O BARRETE

Porque A Arte Somos Nós

  • “Febre – Diário de um Leproso”, Poemas de Klaus Kinski

Foram publicados na Alemanha alguns poemas inéditos de Klaus Kinski, encontrados quarenta anos depois de forma espetacular, e como não poderia deixar de ser, tratando-se de poemas, foram a leilão. Estes estavam em posse de uma médica, casada, que entupia o sanitário com as cartas do amante secreto, com receio que o marido pudesse descobrir mais tarde a infidelidade. Após a morte da médica, uma misteriosa mulher encarregada de se desfazer dos pertences da falecida, encontra um pacote com as folhas de um Diário de um Leproso. Peter Geyer, admirador de Klaus Kinski e editor do livro, “Febre – Diário de Kinski“, compra o manuscrito em Munique, por três mil e quinhentos marcos. Como estes poemas foram cair nas mãos desta amante é um mistério, uma vez que foram dados como perdidos pelo próprio poeta.

Os poemas foram escritos no início dos anos 50, num pequeno apartamento em Paris, que era dividido com o amigo Thomas Harlan e a namorada Bergell, uma jovem de dezasseis anos condenada à morte por um cancro na laringe. Bergell não era o nome verdadeiro desta jovem, Kinski chamava-a assim em homenagem a uma região na Suíça adorada pelo ator. A jovem vivia nas ruas de Paris, onde o alemão a encontrou deitada num banco, num dia qualquer de Outono, e trouxe-a a meio da noite para o seu minúsculo apartamento. Ao princípio, este queria cuidar dela como um pai, mas acabou por se apaixonar por aquela criatura fraca, de longos cabelos negros, pele alva, lívida, quase transparente, que tossia, cuspia sangue, tremia e delirava de febre. Imagine-se os três jovens nesse minúsculo recinto, em desordem, escuro, cheirando a mofo. O amigo Harlan sendo obrigado a presenciar a paixão e loucura do companheiro de quarto, o sofrimento físico da menina, as recitações berrantes dos versos que Kinski escrevia deitado na cama, os delírios de ambos… Com certeza o alemão, que tinha na época vinte e poucos anos, escreveu estes versos inspirados em Bergell. Tomou a dor daquela criatura abandonada e enferma, e transformou-a na sua própria dor.

No entanto, os poemas inéditos de Kinski não acrescentam nada de novo à biografia deste génio inigualável na história cinematográfica. Neles, encontramos a mesma ira e visão apocalíptica rebarbativa que o acompanhou em todas as fases de sua vida. O protagonista de “Aguirre, a Cólera dos Deuses” (1972), expele, em tinta vermelha, dactilografada em papel de forno, a sublevação delirante contra a autoridade constituída e da qual foi uma amostra a autobiografia “Sou tão louco pela sua boca de morango” (1975), título este extraído de um poema do poeta francês François Villon. Assim como a autobiografia é um violento grito de protesto contra qualquer ordem institucionalizada, contra tabus, contra a sociedade, “Febre – Diário de um Leproso” é uma erupção de paixão, ódio e insurgência, carregado de suavidade e asco. Se Kinski não tivesse sido o constante obstinado e indomável que foi, dono de uma rebeldia nata e violenta, talvez não se tivesse tornado um mito.

“Febre – Diário de um Leproso” está submerso numa atmosfera densa e repetitiva, a metáfora da febre é a preferida do jovem poeta, pois esta aparece várias vezes em diferentes poemas, como este:

Febre

Assim eu imagino o Além

Fenol, gelo e merda.

As pessoas nem se quer têm febre

quando se embriagam do próprio mijo.

Tenho a febre do mundo inteiro nos olhos

E como um jacto de pus sifilítico

A febre negra penetra nua e moribunda

Nos bagos túmidos e desprotegidos do meu coração.

(…)

Não devemos esquecer que trata-se aqui de poemas escritos por um jovem desesperado. Além da repetição das metáforas, existem as constantes imagens hipérboles, caracterizando-lhe o estilo.

  • O Mito de Klaus Kinski

Klaus Günter Karl Nakszynski, nascido em 18 de Outubro de 1926 em Sopot, uma pequena cidade polaca, ficou mais conhecido através da sua atuação singular no cinema. Embora Kinski tenha participado em mais de 130 filmes, pode-se contar pelos dedos aqueles que têm algum valor, e mesmo assim tornou-se um ator incomparável na história do cinema. Foi o talento de fascinar o público, com a atuação inigualável em frente à câmara, que o tornou famoso. O aspecto físico também contribuía muito para a interpretação de um papel, pois este possuía uma boca grande, o rosto encovado, os gestos alucinados e dos seus grandes olhos azuis emanava um olhar que parecia hipnotizar o público. Era como se realmente possuísse a “febre do mundo inteiro nos olhos” (K. Kinski), a loucura estampada naquele imenso e profundo azul.

Para os realizadores era uma bênção trabalhar com o filho de um pobre e fracassado cantor de óperas, pois este sabia tudo de antemão, possuía um instinto aguçado e era totalmente seguro de si próprio. Era dispensável qualquer sugestão ou orientação, pois sabia exatamente onde estava a câmara, posicionava-se conforme o seu movimento e virava o rosto no preciso momento da câmara começar a filmar. O seu rosto domina toda a tela, marcando a visão do público como um epicentro. Era uma bênção, mas também uma desgraça trabalhar com esta personalidade complexa e violenta, imprevisivelmente cheio de cólera e ao mesmo tempo tímido. Mas é neste paradoxo que reside a autenticidade deste artista que viveu toda a sua vida em busca da perfeição, do absoluto; que nunca desistiu de lutar contra a mediocridade que o cercava permanentemente. Foram raros os realizadores de cinema que reconheceram e valorizaram o seu talento. Os papéis oferecidos eram, na maioria, insignificantes, e Kinski aceitava qualquer um. Fazia um filme atrás do outro numa ferocidade doentia, filmes que, ele próprio sabia, desde o começo, estavam condenados ao fracasso.

Foi esta flexibilidade, este constante ensaio de interpretação, que o levou a incorporar os personagens. A dedicação e completa concentração no papel a ser interpretado, independente da qualidade do filme ou da capacidade do realizador, intensificaram-lhe o talento, conduzindo o artista à genialidade.

Não percam a “Parte II” deste artigo, porque nós também não…

Miguel Mendes

Para uns, um recanto soalheiro

É o maior aconchego,

Outros vêem no frio

Uma janela de maior abrigo.

Se para alguns o inverno

É uma época em que só o natal importa,

Outros aproveitam esta época

Para poderem dar uma volta.

À procura de novas narrativas

Pelo meio das montanhas,

Numa diversidade de destinos,

Mas sem descurar os perigos

Nesta procura de novos desígnios.

Para os arrojados

Não há frio ou alturas

Que lhes resistam.

Basta terem o seu gorro

Mais algum agasalho,

Que logo se lançam para a pista,

Fartando-se de cair,

a esquiar até perder de vista.

Ou mesmo uma pequena criança,

Com uma mente repleta de sonhos e esperança,

Constrói o seu boneco de neve

Com uma desenvoltura que, os adultos, embaraça.

Claro que para alguns de nós,

Visivelmente menos criativos

Já quando atiramos bolas de neve

E fazemos pequenos ou grandes anjos,

Sentimos por dentro um calor

Capaz de dissolver uma grande dor,

E redobrar uma maior esperança.

Que com felicidade e muita bonança,

Podemos aproveitar melhor

Toda e qualquer situação,

Sentindo um calor que nos preenche

Quase como se fosse uma tarde quente de verão.

Esquecendo que estamos no inverno

Mas aproveitando a neve desta estação,

Para derreter o gelo

Presente no nosso coração.

Pedro Maia

Pintura de Claude Monet (1874–1875)

Foi com muita perplexidade que constatei, uns meses depois de ter visto a película, que esta se tratava, na verdade, de um fenómeno nunca visto anteriormente. É difícil chegar até a um filme tão universalmente aceite e rendido à profundeza cinematográfica que traduz, ou talvez apenas quanto ao filme em si, às sensações que traz, e ao que transmite mais directamente. Apesar de tratar uma realidade muito feroz — que não deixa de ser transversal à nossa conjuntura enquanto globo —, é capaz de juntar sátira, comédia, drama, acção, tudo numa história com um princípio, meio e um fim muito coeso. Na altura, quando visualizei com satisfação o filme, cheguei à conclusão que o final porventura tivesse sido demasiado audaz. Como se existisse demasiada ousadia na arte, mas julgo ser compreendido quanto a esta sensação puramente irracional.

