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Formidável romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura, “Travessuras da Menina Má” (Alfaguara, 2006, 302 p.) é um livro semi-biográfico. Explico: o autor empresta ao seu personagem, Ricardo Somocurcio, a visão e os lugares visitados por ele. O passeio autobiográfico começa no bairro peruano de Miraflores, na década de 1950, acalentando o sonho distante do jovem Ricardo de morar em Paris.

No frescor da juventude, Ricardo apaixona-se pela “chilenita” Lily, personagem fugidia que irá permear os sete capítulos, sempre transmudando a sua frágil personalidade e, ao mesmo tempo, esbarrando-se mundo afora com o protagonista. Este ganha a vida como tradutor e se vê residindo na Cidade Luz na década seguinte. O olhar crítico de Llosa empresta a Somocurcio uma análise diferente do que foi o “Maio de 68” comummente expresso nos livros de História.

O segundo capítulo descreve a França portentosamente: o general Charles de Gaulle, o ministro da Cultura André Malraux, os boulevards arborizados, os edifícios simétricos e a multidão de jovens com bolsas, livros e cadernos circulando pelos bistrôs e ruas nos arredores da Sorbonne, os museus do Louvre e Rodin, as casas de Victor Hugo e Balzac, enfim, as descrições são minuciosas e envolve-nos a leitura. É aí que ocorre o circunstancial encontro entre a “camarada” Lily e Ricardo. A “chilenita” estava em França para uma ponte, pois atuaria em grupos guerrilheiros na ilha de Cuba, sob o comando do ditador Fidel Castro. Frígida como ela só, Lily privilegia o dever ao amor.

Charles de Gaulle

Ricardo não deseja ser um empecilho para o sacrifício que se mostra inadiável: a ida do seu amor a Cuba para retornar ao Peru e participar de uma guerrilha armada. Sem notícias, Ricardo surpreende-se a seguir ao saber que a “menina má” (epíteto de Lily) se casara com um diplomata francês, Robert Arnoux, claro, por interesse.

Após saquear a sua conta na Suíça e dar no pé (vai para a Inglaterra), ela irá mostrar a sua personalidade fria bandida. Retorna a Paris e encontra-se às escondidas com o bobo do Ricardo, eterno apaixonado. Este classifica o seu amor com ironia e profundidade: ela era a falsa chilena (pois não passava de uma peruana de classe baixa), falsa guerrilheira e ex-madame Arnoux.

O capítulo seguinte dá um retrato fiel da Londres dos hippies, dos Beatles e dos Rolling Stones. Quatro anos se passam sem que Ricardo e Lily se encontrem, e o acaso os faz trombarem em Newmarket, uma cidadezinha londrina. Ali ele observa estupefacto que o seu amor agora atende pelo nome de madame Richardson, casada com Mr. David, um fanático por cavalos e equitação. O encontro é tenso, as personalidades volúveis de ambos fazem-se perder nos braços um do outro e Ricardo novamente é alçado à condição de amante. Mais um novo golpe de Lily e no capítulo quatro vamos encontrá-la em Tóquio.

A ressaltar que ela não dá a mínima satisfação a Ricardo, que vive na ponte aérea Londres – Paris com a sua paixão não correspondida. Agora ele já consegue bons honorários por serviços prestados na UNESCO, mas, mesmo residindo na França há algum tempo, sente-se um completo forasteiro, um apátrida. Faz uma amizade com o também tradutor Salomón Toledano, que passa uma temporada em Tóquio trabalhando na fábrica da Mitsubishi. Escrevendo uma missiva ao amigo, Toledano afirma que não sentia a menor falta da chuvosa Paris. Menciona que conhecera uma mulher que houvera mudado a sua perspectiva de não se apegar a alguém.

Tratava-se de Mitsuko, que é amiga de Kuriko, que conhecera e que vem a ser, adivinhem? A nossa menina má. Ela é agora completamente submissa ao chefão do crime organizado, de nome Fukuda. Este exerce um poder coercitivo sobre Lily expondo-a a todo tipo de situação, das mais humilhantes possíveis. A menina não se queixa, ao contrário, participa de um embuste de modo a proporcionar ao seu amo uma condição de voyeur na sua transa com Ricardo. Transtornado com o Sr. Fukuda a masturbar-se num canto escuro, Ricardo perde as estribeiras e sai de cena.

O capítulo cinco mostra-nos um Ricardo taciturno e arredio, que só encontra motivação com a presença da vizinhança nova que vem morar no seu prédio: a família Gravoski. O menino Yilal, filho adotivo de nove anos, rouba a cana. O título do capítulo informa: “O menino sem voz”. Por problemas médicos, o garoto sofre de um mutismo que deixa os seus pais entristecidos. Procurando esquecer a menina má, Ricardo afeiçoa-se a essa família, mas eis que volta a “chilenita”.

Relutante a princípio, acaba convencendo-se da necessidade de ajudar aquela destrambelhada. A partir daí a curva descendente do seu amor se evidencia. Enferma, física e psicologicamente, encontra abrigo outra vez nos braços dele e conta mais uma história fantástica. A essa altura do campeonato, ele não conseguia dar nenhum crédito às explicações dela. Mas o amor é devotado, perdoa tudo, e ponto comovente é a afeição do menino com Lily. Chega inclusive a balbuciar algumas palavras.

