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Porque A Arte Somos Nós

Podem ler a primeira parte deste ensaio aqui!

A Dieta das Redes Sociais

Dieta (v.): “regular-se quanto à alimentação”, do latim diaeta “modo de vida prescrito”; também de diaitan, originalmente “separar, selecionar”; do grego diaita, “modo de vida, regime, habitação”; relacionado a diaitasthai “conduzir a própria vida”.

(From Etymology Dictionary Online — https://www.etymonline.com/word/diet)

A etimologia é um conceito complicado.

A mesma palavra pode ter vários significados, dependendo de se a vemos sob a ótica de uma ou outra cultura. Dito isso, penso que a maioria concordaria que os poucos significados que selecionei são universalmente aceites como o que é uma dieta.

Regular-se é algo importante na vida de qualquer pessoa! Embora os nossos corpos sejam máquinas auto-reguladoras (se tudo estiver a funcionar corretamente), podemos perturbar esta habilidade geneticamente programada simplesmente comendo os “alimentos errados”. Muito açúcar e pode torna-se diabético, muito sal e é “olá hipertensão”! Pouco ferro e torna-se anémico, pouca vitamina C e transforma-se num pirata doente perdido no mar — escorbuto; desculpem, tinha de o dizer.

O mesmo se pode dizer da mente e da saúde mental. Quando não tem serotonina suficiente, pode tornar-se depressivo; demasiada adrenalina e ficará hiper-vigilante, e assim por diante. Tudo é uma questão de equilíbrio, moderação e, na minha opinião, o mais importante — EDUCAÇÃO. Uma vez que sabe o que tem de fazer, só tem de o fazer.

Simples. Mas não necessariamente fácil.

Todos os dias navegamos na internet e começamos o nosso regime diário de conteúdos. A nossa ingestão de “alimentos” na internet pode ou não refletir as nossas escolhas alimentares offline, mas o mais provável é que, se faz más escolhas no seu prato, as suas escolhas na world wide web também não deverão ser grande coisa. E isso vale para ambos os lados. Pessoas saudáveis seguem dietas saudáveis e pessoas “saudáveis” nas Redes Sociais. Pessoas não saudáveis seguem pessoas “não saudáveis” nas Redes Sociais e, consequentemente, dietas não saudáveis. Se não acreditam em mim, tentem analisar o vosso próprio caso. Vejam também as escolhas dos vossos amigos e vejam se conseguem ver os padrões a repetirem-se.

Vivemos num mundo onde “PewDiePie” e “Mr.Big” são das pessoas mais seguidas no YouTube. “Lele Pons” e Dan Bilzerian têm o maior número de seguidores no Instagram. “Khaby Lame” e Charli D’Amelio são os vencedores do TikTok e Cristiano Ronaldo e Shakira são os melhores jogadores do Facebook. Tal é a velocidade de crescimento destas plataformas que os nomes que escrevi acima já nem devem estar atualizados…

Deixem-me já dizer isto antes de ser cancelado: isto não é um ataque a nenhum deles! Respeito profundamente o trabalho de cada uma destas pessoas.

Bem, talvez não de todos eles, mas acho que percebem o que quero dizer.

Se eles não tivessem algum tipo de valor, não seriam líderes dessas redes. E ainda assim, quando se pensa no que eles estão realmente a fazer por nós, pela nossa felicidade e pela nossa saúde física e mental, chego à conclusão de que não estão a contribuir ativamente para isso. Nem deveriam. São celebridades, não os nossos amigos, nem o nosso médico. Não deveríamos procurar conselhos de celebridades sobre como viver a nossa própria vida.

Então por que o fazemos?

Por que a maioria de nós o faz?

Conscientemente, ou como na maioria das vezes, inconscientemente.

Nunca vi nenhum guia sobre “Como navegar na Internet” ou uma aula “Internet para tótós” — e, mesmo que existisse, provavelmente não cobriria este tópico. Isto é tudo muito “novo” e desconhecido. Território inexplorado. Estamos realmente a viver no lado do mapa da história humana que ainda está em branco.

A internet como hoje a conhecemos existe desde 1983, e as Redes Sociais propriamente ditas desde 1997 com uma plataforma chamada SixDegrees.com, onde se podia criar uma página de perfil, criar listas de conexões e enviar mensagens dentro de redes. Certamente, soa muito familiar pelos padrões de hoje.

Hora de ir um nível mais além.

Prepare-se.

Governos e sistemas de saúde em todo o mundo têm falado cada vez mais sobre os riscos e problemas de saúde que representam as consequências do excesso de peso e obesidade — e ainda bem que o fazem. É essa a verdadeira pandemia e já mostrei os números há pouco.

Provavelmente, só por escrever a frase anterior, serei chamado de ‘gordofóbico’, sizeist e outros termos inventados que supostamente descrevem o meu “ódio” por pessoas com excesso de peso e tamanho.

Lembrete gentil: Sou médico. A minha preocupação e ocupação estão dentro do espectro da Saúde. E lamento muito dizer isto, mas ter excesso de peso/obesidade NÃO é saudável. Assim como não é ser anorético, ou estar demasiado abaixo do peso ideal para a idade/altura.

