OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

É como se Angelo Badalamenti e David Lynch decidissem que a música do filme “Twin Peaks” (1992) precisava de ser ainda mais sexy e assustadora do que a banda sonora original da série. Como o filme é um animal totalmente diferente desta última, eles oferecem apenas breves fragmentos das melodias frequentemente usadas no programa. “Twin Peaks” (1990-1991), o programa de televisão, demonstrou a genialidade de Badalamenti. A música de “Fire Walk With Me” baseia-se no seu antecessor e estabelece uma estética absolutamente sensacional para jazz com sintetizadores, juntando obras instrumentais completas com algumas músicas. Aqui a música é mais jazz e menos dramática. Contudo, não alcança o som assombroso da banda sonora da série, nem uma qualidade genial.

Nunca antes as cores evocaram respostas emocionais tão confusas. O tema central do filme lembra a malha azul difusa durante os créditos, e o trompete solitário estabelece a atmosfera onírica tão presente na cidade de Twin Peaks. Além disso, esse azul é tão perturbador e preocupante, mas igualmente furtivo. Certamente, dá o tom para a maior parte do resto do álbum. Os destaques aqui são os dreammy Moving Through Time e Sycamore Trees, a primeira dominada por improvisação e vibrafone, e a última é a canção que apareceu no episódio final da série, com o lendário cantor de jazz Jimmy Scott dando um triste lamento com uma das letras mais misteriosas de David Lynch. Também merecedor de menção, The Pink Room, composto apenas por Lynch, traz à mente aquele cor-de-rosa insultuosamente saturado – um tipo de rosa tão repugnantemente sexualizado e erótico. Além disso, a faixa de Badalamenti, Black Dog Runs At Night, é talvez a faixa mais assustadora daqui, que apresenta vocais do próprio Angelo. No lado mais fraco, há Best Friends, um pequeno e simples trabalho de piano e guitarra escrito por Lynch e David Slusser, não há nada de especial nesta faixa e, infelizmente, acaba por ser um filler.

Concluindo, a notória banda sonora de Angelo Badalamenti consegue ser bonita, assustadora e, ao contrário de muitas bandas sonoras, extremamente audível por si só. Pode não ser perfeito, mas “Twin Peaks: Fire Walk With Me” está entre os mais sublimes e dolorosos álbuns alguma vez gravados. Todas as músicas se encaixam como uma luva no contexto do filme e na mente do espectador, esperando serem dissolvidas. É uma pena que o filme tenha recebido críticas tão negativas quando foi lançado, porque automaticamente isso fez com que a música passasse ao lado da maioria dos ouvintes. Curiosamente, os únicos prémios conquistados pelo filme foram para a banda sonora de Badalamenti, que ganhou um Spirit Award, um Saturn Award e um Brit Award.

João Filipe

Rating: 3 out of 4.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: