à mistura, que me levou para o imaginário da obra melancólica do pintor Edward Hopper. Exímio trabalho de comoção e empatia que me tornou, de alguma forma, mais humano. Exatamente o que Bella Baxter (personagem que valeu o Óscar de Melhor Atriz a Emma Stone) ambiciona em “Pobres Criaturas“, a história assinada por Yorgos Lanthimos que parte do monstro de Frankenstein para contar uma aventura exuberante sobre as contradições, hipocrisias e subjugações do Homem. Não há ninguém a fazê-lo de maneira tão imaginativa e competente como o mestre do Novo Cinema Grego.

Em 2024, redescobrimos o cinema de tribunal. Estrearam filmes como “O Processo Goldman” e “Jurado #2“, que embora muito diferentes na aplicação do estilo, levaram à lupa conceitos como «verdade» e «justiça». Coincidência ou não, o certo é que esta análise é particularmente relevante na era em que vivemos, a era da pós-verdade. Este ano, nenhum filme examinou melhor a complexidade dos nossos tempos do que o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2023, “Anatomia de Uma Queda“, de Justine Triet.
A narrativa coloca em confronto o rigor e a ordem do tribunal, contra os tumultos e matizes da vida conjugal. Sente-se uma tensão latente e desenvolve-se uma curiosidade tangível desde o início até ao desfecho. Se há tamanha minúcia, ela vem, claro, das interpretações – sobretudo da magnética Sandra Hüller –, mas também de um argumento reconhecido nos Óscares.
É uma peça estonteante de cinema, que só perde para o melhor filme do ano. A história real dos inseparáveis irmãos Von Erich, que na década de 1980 foram expoentes do wrestling profissional norte-americano. “Iron Claw“, realizado por Sean Durkin, convoca-nos, à semelhança da saga “O Padrinho” (1972 – 1990), para uma narrativa sobre a ascensão e queda de uma família com um patriarca que tenta viver os seus sonhos através dos filhos. Trabalhado numa matriz clássica e contado com energia e sensibilidade, este é um filme singular que compreende a tontice e a seriedade do wrestling. Sabe quando ser lúdico e dar a ver o ângulo do espetáculo, mas também cerra o punho e faz-nos sentir os esforços e frustrações.
É, portanto, na identidade familiar que “Iron Claw” cimenta o drama: passamos tempo de qualidade com as personagens e, por isso, sentimos a amplitude dos altos e baixos dentro e fora do ringue. Fala-se de maldição… pois bem, é a eterna tragédia que, nos últimos planos, não deixa de iluminar das profundezas um feixe de esperança incandescente: a imagem de um homem com uma nova família, depurada e disposta a fazer melhor que os seus antecessores.

1.º “Iron Claw”
2.º “Anatomia de Uma Queda”
3.º “Pobres Criaturas”
4.º “Desconhecidos”
5.º “O Mal Não Está Aqui”
6.º “Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo”
7.º “A Besta”
8.º “A Zona de Interesse”
9.º “Challengers”
10.º “A Substância”
M.H.1: “O Meu Bolo Favorito”
M.H.2: “No Other Land”
M.H.3: “Red Rooms”
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