O BARRETE

Porque A Arte Somos Nós

José de Sousa Saramago, neto de camponeses, nasceu na Azinhaga, no Ribatejo, foi serralheiro mecânico e subdirector do Diário de Notícias, e é o nosso único Nobel da Literatura da história. Mas, uma das coisas mais fascinantes a constatar nele é o facto de só ter começado a escrever de forma independente a partir dos 50 anos. Entre os primeiros livros e este “salto” passaram umas décadas, onde o próprio afirma “não ter tido nada para dizer“. É, ademais, um escritor polémico, sobretudo pela sua escrita invulgar, que subverte as regras ditas gramaticais; tornou a língua prática: usa apenas a vírgula e o ponto… “São as duas sinalefas que pautam uma melodia – uma pausa curta e uma pausa mais demorada“. Qual o objectivo? Tornar o discurso mais oral, e eliminar, o máximo possível, a barreira entre o escritor e o leitor.

Em 1992, o Secretário de Estado da Cultura vigente, Sousa Lara, vetou a obra “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, como afronta a um património religioso em causa. Em resposta, Saramago, “só” disse o seguinte: “O drama não é que as pessoas tenham opiniões. Isso é óptimo. O drama é que as pessoas tenham opiniões sem saber do que falam“. Foi acusado de dividir os portugueses, mas sempre ciente que tudo não passou de uma mera irreflexão e estupidez política. Foi uma violência que despoletou uma saída de Portugal: que não foi um corte com o País, não foi um exílio, mas sim uma revolta. Nesta obra, Saramago faz uma caricatura à Bíblia, a qual afirma ser “um manual de maus costumes.”

Estamos a falar de um autêntico visionário, que era sempre fiel aos seus pensamentos e convicções, não deixava ninguém limitar a sua liberdade de expressão e criativa, conseguindo sempre transpor nos seus romances metáforas repletas de sabedoria, audácia, paixão e compromisso para com a história, a vida e a arte. Entre inúmeras coisas, destacam-se algumas frases em vida que merecem mais que uma mera atenção: “Aquilo que vier a ser meu às mãos me há-de vir ter (…) Provavelmente tenho tudo porque nunca quis nada“. Decerto, algumas das epigrafes dos seus livros são também elas dignas de um enaltecimento, mesmo que breve: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara“, (“Ensaio sobre a Cegueira”), ou “O caos é uma ordem por decifrar” (“O Homem Duplicado”).

Como podemos ver, estamos a falar de um mestre das letras e da escrita, que não precisou depender de ninguém para chegar onde chegou. Este deixa-nos uma de muitas lições importantíssimas: “O teu sucesso chegará com tranquilidade. Se fores realmente bom, aquilo que és é o passaporte para um novo mundo de oportunidades“. Como diria outro génio, “põe tudo o que és no mínimo que fazes“.

Obrigado pelo património intelectual que nos deixaste. Até sempre.

Tiago Ferreira

Em 1818 a jovem Mary Shelley escreveu um drama gótico que foi descrito por um crítico da época como “ficção muito ousada”. Poucos anos depois, o livro deu origem a diversas peças teatrais e em 1910 foi feita a primeira adaptação cinematográfica do livro numa curta-metragem muda. 21 anos mais tarde, após o sucesso crítico e comercial de “Drácula” (1931), o realizador James Whale conseguiu a derradeira interpretação do monstro com o filme “Frankenstein, o homem que criou o monstro“. Não só fez do ator Boris Karloff uma estrela internacional, como criou a imagem da criatura que perdura na consciência popular mais de 85 anos depois.

O filme começa com um aviso a informar-nos que estamos prestes a testemunhar uma experiência aterrorizadora e que devemos abandonar a sala caso não estejamos preparados para o choque. É interessantíssimo como a primeira vaga de terror no cinema americano teve tanto impacto na cultura popular vigente. Atualmente, qualquer filme para mais de 12 anos tem mais conteúdo gráfico do que “Frankenstein”, mas continua a ter uma história com uma complexidade admirável e foi dos primeiros a ter a genuína intenção de intimidar.

Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive) é obcecado pelo conceito de criar vida. As suas ideias perigosas levaram-no a sair da universidade, pois os cientistas não o deixavam progredir os seus estudos lá. Persistente, decide criar um laboratório num castelo isolado para continuar as suas experiências com corpos que roubava do cemitério. Numa negra e turbulenta noite, ele conseguiu animar um corpo composto por partes de pessoas diferentes, que o próprio cozeu. Mas o seu sucesso depressa se tornou em fracasso. Depois da criatura matar o seu assistente corcunda (Dwight Frye), o cientista percebeu que não a podia controlar, e com a ajuda do seu antigo mentor, Dr. Waldman (Edward Van Sloan), Frankenstein planeia eliminar o monstro.

Mesmo quem não é aficionado pelo género conhece vagamente esta história. Para além dos seus ecos reside um filme com imenso mérito próprio, principalmente pelo atrevimento de Whale em explorar ao máximo as oportunidades recém-descobertas pelo meio. Entre técnicas de montagem básicas, como close-ups e long shots, o destaque vai para a inovação dos movimentos da câmara, em contraposição a imagens paradas, que eram mais comuns na época. A combinação de sons como estrondos, pancadas e ruídos estranhos combinados com visuais enervantes como relâmpagos, energia das máquinas e sombras sinistras, toda a atmosfera evidencia uma forte componente do movimento expressionista alemão.

No campo das atuações não há elos fracos, mas existem duas performances memoráveis. Karloff, coberto de maquilhagem, faz com que o monstro seja temível e dócil ao mesmo tempo. Uma figura triste, trágica, que apesar do aspecto abominável é encarnada pelo ator com uma sensibilidade humana fundamental para a narrativa. O outro destaque é Colin Clive, que interpreta o cientista louco de forma vibrante e teatral, expressando nuances morais complexas.

Frankenstein é um clássico essencial. Repleto de cenas icónicas, mantém um apelo forte devido à sua realização arrojada e comentário social intemporal sobre a ambição desmedida do homem e os potenciais malefícios da ciência.

Bernardo Freire

⭐⭐⭐⭐

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt0021884/?ref_=nv_sr_srsg_6

Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/1007818_frankenstein

O Teatro Rivoli, no Porto, recebeu a peça de Boris Charmatz “10000 gestes”, que tal como o nome indica, toda a narrativa é contada através de gestos e do movimento, estando esta ausente de um diálogo corrido – ao longo da peça somos bombardeados com gritos e expressões soltas.

A peça inicia-se com uma atuação a solo, uma junção de movimentos soltos com bocados de dança contemporânea ou até mesmo ballet. Não tarda a juntarem-se os restantes 20 atores, numa espécie de interacção constante entre todos, de forma a elevar o poder físico e mental dos nossos corpos. A performance é contagiante no sentido em que assistimos a uma aplicação do livre-arbítrio em palco, pois durante a nossa vida em sociedade somos sujeitos a certas situações e pressões que seriam capazes de ser exprimidas através de movimentos “estranhos” e descoordenados do nosso corpo. Os gritos e as expressões faciais dos artistas remetem-nos para certos estados mentais e emocionais, sendo que a variação de humores é algo patente ao indivíduo – uma provocação importante para esta experiência artística. Em certas alturas da peça, sentimos que estamos a entrar num dos anéis da pintura de Botticelli “O Abismo do Inferno” (1480), obra inspirada pelo trabalho literário de Dante Alighieri, “A Divina Comédia“. Pois, em certa medida, esta peça teatral assemelha-se, por vezes, a uma pequena comédia: gestos, palavras e até mesmo provocações por parte do elenco, que pareciam ter a finalidade de roubar certas gargalhadas ao público presente. O lado mais lunático esteve sempre presente, traçando assim um perfil irónico à sociedade contemporânea. Não estaremos nós constantemente presos a uma rotina de movimentos que nos consome o espírito cada vez que repetimos um gesto? Aqui não houve espaço para rotinas, em “10000 gestes” nenhum movimento se repetia…