Agora, a autoaceitação e problemas de imagem corporal são um tópico completamente diferente. E até esses estão a ser massivamente condicionados pela internet como um todo. Atualmente, temos uma das indústrias mais (se não a mais) influente — a moda — a promover modelos plus size e a dar-nos outros “padrões” que estão a fazer maravilhas pela saúde mental de rapazes e raparigas em todo o mundo. Não vou discutir se é uma coisa boa ou má, pois como disse, a minha preocupação é com a saúde e não com a antropologia, sociologia ou quaisquer outros estudos sobre os quais pouco percebo.

Mas o facto mantém-se — a Internet está a influenciar todos os aspetos das nossas vidas. E as “pessoas da internet”, também conhecidas e vistas como “influenciadores”, estão a fazer EXATAMENTE aquilo para o qual o seu hobby/profissão recém-encontrado os chama. Mas se os influenciadores estão a agir como empresas e marcas, a sua moeda não é tanto o dinheiro que ganham, mas as pessoas que estão a influenciar. Isso significa nós, os nossos pais, os nossos filhos, os nossos amigos e todas as pessoas que a maioria de nós conhece e socializa.

Bem, acho que se for um monge isolado isso realmente não se aplica. Mas talvez até se aplique.

Onde quero chegar é que se não estivermos conscientes do que está a acontecer, não existe forma de podermos melhorar. Sinto que alguém já disse isto antes: “Se não estiver ciente da sua própria programação, é você que está a ser programado“.

Isso a menos que tenhamos um médico porreiro a aplicar o seu tempo em escrever um artigo (e esperançosamente, com a vossa ajuda, um livro) sobre este assunto e a dar-lhe soluções que podemos aplicar na nossa vida e ajudar-nos a resolver este problema.

O primeiro passo é tornar-se auto-consciente.

Consciente do que está a “comer” no seu prato e nos seus ecrãs. Como isso o influencia? Está a aprender, a crescer e a educar-se? Ótimo.

Quer aprender, crescer e ficar ainda mais educado? Ótimo. Faça mais disso.

Está deprimido, constantemente a comparar a sua vida com a de outras pessoas e a sentir-se preso nas suas próprias circunstâncias de vida? Não é bom.

Quer sentir-se mais deprimido, continuar a comparar a sua vida com o que outras pessoas lhe mostram que é a vida delas e sentir-se mais preso nas suas circunstâncias presentes? Não?

Então por que não consegue parar?

Dou-lhe mais uma: O seu melhor amigo passa uma hora a bater com a cabeça contra a parede. No final dos 60 minutos, diz que vai continuar a fazê-lo, mesmo estando realmente magoado, cansado e sem conseguir pensar. Ele pede o seu conselho. O que diz ao seu melhor amigo?

Sei o que está a pensar. “Para de fazer isso, idiota!” ou algo do género, certo?

Por que, então, não consegue fazer o mesmo pelo seu melhor amigo de todos os tempos na vida real? — você mesmo.

Tendo muito mais para explorar neste tópico, mas tendo em mente a sua paciência, gostaria de lhe pedir para se lembrar mais uma vez da etimologia da palavra DIETA, e deixá-lo com quatro perguntas simples — mas não fáceis — para digerir:

  • Como está a regular-se em relação aos seus “alimentos”? Sejam digitais ou físicos;
  • Que “estilo de vida” está a prescrever (ou programar) para si mesmo?;
  • Como está a “separar e selecionar” o que consome todos os dias?;
  • Se tivesse filhos, como os educaria a navegar nas águas perigosas da Internet, mais especificamente, das Redes Sociais? (Se já tem filhos, o que já fez para ajudá-los a estar mais seguros enquanto interagem com a rede?);

Estas perguntas não são retóricas.

Nenhuma delas!

Gostaria muito de saber as suas respostas para todas elas (e muitas mais que estou a guardar por agora).

Acredito verdadeiramente que temos de ter estas conversas para podermos começar a pavimentar o caminho para uma sociedade saudável e próspera.

Todos nós.

Juntos.

De todos os caminhos da vida.

De todas as classes sociais e escolhas de vida.

De todos os pontos de vista.

Especialmente os desconfortáveis.

Ter as conversas difíceis que, como sociedade, temos evitado por causa do recém-descoberto “medo de ser cancelado” (oops…) é a única maneira de dissolver as “Ilusões Coletivas” inconscientes, como Todd Rose (Psicólogo; Co-fundador da Populace; professor na Harvard Graduate School of Education; literalmente escreveu o livro sobre este conceito!) diria.

É apenas saindo do buraco passivo apático da “zona de conforto” que podemos lutar para viver num mundo onde estamos seguros para deixar os nossos filhos navegar com segurança nas águas da rede pública que nos une a todos — a Internet. E é, somente, não nos ofendendo ao primeiro sinal de discordância que todos podemos prosperar e não apenas sobreviver, escolhendo consciente e voluntariamente o que decidimos consumir nesta nave para um novo mundo que são as Redes Sociais.

Felipe Torres

Fica aqui também o perfil de Instagram do Dr. Felipe Torres.

A pintura da capa é da autoria de Salvador Dalí, “A Última Ceia” (1955)

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