Ela é internada numa clínica de recuperação mental, retorna após um período e inicia a vida de dona de casa. Por pouco tempo. Ricardo fica com os nervos em ‘frangalhos’, a ponto de tentar o suicídio. É salvo por um mendigo. Reencontra Lily e a sua persona de Madalena arrependida. Ele perde a compostura de vez nessa relação doentia.

Um retorno ao Peru no capítulo seguinte e um elo que se fecha com mestria. Coincidência bem trabalhada e de certo apenas o facto de Lily ter resolvido sair da vida de Ricardo (ufa!), isso após devotar um sentimento nunca revelado.

O último capítulo surpreende por um relacionamento inovador e o surgimento da artista Marcella, eis a redenção. Mas voltam à cena o amor doentio, submisso, pulsante, explosivo e ocorre um desfecho surpreendente.

Num todo, o livro é muito bom, faço uma ressalva apenas para as narrativas de sexo pouco elaboradas. Uma submissão meio moralista do autor, mas nada que estrague o brilho e o teor da sua narrativa. Enredo bem trabalhado, linguagem não empolada, diálogos inteligentes e um passeio por uma perspectiva de quatro décadas. Mesmo residindo em diversas cidades (Madrid, Paris, Lima, Londres), a se ressaltar a importância e as nuances da capital francesa. “Travessuras da Menina Má” é um livro gostoso de se ler. Flui bastante a leitura!

Mario Vargas LIosa

Também fui perdendo o interesse pela situação política francesa, que antes acompanhava com paixão. Nos anos 70, durante os governos de Pompidou e de Giscard d’ Estaing, eu quase não lia as notícias de atualidade. Nos jornais e revistas, só me interessava, quase exclusivamente, pelas páginas culturais. Frequentava exposições e concertos, mas já nem tanto o teatro, que caíra muito em relação à década anterior, mas ia, em compensação, até duas vezes por semana, ao cinema. Felizmente, Paris continuava sendo um paraíso para os cinéfilos. Quanto à literatura, parei de me atualizar porque, tal como o teatro, o romance e o ensaio caíram vertiginosamente na França.

Nunca pude ler com entusiasmo os ídolos intelectuais dessas décadas, Barthes, Lacan, Derrida, Deleuze e outros, cujos livros palavrosos caíam das minhas mãos; só lia Michel Foucault, cuja história da loucura me impressionou muito, e também seu ensaio sobre o regime carcerário (Vigiar e Punir), mas não me convenceu com sua teoria que a história do acidente europeu era a história das múltiplas repressões institucionalizadas – o cárcere, os hospitais, o sexo, a justiça, as leis – de um poder que colonizava todos os espaços de liberdade para aniquilar as divergências e a insatisfação. Na verdade, naqueles anos li principalmente os mortos, em particular os escritores russos“.

– Trecho do romance

Na segunda metade dos anos 60, Londres substituía Paris como a cidade das modas que, partindo da Europa, se espalhavam pelo mundo. A música substituiu os livros e as ideias como centro de atração para os jovens, principalmente a partir dos Beatles, mas também de Cliff Richard, Shadows, Rolling Stones com Mick Jagger e outras bandas e cantores ingleses, e dos hippies e a revolução psicodélica dos flower children. Assim como antes iam fazer a revolução em Paris, muitos latino-americanos emigraram para Londres e se alistarem nas hostes da cannabis, da música pop e da vida promíscua. Carnaby Street substituiu Saint Germain como umbigo do mundo.

Em Londres nasceram a minissaia, os cabelos compridos e as roupas extravagantes que consagraram os musicais “Hair” e “Jesus Christ Superstar”, a popularização das drogas, a começar pela maconha indo até o ácido lisérgico, a fascinação pelo espiritualismo hindu, o budismo, a prática do amor livre, a saída do armário dos homossexuais e as campanhas do orgulho gay, assim como uma rejeição em bloco do establishment burguês, não em nome da revolução socialista, à qual os hippies eram indiferentes, mas sim de um pacifismo hedonista e anárquico, matizado pelo amor à natureza e aos animais e por uma renegação da moral tradicional.

Os pontos de referência para os jovens rebeldes não eram mais os debates em La Mutualité, o Noveau Roman, nem refinados compositores e intérpretes como Leo Ferre ou Georges Brassens e os cinemas de arte parisienses, e sim Trafalgar Square e os parques onde, liderados por Vanessa Redgrave e Tariq Ali, faziam manifestações contra a Guerra do Vietname em meio a shows multitudinários dos grandes ídolos e baforadas de erva colombiana, e os pubs e discotecas eram símbolos da nova cultura que mantinha milhões de jovens de ambos os sexos magnetizados por Londres.

Aqueles anos também foram, na Inglaterra, de esplendor teatral, e a montagem da peça “Marat-Sade”, de Peter Weiss, dirigida em 1964 por Peter Brook, até então conhecido principalmente por suas revolucionárias encenações de Shakespeare, foi um acontecimento em toda a Europa. Nunca vi no palco nada que se gravasse com tanta força na minha memória“.

– Trecho do romance

Marcelo Pereira Rodrigues numa livraria em Miraflores, cenário de Travessuras, diante de um quadro de Llosa

Marcelo Pereira Rodrigues

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