Boris Charmatz é bailarino, coreógrafo e diretor do Terrain. Nesta peça, Boris claramente homenageia a natureza efémera da dança. Tal como é descrito, a peça consiste numa “chuva de movimentos, que poderia ter sido gerada por algoritmos matemáticos, mas que aqui se faz de maneira artesanal, a partir dos corpos dos intérpretes. Sendo absolutamente subjetivo, cada gesto é mostrado apenas uma vez, desaparecendo depois de executado.” Esta é um grande risco, tendo em conta a sua ambiciosa abordagem a áreas como a representação e a dança. Esta só pode ser entendida e compreendida dentro dela própria. Contudo, o caos vivido em palco acaba mesmo por chegar ao público (literalmente). A certa altura, os atores fazem de toda a sala um palco – uma espécie de metáfora para com o mundo -, mexendo no cabelo das pessoas, equilibrando-se pelas cadeiras, pegando em objectos pessoais, incentivando mesmo a certas interacções físicas… Tudo isto em simultâneo com uma contagem, em voz bem audível, de várias datas. Diria mesmo que toda a experiência ganha outra dimensão após esta aproximação dos artistas, quebrando uma barreira que desde o início da obra nunca deveria ter existido.

Todo este conjunto de gestos irrepetíveis parece alcançar o espectador de um modo hipnótico e até meditativo. “É que o caos visual de um movimento que nunca é completado por outro dá uma ilusão de imobilidade. Nesta peça é impossível apertar a mão de alguém.”

Durante o espetáculo, para além dos atores, a iluminação tem um papel importante. Esta é minimalista, mas ao mesmo tempo responsável por moldar o estado de espírito e a intensidade da narrativa. Aqui, mérito para Yves Godin. Outra componente importante durante a peça: a música. Requiem in D minor K.626 de Wolfgang Amadeus Mozart (1756–1791), interpretado por Wiener Philharmoniker, dirigido por Herbert von Karajan e gravado por Wiener Musikverein em 1986 (1987 Polydor International GmbH, Hamburgo). A componente musical traz um maior significado à expressão corporal, como que um diálogo megalómano que nos transporta para uma dimensão paralela, onde existe um natural sentimento de pertença desse mesmo espaço.

Uma experiência diferente brutal, animalesca e, sem dúvida, enriquecedora!

⭐⭐⭐

Contigo aprendi coisas tão simples como

a forma de convívio com o meu cabelo ralo

e a diversa cor que há nos olhos das pessoas

Só tu me acompanhastes súbitos momentos

quando tudo ruía ao meu redor

e me sentia só e no cabo do mundo

Contigo fui cruel no dia a dia

mais que mulher tu és já a minha única viúva

Não posso dar-te mais do te dou

este molhado olhar de homem que morre

e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente

Ruy Belo

Pintura de Egon Schiele (1917)

Tive ocasião de assistir ao vivo ao concerto dado pelos GNR na passada sexta-feira no Coliseu do Porto, no âmbito da iniciativa promovida pelo Banco Montepio a propósito do dia de S. Valentim: “Festival Montepio – Às Vezes O Amor”.

Ao longo dos anos de existência da banda nascida na cidade Invicta em 1980, fui assistindo aos seus espectáculos com maior ou menor regularidade, e a ideia que normalmente guardamos dos GNR é que, sem serem brilhantes, são cativantes! No entanto, como tudo, há um princípio, um meio e um fim. Para mim, infelizmente (ou não… tudo é relativo) a fase final dos GNR aproxima-se a passos largos.

