A nossa sociedade atual está de tal forma minada de interesses e preconceitos que a ideia de justiça já se tornou, simplesmente, numa utopia. Desta forma, ou nos encaixamos ou dificilmente conseguimos mudar o mundo – pelo menos não apenas por nós. É preciso muita força e coragem para tentar mudar o status quo vigente e, para tal, é necessário fazer elevar os nossos princípios e a nossa moralidade. Quando isso é algo inerente, que realmente importa e faz sentido para nós, esta “luta” pode ser encarada como um bom desafio. Só não podemos esperar que não hajam danos colaterais.
“Snowpiercer” (2013), filme de ficção científica realizado por Bong Joon-ho, baseado na graphic novel francesa “Le Transperceneige” (1982), passa-se num futuro pós-apocalíptico: a Terra está congelada por uma nova era do gelo, causada por uma tentativa fracassada de combater o aquecimento global; desta forma, os únicos sobreviventes da humanidade refugiaram-se num comboio gigantesco chamado Snowpiercer, que circula pelo planeta sem parar. No entanto, o comboio está dividido em classes sociais, com os mais ricos a viver nas carruagens da frente, desfrutando de luxos e conforto, sendo que aos mais pobres é-lhes entregue as primeiras carruagens, sofrendo fome e opressão.
A história acompanha, deste modo, a revolta dos habitantes oprimidos, liderada por Curtis (Chris Evans), que tentam chegar à carruagem da frente, onde reside o misterioso Wilford (Ed Harris), a mente por detrás da criação deste comboio. No caminho, Curtis enfrenta vários obstáculos e revelações, fazendo-o questionar os seus ideais e as suas escolhas. Esta obra é, por isso, uma alegoria distópica sobre a luta de classes, explorando temas como a desigualdade social, a opressão, a revolução e o destino.

Decerto, a jornada através das diferentes carruagens do comboio é uma representação simbólica das várias etapas sociais: cada secção revela um aspecto específico do sistema que mantém o comboio em funcionamento, seja a manipulação de informações, a opressão física, a ilusão de liberdade ou a exploração desenfreada dos recursos naturais. Além da crítica social, a narrativa aborda questões morais e éticas, confrontando os espectadores com dilemas complexos. Assim, Bong Joon-ho desafia as noções de certo e errado, herói e vilão, explorando a dualidade inerente à natureza humana: as personagens são multifacetadas, apresentando, muitas vezes, nuances que desafiam a definição convencional de boa ou má pessoa, e sugere que a moralidade é relativa e moldada pelo contexto.
“Snowpiercer – Expresso do Amanhã“, título em português, é uma obra-prima visual que cria um universo rico e detalhado, com cenários e figurinos que fazem contrastar as diferentes realidades das personagens. A fotografia e a montagem são dinâmicas e envolventes, acompanhando assim o ritmo acelerado da narrativa. Além disso, a banda sonora é impactante, emocionante e envolvente, reforçando o clima de tensão e suspense. Como se não bastasse, o elenco é formado por atores talentosos e carismáticos, que interpretam personagens complexas. Neste sentido, destacam-se as interpretações de Tilda Swinton, John Hurt, Octavia Spencer e Song Kang-ho.

A narrativa, ao misturar ação, drama e crítica social, explora conceitos como liberdade, ideologia, sacrifício e violência; da mesma forma, ao usar o comboio como uma metáfora da sociedade, mostra como o sistema é mantido por uma ordem artificial e cruel, que beneficia apenas uma minoria e explora a maioria. A obra questiona, também, a possibilidade de mudança, apresentando diferentes visões sobre o destino do comboio e da humanidade.
“Snowpiercer” é, sem dúvida, uma longa-metragem que impressiona pela sua originalidade, ousadia e qualidade, contando com um argumento inteligente e uma realização criativa. Importa realçar, ainda, que o filme recebeu fortes elogios da crítica e do público, sendo considerado um dos melhores da década – tendo levado, inclusive, à criação de uma série de televisão homónima, estreada em 2020. No entanto, não está isento de críticas menos positivas. É possível defender uma excessiva simplificação de certos aspetos da narrativa e alegar que a representação da luta de classes poderia ter sido mais sutil e complexa. De todo o modo, nada que fira a qualidade diferenciadora da película como um todo.

“Snowpiercer” é, portanto, uma crítica social contundente, que denuncia as injustiças e as violências do sistema capitalista, capaz de gerar uma enorme disparidade entre os que têm e os que não têm. O filme também questiona o conceito de ordem e equilíbrio, que são usados como uma justificação para a manutenção da exploração feita até então. O argumento propõe, ainda, uma reflexão sobre o papel do indivíduo e do coletivo na transformação da realidade, e sobre as consequências e os custos de uma revolução. Contudo, não oferece respostas fáceis ou soluções utópicas, o que leva o espectador a refletir sobre as implicações das suas escolhas e ações.
Assim, “Snowpiercer” é uma obra que merece ser vista e debatida, com uma história que desafia, surpreende, diverte e incomoda. É, desta forma, um filme que transcende o género da ficção científica e se transforma numa metáfora poderosa e atual sobre a condição humana. Oferece, portanto, uma experiência cinematográfica única e instigante, que combina entretenimento e reflexão, desafiando o espectador a pensar sobre o mundo em que vive e o mundo que deseja.
Por um cinema feliz.
“Precisas de manter um equilíbrio adequado de ansiedade e medo, de caos e horror, de forma a manter a vida em andamento. E se não tivermos isso, precisamos de o inventar.“
Wilford
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