Nota: “Inscryption” é um jogo repleto de segredos que foram propositadamente ocultados na promoção do jogo. Por esta razão, esta crítica apenas se focará nos elementos de história e jogabilidade que estão presentes nos trailers.
“Inscryption” é o terceiro videojogo do desenvolvedor indie Daniel Mullins, conhecido por sucessos de culto como “Pony Island” e “The Hex“, mas também por ser participante frequente em game jams, competições onde os participantes, individualmente ou em equipas, desenvolvem um jogo de raiz num curto espaço de tempo, normalmente entre 24 e 72 horas.
Foi em 2018, na 43.ª edição da game jam Ludum Dare, que, em 48 horas, Daniel Mullins produzia o código, arte e áudio de “Sacrifices Must Be Made“, um jogo de cartas que serviu como protótipo daquilo que viria a ser o jogo que dá título a este artigo. Aproveitando a atenção e o interesse por parte dos jogadores nessa pequena demo, Mullins continuou a melhorar o jogo, até que, em 2021, “Inscryption” era lançado para PC (viria a sair mais tarde para consolas), pela mão de uma das mais populares distribuidoras de estúdios independentes, a Devolver Digital.

Iniciando-se com um tutorial económico e acelerado, são explicados ao jogador, através de um misterioso interlocutor, os conceitos core do jogo. Cada carta possui um valor de ataque e vida, que pode ser usado para infligir dano nas cartas à sua frente ou então, caso não existam, o dano é causado diretamente ao adversário.
A principal função do jogo é usar as cartas para causar o máximo de dano possível ao jogador rival e poder assim vencer a partida, quando a diferença entre o dano causado e sofrido for maior ou igual a cinco pontos. Apesar de tudo isto ficar assente durante o curto tutorial, “Inscryption” reconhece que a melhor forma de ensinar o jogador é colocando-o diretamente em jogo. A introdução acaba por ser uma mera formalidade, que, contudo, não deixa de ser suficiente para que o jogador não se sinta completamente perdido.

A terceira característica de cada carta é o seu custo. O grande twist que o jogo coloca e que o ajuda desde logo a diferenciar-se da maioria dos jogos de cartas, é que este preço é não é pago com pontos que se recarregam automaticamente ou ganhos durante os turnos, mas sim com sacrifícios. Quer isto dizer que, se uma carta tiver um custo de dois, terão de ser sacrificadas duas cartas na mesa para poder jogar a nova carta.
Este sistema acrescenta uma camada de planeamento e cuidado a ter em cada jogada, uma vez que o tabuleiro de jogo apenas suporta até quatro cartas em simultâneo. Esta mecânica faz também com que todas as cartas possam ser importantes. Um bom exemplo são os esquilos, cartas com zero de ataque e um de vida, mas que não têm qualquer custo, sendo excelentes para ter na mão, tanto para serem usados na defesa de ataques de cartas adversárias ou (sendo a estratégia mais comum) como sacrifícios ‘baratos’.
Um quarto elemento opcional das cartas são os sigilos, características especiais que alteram o seu funcionamento. Isto poderá fazer com que uma carta, por exemplo, faça sempre ataque direto ao adversário (mesmo que este tenha cartas na sua frente), esteja impedida de sofrer dano durante uma ronda ou que até elimine instantaneamente a carta adversária à sua frente.

A progressão em “Inscryption” é baseada num género a recuperar alguma popularidade nos últimos anos, o roguelike. Embora não haja consenso sobre a definição de um roguelike, algumas características são geralmente associadas a estes jogos. Primeiro, um sistema de permadeath, ou seja, se o jogador perder terá de começar o jogo (ou parte) de novo. Segundo, o uso de aleatoriedade entre cada cenário (ou run). Em “Inscryption”, o baralho com que o jogador começa, as cartas que vai ganhando, as melhorias que pode fazer e os combates (excetuando boss fights), são diferentes entre cada run.
Existe um terceiro ponto que gera discórdia no género roguelike, relacionado com o progresso no jogo. Usando a definição (inspirada no jogo “Rogue“, de 1980), um roguelike não deverá ter progresso ou evolução entre diferentes runs, criando a categoria paralela dos roguelites. Nos roguelites, é comum o jogador poder evoluir a sua personagem entre diferentes runs, criando vantagem nos próximos desafios. “Inscryption”, por essa razão, talvez se situe mais perto do roguelite, uma vez que cartas ganhas numa determinada batalha poderão depois fazer parte dos baralhos iniciais de runs seguintes.

Os combates são extremamente viciantes, ajudados não só pelas várias formas de progresso e melhoria do baralho (tais como a possibilidade de juntar cartas repetidas e criar uma mais forte, ou sacrificar uma carta para usar os seus sigilos noutra), mas também pelo curto tempo de cada run (tipicamente menos de 30 minutos), algo que deixa constantemente a sensação de que “na próxima é que é”.
Um pormenor delicioso são as chamadas “cartas da morte”. Quando o jogador perde um combate e, por consequência o jogo, tem a possibilidade de criar uma carta sua, juntando os melhores atributos (ataque, vida, preço e sigilos) das cartas do seu baralho. Estas cartas podem depois aparecer em combates posteriores, muitas das vezes fazendo a diferença. Esta simples mecânica argumenta a favor da ideia de que cada run é um passo em frente até atingir o objetivo final para derrotar o antagonista da história e não “apenas mais uma”.

Ainda que “Inscryption” não precisasse de mais elementos além daqueles que fazem parte do gameplay loop principal (a construção do baralho e os combates), uma parte importante do jogo, ligada ao progresso da história (mas também com vantagens para o baralho) acontece fora do tabuleiro. Estes momentos acontecem quando o jogador se afasta da mesa de jogo e explora o pequeno quarto onde se passa a ação. Desde cartas escondidas a itens raros, com o passar do tempo e um pouco de curiosidade, o jogador vai percebendo paralelos entre o que acontece nas cartas e fora delas.
Tal como se sugeriu na nota introdutória, “Inscryption” é um jogo com muitos segredos, o que torna difícil uma crítica mais extensiva sem estragar ou roubar a experiência ao jogador, que ainda não teve a oportunidade de jogar. Dir-se-á apenas que “Inscryption” se consegue reinventar múltiplas vezes ao longo das cerca de 15 horas de jogo, tornando-o um dos jogos mais surpreendentes dos últimos anos.
Disponível em: Linux, MacOS, Nintendo Switch, PS4, PS5, Windows, Xbox One, Xbox Series X|S