Partindo de um efeito cénico bem conseguido ao nível de luzes e uma projecção de imagem pré-formatada de dimensões bastante aceitáveis, o concerto teve início com temas que puxaram pelo público de forma mais ou menos enérgica, mergulhando depois num período de acalmia com músicas mais centradas no último trabalho editado, “Caixa Negra”, e um ou dois temas originais, diria que completamente desconhecidos do público. Para que tudo voltasse a ganhar mais algum gás, foi necessário o regresso aos sons mais antigos. Parecia então que era o momento de aumentar a adrenalina, senão quando se fez uma curta pausa para entrar um piano em palco e voltarmos a uma fase mais ou menos acústica do concerto, que incluiu um medley de temas guardados há muito no baú. Novamente, o retomar de dois ou três temas de “cartaz” fez com que os ânimos se elevassem e… fim do concerto. Ficou guardado propositadamente para o encore Dunas, o hino maior e eterno da banda, e aí sim, comunhão do público com a banda (finalmente)! Mais dois temas e terminou definitivamente o concerto. The End. “Obrigado por terem vindo…

Não fiz praticamente nenhuma referência aos temas tocados, pois é fastidioso fazê-lo com uma banda de que praticamente todos temos a ideia de quais são os seus hits. Quem não tem presente, Efectivamente, Sangue Oculto, USA, Pronuncia do Norte, Mais Vale Nunca, Asas (numa versão muito interessante), Dunas, e por aí fora.

Rui Reininho começa a apresentar alguns problemas de segurança vocal. Bem sabemos que nunca foi propriamente um forte seu, no entanto, também sabemos que estas músicas não seriam a mesma coisa se não fossem cantadas por ele. Começa a ser difícil percepcionar a letra de alguns temas, o que não augura nada de muito bom. Toli Machado, o único membro da formação original, mantém os seus dotes musicais bem presentes, principalmente no piano. É sem qualquer dúvida o “mentor” da banda, o seu cérebro. Também Jorge Romão esteve no seu habitual, mantendo o seu baixo bem presente em todos os temas. O trio “original” fez-se acompanhar por mais dois músicos em palco: Samuel Palitos na bateria esteve muito bem e Rui Maia trouxe um novo “look” musical à banda através dos seus sintetizadores, fruto da sua experiência com outros músicos, introduziu novas sonoridades em alguns temas dos GNR, resultando num som mais dinâmico, recorrendo inclusive a alguns “backtracks“. De notar o excelente desempenho de Rui Maia com a guitarra em dois riffs de boa qualidade. Excelente músico.

Em suma, o concerto foi agradável, no entanto não foi entusiasmante. Diria que se tratou de uma soirée musical em que um grupo de amigos tocou umas coisas agradáveis, mas sem gerar muita confusão. As habituais notas de Rui Reininho entre os temas não foi suficiente para disfarçar um, em minha opinião, excessivo abrandamento de ritmo. Esteve entre o morno e o ligeiramente quente, não mais que isso. Isso notou-se no final do espectáculo, onde ninguém estava verdadeiramente entusiasmado, apenas agradado.

Aguardemos por novos capítulos desta banda excepcional que já leva 40 anos de estrada.

Bons sons.

Jorge Gameiro

Uma experiência — acima de tudo — reconfortante é a que “12 Homens em Fúria” (1957) nos permite, não só porque se centra numa categoria mais intelectual que sensitiva, consegue dar-nos uma aula de argumentação, apreensão daquilo que deve ser a nossa atitude perante a vida, perante o mundo… e até perante a “nossa verdade”. Numa obra onde o silêncio significa, fundamentalmente, razão e discernimento, a verdade começa na razoabilidade da dúvida. Muito filosófico, portanto, mas essencialmente frio quando mostra a verdadeira essência do ser humano, por vezes incapaz de reconhecer quando não tem a razão do seu lado.

Estamos num julgamento por homicídio e a vida de um rapaz de 18 anos, o acusado, está nas mãos, ou no bom-senso, de 12 júris. Têm de chegar a um consenso e determinar se estamos a falar de um culpado ou inocente. Em causa está a sua possível morte na cadeira eléctrica. Estamos na década de 1950. Infelizmente, o medo pela verdade, a maior das ignorâncias, assombra a intelectualidade da narrativa — ou melhor, inicialmente de 11 dos 12 protagonistas. É, literalmente, um contra todos. Conseguirá ele convencer os restantes, apenas pelo raciocínio lógico? Pelo caminho, a tranquilidade está associada à abertura, contra a procura pela universalidade da verdade, dos factos, cega pelos dogmáticos. “Ninguém está inteiramente certo. Ninguém está inteiramente errado. Fazemos todos parte de um todo, que procura a possível aproximação à verdade“… eis a verdadeira epígrafe defendida pelo júri n°8 (Henry Fonda — que faz uma interpretação fantástica).

O argumento é fabuloso (Reginald Rose) e a realização estupenda (Sidney Lumet). Uma das coisas que marca mais negativamente o ser humano — cognitiva e emocionalmente —, e que é extremamente bem retratado aqui, é a mentalidade geral de facilitar as coisas, de pensar menos… que pensar custa (e pensar bem ainda mais). O facto de a sinceridade ser, ridiculamente, circunstancial e haver pena pelo “reconhecimento” da (real) verdade, mostra não só que estamos a agir mal no mundo, mas também que estamos a pensar mal o mundo. Queremos é despachar as coisas, e somos frios, tábuas rasas de compaixão, insensíveis e cobardes na hora de sermos racionais. E, claro, extremamente parciais.

No final de contas, temos uma obra magnífica, pura, simples mas ágil, onde um ser humano tenta elucidar outros a reconhecer a sua própria sensibilidade e sensatez, abandonando estigmas, e abraçando princípios cautelosos.

O branco no meio da escuridão encontra a satisfação por trazer humanidade ao mundo. Tal como “12 Homens em Fúria” trouxe artisticamente a nós, rendidos espectadores.

Tiago Ferreira

⭐⭐⭐⭐

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt0050083/?ref_=nv_sr_srsg_0

Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/1000013_12_angry_men

As pessoas não param de ver quando existe um conflito. Elas param de ver quando não existe um” – “Bombshell”

A frase é da autoria de Roger Ailes, o presidente e chefe da Fox News que foi apanhado no seio de um escândalo de assédio sexual. Alavancado pelo movimento #MeToo e por uma consciência coletiva crescente, ” Bombshell – O Escândalo” relata a cronologia dos eventos que levaram o executivo a ser despedido em 2016. A experiência do filme é inevitavelmente influenciada pela orientação política de cada um, no entanto, a mensagem fundamental é moralmente inquestionável e deve ser um ponto de união entre qualquer partido.

A realização é de Jay Roach e o argumento pertence a Charles Randolph, que venceu o Óscar de Melhor Argumento pelo filme “A Queda de Wall Street” (2015) – Sobre a desconstrução do que levou à crise financeira em 2008. Com este novo texto, Randolph procura, entre outros pontos, examinar o que é que perpetuou a misoginia por parte de vários executivos na empresa e a competitividade tóxica que se vivia nos escritórios da empresa.

Para o efeito, o realizador enquadra três bombas de atrizes nos papéis centrais: Charlize Theron, Nicole KidmanMargot Robbie. Theron está irreconhecível na pele de Megyn Kelly, uma advogada que se tornou na jornalista de ouro da Fox News; Kidman interpreta com calculismo a ex-Miss América e apresentadora televisiva Gretchen Carlson, que deu início às acusações de assédio; E Robbie encarna uma personagem fictícia chamada Kayla Pospisil, novata, ambiciosa, uma representação de todas as mulheres que sofreram de algum tipo de violência no trabalho. O elenco é pontuado com a prestação odiosa e apropriadamente repugnante de John Lithgow no papel de Roger Ailes.

Com os trunfos em jogo, “Bombshell – O Escândalo” aposta em contar a sua história através de vários pontos de vista que se cruzam pelas circunstâncias. É informativo, bem-intencionado, mas nota-se que está profundamente irritado com toda a situação. Uma interpretação dos acontecimentos ao estilo de Hollywood, do género que motiva os discursos de inclusão nos Óscares. O que não é um ponto negativo per si, ao contrário da falta de ousadia cinematográfica que dispõe. Não tem, por exemplo, a crueza ou sagacidade que tornam uma biografia como “O Caso Spotlight” (2015) tão memorável.

No entanto, a pertinência do filme mantém-se. Sensibiliza para um tema que ainda há bem pouco tempo não tinha lugar nas bocas das pessoas e coloca um predador num merecido holofote. Por isto, e pelas interpretações resilientes – em especial Theron, que capta a turbulência interior de uma personagem que procura manter a sua vida laboral, pessoal e moral equilibrada – é uma narrativa verídica que merece ser contada, partilhada e evitada.

Bernardo Freire

⭐⭐⭐

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt6394270/?ref_=nv_sr_srsg_3

Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/bombshell_2019

A noite já não me diz o que dizia

Agora fala-me de outro modo.

Não se senta a pensar comigo,

Não se faz ouvir

nos cabos de eletricidade

que serpenteiam arrítmicos.

Não chega cedo nem atrasada,

Inoportuna ou de surpresa.

(Há vezes que chega e nem dou por ela).

Não tem espaço para escrever,

Vem cheia de rabiscos confusos,

frases incompletas e ideias finitas.

Costumava encher a noite de palavras,

Agora só quero dormir.

Costumava pintar o manto negro noturno,

Agora tapo-me com ele.

Só chega para me dizer que o dia acabou.

E que isso não significa nada.

Acabou e amanhã há outro.

Boa noite.

Mente Sedada

  • O mito de Klaus Kinski

(continuação…)

Klaus Kinski, como escritor, não difere muito do ator, o escárnio e a ira marcantes estão presentes em cada página dos seus livros. Dotado de uma linguagem feroz, sem adornos, Kinski revela a realidade de forma crua e mundana. Na autobiografia “Sou louco pela sua boca de morango“, que anos mais tarde foi revista e reeditada, em 1991, sob o título “Preciso de Amor“, o filho descreve o próprio pai como se fosse apenas um escritor, descrevendo um personagem hediondo e grotesco: “Ele não tinha o apelido de Bulli devido ao seu pénis grosso ou aos seus testículos grandes. Bulli também é uma abreviação para buldogue. Não era devido à sua careca, pois os buldogues ingleses também parecem possuir uma careca, mas o seu rosto inteiro era assim. Tudo na sua cara descaía para baixo como se ela tivesse muita pele“.

Aqueles que esperavam na autobiografia apenas a descrição da vida de um artista a acertar contas com o passado cruel ou a vingar-se do destino, são surpreendidos pelo distanciamento com o qual o autor desenvolve uma linguagem coagulada de emoção. Não foi sem razão que o escritor Kinski foi comparado a Céline, Rimbaud ou Henry Miller. Como um grande artista, que sabia intuitivamente trabalhar com a ficção e a realidade, o autor muitas vezes funde uma na outra, tornando-as inseparáveis ou então invertendo os valores. Kinski adaptava. No entanto, isto de forma alguma não desvaloriza a autobiografia, pelo contrário, a partir deste aspeto aproximamo-nos um pouco da inquieta e incógnita personalidade kiskiana.
O realizador e amigo, Werner Herzog, com quem concluiu as melhores interpretações da sua vida, como em “Aguirre, a Cólera dos Deuses“, que culminou no seu sucesso indubitável, descreve o ator como um homem violento, que muitas vezes feriu fisicamente os companheiros, ao mesmo tempo em que era dominado por um medo infantil. Certa vez, para obrigá-lo ao autocontrole, Herzog forjou possuir uma arma e não hesitou em usá-la contra Kinski, se este não se comportasse e terminasse a filmagem. Nestas alturas, por medo, o ator obedecia como um menino sensato.

Herzog inclusive relata a turbulenta relação entre ambos no documentário “Mein liebster Feind – Klaus Kinski” (“Meu Melhor Amigo“, 1999) e deixa claro que, em certos casos, esta turbulência era simulada para chamar a atenção do público e criar um mito – o mito Klaus Kinski. Na sua autobiografia, o ator intensifica a inimizade entre eles, esbanjando adjectivos de injúria e afronta. Julgava, caso contrário, não conseguir despertar o interesse do público. Os supostos casos de incestos com a filha, ou dele com a própria mãe, foram motivos de escândalo pela inverosimilhança. Por esta razão, a grande atriz Natasha Kinski, filha do ator, cortou relações com o pai. Kinski foi um ególatra que não hesitava em criar situações absurdas para ser o centro das atenções.

Podemos dizer que Kinski seguia a tradição literária de romper com os valores burgueses, de expor a sua revolta através de expressões fortes, metáforas marcantes e uma intensidade baseada na obsessão e ironia. Gritar e vociferar era típico da sua apresentação artística. Era esta interpretação entumecida de força e emoção que enchia grandes teatros e salas de concertos, como o Sportpalast em Berlim, onde Klaus Kinski entusiasmou o público de forma inesquecível, recitando o Novo Testamento sob a sua própria versão. E são famosas as recitações dos poemas de François Villon, um poeta que também era dono de uma personalidade marcante e de uma linguagem expressiva.

  • Klaus Kinski no cinema

Klaus Kinski, proveniente de uma família paupérrima, vivendo na Europa pós-guerra, começou a trabalhar no teatro. Uma das peças que vale a pena ser mencionada é a de Jean Cocteau, “A Voz Humana“, onde Kinski atua a solo, no papel de uma jovem mulher que enlouquece de solidão e fica o tempo inteiro a falar ao telefone. A encenação, considerada pelo público é vista como uma provocação, um escândalo, mas coloca em destaque o talento do jovem ator. Klaus Kinski não entende a indignação do público e da crítica. Se o teatro é a arte de interpretar, por que não pode ele interpretar uma mulher, um cão ou uma árvore? O seu rosto é o de uma criança, mas o seu olhar está repleto de maturidade, e ele transforma-o de um momento para o outro. “Nunca encontrei um rosto igual“, comenta mais tarde Cocteau.

Na Alemanha, ficou mais conhecido, nesta época, através da atuação numa série de filmes dos romances policiais de Edgar Wallace, onde sempre fazia o papel de homem mau e gangster. Depois de recusar trabalhar com Federico Fellini e Roberto Rossellini, tornou-se o ídolo de facto destes italianos, com o filme “Por Mais Alguns Dólares” (1965), de Sergio Leone. O faroeste italiano pertence a uma espécie de filmes que estavam na moda entre 1965 e 1972, e não possui muita semelhança com os faroestes americanos. Trata-se de um género próprio nascido em Itália, tendo como temática a vingança sanguínea e heróis bronzeados e belos com a barba por fazer. Dois outros filmes em destaque na época são “O Bastardo” (1968) de Duccio Tessari e “O Grande Silêncio” (1968), de Sergio Corbucci. O sucesso dos faroestes italianos estava garantido se tivesse no elenco o nome de Kinski.

Entretanto, as suas principais encenações como ator devem-se aos filmes de Werner Herzog. “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, filmado em 1972 sob circunstâncias catastróficas na selva amazónica, calor e chuvas ininterruptas, conta a história de um conquistador alucinado, perdido no meio da selva, que leva toda a tripulação do seu navio à morte. Aguirre foi um sucesso imediato em França quando lançado em 1975. O filme fascina de uma forma estranha, parco em diálogos, o desenvolvimento das cenas é vagaroso e as cenas monótonas. A atmosfera densa e húmida da selva é completamente captada pela câmara e domina todo o filme. A selva amazónica torna-se um símbolo de cárcere. O próprio ator, mesmo fora das filmagens, sentiu-se prisioneiro da magnitude desta natureza.

Vale a pena mencionar também os filmes “Fitzcarraldo” (1982) e “Woyzeck – O Soldado Atraiçoado” (1979). “Fitzcarraldo”, filmado no Peru e no Brasil, no meio de picadas de mosquitos, mostra a obsessão de um realizador de ópera em construir um teatro no meio da selva. Na Alemanha, o filme “Woyzeck – O Soldado Atraiçoado”, baseado na dramaturgia do escritor alemão Georg Büchner, recebeu grandes elogios por parte da crítica. Trata-se da história de um soldado comum, uma pessoa extremamente submissa, que é humilhado por tudo e por todos e até serve como cobaia para experiências de medicina. Vive apenas para a mulher e para o filho; quando esta o trai com um oficial do exército, ele mata-a. Depois comete suicídio, afogando-se. Neste filme, Herzog também dispensa qualquer efeito especial, ao que chamam de filme “primitivo”, como também foi “Aguirre, a Cólera dos Deuses”. “Woyzeck – O Soldado Atraiçoado” contém o sofrimento, a humilhação, a loucura e a miséria de uma vida humana incorporada por Kinski da forma mais perfeita. No seu apartamento na Califórnia, deitado na cama, Klaus Kinski morre no dia 23 de Novembro de 1991, nu e só.

Miguel Mendes

Nos últimos anos, o tão apelidado de “Citizen Kane of bad movies” tornou-se uma espécie de fenómeno da cultura pop e, mais do que isso, uma experiência verdadeiramente peculiar. Recentemente, exibido pela primeira vez a nível nacional no Cinema Passos Manuel, no Porto, com a exclusiva presença de Greg Sestero, que interpreta Mark, “The Room” continua a ser um acontecimento mundial com salas de cinema cheias para ver o “pior filme de sempre”. Nas palavras do ator, escritor, produtor e realizador Tommy Wiseau: “The room is a special place. It’s not “A room” it’s THE room. It’s a place where there is no restriction. If we title it “a room” it can be any room but it’s THE room so it is a special place. We all have this place. It’s like our little corner that you are comfortable with“. Além disso, o filme é realmente único, vai de intermináveis cenas de sexo a intensos momentos dramáticos; também pelo diálogo inesquecível, o memorável Chris-R e assim por diante.

Além das suas qualidades cinematográficas, a música tem um papel importante neste filme. Composta por Malden Milicevic, a banda sonora é bastante diversificada: apresenta peças de piano, orquestra, e até músicas de R&B. O tema principal, The Room, é talvez a peça musical mais icónica do filme, especialmente pela sua melodia de piano e secção de madeiras, que ocorre logo no início do filme. No entanto, o restante da trilha é ou a melodia principal no piano ou música genérica para programas de TV. Quanto às faixas de R&B, I Will, You’re My Rose e Baby You and Me são músicas sensuais com letras “poéticas”, conhecidas por aparecerem nas cenas de sexo, e o principal motivo desta banda sonora ser tão especial.

Esta última é incrivelmente memorável e tocante, capaz de recriar a náusea e a emoção deste clássico de culto. Há 17 anos em exibição regular, principalmente nos Estados Unidos, o filme continua a maravilhar o público um pouco por todo o mundo. Apesar de hilariante, tedioso e repetitivo, o filme é uma experiência cinematográfica, assim como a trilha consegue ser uma jornada musical.

João Filipe

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt0368226/?ref_=fn_al_tt_2

Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/the_room_1998