Mais racionalmente, e após ver “Parasitas” a limpar os principais prémios na noite tão esperada dos Oscars, julgo ser fundamental constatar que estamos a atravessar uma mudança na mentalidade do Cinema das grandes instâncias. Numa Academia que todos apelidam como por vezes de cega e parcial, que apenas “investe” em filmes por interesses económicos, e que sirvam para conservar a ilusão de uma Hollywood perfeita e totalmente digna, a verdade é que – já foi “quase” com “Roma” (Alfonso Cuarón, 2018) o ano passado – vemos uma mente muito mais aberta para aceitar filmes “estrangeiros”. Contudo, estes ainda hoje são um pouco “estranhos” à comunidade americana, habituada quase que por inteiro, a produções nacionais. Isto não só demonstra que o cinema per si está a mudar, como também, e talvez um pouco mais importante, a forma como o mundo vê, aprecia e aplaude a Sétima Arte.

Depois temos a humildade de Bong Joon Ho, o realizador e maestro do filme, que na hora de aceitar a distinção para Melhor Realizador, não deixou de enaltecer como influências maiores dois dos Grandes Senhores de Hollywood, Scorsese e Tarantino. Parafraseou o primeiro, ao dizer que foi a frase “quanto mais pessoal, mais criativo é“, que usou como epígrafe para pautar e exponenciar o seu trabalho, não tendo medo, portanto, de pôr tudo aquilo que é em tudo aquilo que faz — expressão de outro génio, mas da escrita, Fernando Pessoa.

Em suma, fiquei muito feliz com a vitória de “Parasitas” na passada noite de nove de Fevereiro, não só porque de entre os nomeados era sem dúvida dos filmes mais consistentes, como também porque, acima de tudo, é um filme puro, que não tem nada por detrás, a não ser toda uma panóplia de genialidade: desde o cast, à produção, aos escritores, ao filme como um todo.

Parabéns ao “Parasitas” e à Academia por não se agarrarem ao Passado e mudarem, incessantemente, o Cinema.

Tiago Ferreira

Depois de tudo o que é possível aprender com Andrew Hill e Thelonious Monk, surge Herbie Hancock para uma nova reformulação. De 1964 a 1973, Herbie teve uma das carreiras mais consistentemente criativas que o jazz já viu. Se Herbie tivesse parado de gravar naquela altura, este continuaria a ser considerado um dos lendários génios da música norte-americana. Com Freddie Hubbard, um mercenário de primeira qualidade, a tocar corneta, Tony Williams na bateria e Ron Carter no baixo, estes são sempre bons companheiros de viagem para a lucubração de Hancock.

O álbum abre com One Finger Snap, um tema relativamente cativante e otimista que entra num reino de improvisações bastante impressionantes. Não é a faixa mais avassaladora, mas ainda está longe de ser medíocre. A segunda canção, Oliloqui Vally, começa com uma linha de contra-baixo incrível, que leva a uma formação de blues com uma corneta arrepiante. Esta música pode dar a impressão de uma pessoa estar numa ilha tropical, banhada pelo sol, ou pode levá-lo a um escuro clube de jazz com intelectuais a falar sobre a essência da alma.

Este trabalho é conhecido principalmente porque contém a versão original da amostra que US3 usou anos mais tarde no hit Cantaloop. O original Cantaloupe Island é um pouco mais lento, mas não menos atraente. Além disso, esta faixa é de longe a mais dançável do álbum. O tema é extremamente cativante que fará todos baterem o pé. Orientada para o blues, esta música tem uma espécie de sensação caseira, mas ainda assim obtém a sofisticação que faz parte do jazz. Soa sempre nova, mas familiar ao mesmo tempo. Finalmente, a última música do LP é The Egg, que tem um humor um pouco mais sombrio e uma percussão rítmica vanguardista. Começa com um tema de piano rítmico e, em seguida, a corneta surge com a melodia. Durante o decorrer da música, Freddie começa a improvisar enquanto o piano começa a degenerar lentamente e, no final, é improvisação. Então, num momento mais bonito, Ron Carter faz um solo misterioso no baixo usando o arco, o que não é comum na maioria dos conjuntos de jazz. Depois, Herbie no piano começa a tocar juntamente com o contra-baixo e estes fazem algumas improvisações lindamente subtis e minimalistas. Finalmente, a música retorna à melodia principal.

Ao final de contas, “Empyrean Isles” continua a ser um dos destaques da longa carreira de Herbie Hancock, e talvez o mais acessível. Embora as três primeiras faixas certamente não sejam tão arriscadas quanto The Egg, o álbum equilibra o hard-bop com as tendências experimentais, o suficiente para tornar este trabalho atraente ao mesmo tempo que oferece muita variedade e estruturas incrivelmente sólidas, que nunca diminuem a velocidade. Resumindo, “Empyrean Isles” é um álbum suave, com Cantaloupe Island a ser uma das peças de jazz mais reconhecíveis dos anos 60.

João Filipe

⭐⭐⭐

Não quero ser, de todo, cliché, mas nos dias que correm, enaltecer a importância da leitura é totalmente peremptória. É larga a percentagem de pessoas, em Portugal e não só, que “rejeitam” a oportunidade de conhecer o mundo, e a amplitude da cultura, através dos livros. Eu próprio reconheço que sou um leitor “indisciplinado”, no sentido em que se não me obrigar, se não der aquele empurrãozinho, tendo a deixar andar e as leituras ficam, literalmente, na gaveta. Mas importa frisar, os livros existem, fundamentalmente, por duas razões: para dar prazer ao leitor, mas também cultura e conhecimento. Eu confesso que defendo que um bom livro deve partir da segunda característica, e se for mesmo bom, por acréscimo, trará a primeira, mas todos nós sabemos que a nossa realidade não é assim. Hoje em dia, além de quase toda a gente conseguir escrever um livro, e com isto faço uma crítica ao critério editorial (ou a falta dele) das editoras, a maioria escreve para as massas. A maioria dos livros, e com isto não atribuo necessariamente o rótulo de obra – precisamente pela falta de poesia com que são criados – resultam de jogos de interesses, de “histórias que vendem”, de narrativas já batidas mas que suscitam afluência.

Não estou com isto a criticar o leitor, porque temos muito bons leitores em Portugal, mas também temos que admitir que, infelizmente, não só aqui como a nível mundial: 1.º há pouca gente que lê; 2.º os que lêem, lêem pouco e obras “fáceis”; 3.º os que lêem grandes e variadas obras, vivem só para aquilo. Encontrar um equilíbrio é sempre difícil. Como tudo na vida, claro. Mas, acima de tudo, com isto quero dizer que estamos a atravessar uma grande crise de ideais, de valores… uma conjuntura de autêntica ignorância. Nesse sentido, José Saramago alertou que nunca vivemos tanto na Caverna de Platão como hoje, no sentido em que preferimos ver sombras, do que reconhecer que há muito trabalho a fazer. Até dá o exemplo dos canais de televisão: actualmente, nas nossas casas temos cerca de 150 canais, então, este faz o paralelismo retórico “e se recebêssemos em casa todas as manhãs 150 jornais (físicos)? Que conclusões tiraríamos da leitura de 150 jornais?” É algo imensamente absurdo, a fusão desmedida da informação…

Miguel Sousa Tavares, nesse sentido, disse uma vez numa entrevista que “nós nunca soubemos tão pouco sobre tantas coisas“… E é tão verdade. Não é que não tenhamos os meios, a informação, mas é precisamente o contrário: temos demasiada informação, demasiadas coisas para fazer, sobre as quais pensar, que não sabemos lidar com isso – o excesso. A internet veio contribuir para isso, mas mais uma vez atravessamos algo que não foge à regra da maioria das coisas boas que acontecem no mundo: ser muito benéfico, mas relativamente à qual as pessoas não saberem dar o devido uso. E isto é transversal, por exemplo, ao uso excessivo de telemóveis na sala de aula por parte dos alunos (eu próprio, mesmo tendo consciência disso, sou culpado).

Com isto fugi um pouco ao tema, mas finalizo dizendo que devemos tirar tempo para tudo: para nos divertirmos, para lermos, para descontrairmos, para estudarmos o que quer que seja, para os nossos amigos, para viajar, para beber um café, para comer, para respirar (que é bem necessário), mas o fundamental de tudo é estar ciente que o mundo é tão infinito como a nossa ignorância. Nunca seremos capazes de saber tudo, e o nosso propósito na vida é conseguir sempre, embora seja algo tremendamente audaz, ir reduzindo o máximo a distância entre aquilo que se conhece hoje, aquilo que queremos conhecer e aquilo que desconhecemos.

Ler abre-te as portas para a vida.

Boas leituras.

Tiago Ferreira

Doze anos depois do inigualável “Call Me By Your Name”, André Aciman traz-nos a tão esperada continuação do romance de Elio e Oliver: “Find Me” (Encontra-me), um romance que volta a trazer todos os nossos sentimentos à tona e a questionar as nossas próprias escolhas.

Seria de pensar que uma continuação não seria tão boa e que poderia mesmo estragar a magia do primeiro romance, mas a verdade é que, apesar de não estar exatamente no mesmo nível de epifania que “Call Me By Your Name”, este “Find Me” não desilude e, muito pelo contrário, traz o final que todos ansiávamos.

Três personagens, três espaços temporais, três homens a viver o amor: Samuel, Elio e Oliver. O livro abre com Samuel, pai de Elio, anos depois da separação da sua mulher – Elio era quem os unia enquanto casal e quando este decidiu embarcar na sua própria vida, o casamento dos dois não sobreviveu. Mesmo assim, o amor não morreu e um encontro inesperado com uma estranha num comboio levou a uma conversa inesperada e a uma relação também inesperada. Sami, como assim é tratado pela sua nova paixão, encontra nos braços de Miranda o que toda a vida lhe faltou – um amor incomparável e eterno.

O próximo desta tríade é Elio, cuja vida, apesar de ser tudo o que sempre sonhou – era pianista, ensinava e tocava em espetáculos –, estava repleta de encontros casuais que o deixavam cada vez mais vazio. Isto até que conhece um homem mais velho durante um concerto de música clássica e vê-se imergido pela paixão e por antigos desejos da sua juventude, pois Oliver nunca abandonou realmente o seu coração.  Por fim, reencontramo-nos com Oliver que, prestes a mudar-se para New Hampshire, é atacado por antigas memórias vindas de um piano que tocava uma melodia há muito por ele esquecida.

Um livro excepcional que nos mostra as vivências amorosas de três pessoas distintas unidas pelo mesmo propósito – a felicidade. Faltou um pouco mais de poesia nesta continuação de um dos melhores romances contemporâneos, mas quem reina nesta história é a música, onde podemos – segundo Bach – nos lembrar de quem somos e de quem estamos destinados a ser, apesar de negarmos e subjugarmos os nossos sentimentos a uma prisão no fundo de nós mesmos. Cabe-nos a nós lembrar destas personagens queridas e refletir sobre o Destino, porque quem somos ou quem estamos destinados a ser também implica questionar sobre quem estará ao nosso lado.

Amor, arrependimento, culpa e desejo são as palavras-chave para viver este romance a cem por cento. O verdadeiro amor não morre e surge no seu tempo, se demorar muito há que pensar que o intermédio não é uma vida perdida, mas sim como um soluço que não passa de uma pausa temporal numa história de amor. Há infinitos que duram segundos e outros que vêm ao nosso auxílio quando nos apercebemos de quem somos. O infinito de Elio e Oliver esperou um soluço de vinte anos para viver a eternidade.

No final do livro, conhecemos outro Oliver, de sete anos e filho de Samuel e Miranda. Esta criança, ainda tão jovem e tão inocente, é a clara união das três personagens que lideram o livro; é nada mais nada menos que puro amor.

Elio lidera as reflexões poéticas finais e relembra de uma efemeridade agora eterna. Para ele, Oliver sempre existiu, o amor entre eles sempre existiu, mesmo antes do seu nascimento, mesmo antes daquela casa em Itália à beira-mar, mesmo antes do próprio tempo existir; estava destinado, e quem somos nós, meros mortais, para contrariar o próprio Destino e a sua infinidade?

Termino apenas com uma das reflexões finais do livro que não é mais que uma pequeníssima fracção desta obra eterna, e fruto de um talento imensurável: “regardless of where we were, who we were with, and whatever stood in our way, all he needed when the time was right was simply to come and find me”.

Lorena Moreira

⭐⭐⭐⭐

dizem que a paixão o conheceu

mas hoje vive escondido nuns óculos escuros

senta-se no estremecer da noite enumera

o que lhe sobejou do adolescente rosto

turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado

quase sempre estendido ao lado do sono

pressente o suave esvoaçar da idade

ergue-se para o espelho

que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho

à beira-mar envelheceu vagarosamente

sem que nenhuma ternura nenhuma alegria

nenhum ofício cantante

o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto

Pintura de Zdzisław Beksiński

O filme “L’Année derniére à Marienbad” (“O Último Ano em Marienbad” ou “O Ano Passado em Mareinbad“, em português), realizado em 1961 por Alain Resnais, é um dos exemplos mais bem conseguidos do uso de elementos do surrealismo e da narrativa não-linear. Escrito por Alain Robbe-Grillet, o filme retrata um possível reencontro entre duas personagens, um homem e uma mulher, que acontece num grande hotel, sobre a falibilidade da memória e cria um espaço fantástico em que a mente humana é testada.

Tanto quanto uma linha de história pode ser identificada no filme, ela pode ser resumida da seguinte forma: Num castelo barroco, espaçoso, que é usado como um hotel de luxo moderno para uma clientela de classe alta, um dos convidados (Giorgio Albertazzi) tenta persuadir uma mulher (Delphine Seyrig) que eles tiveram algo como um caso no ano anterior. Este ano, esta deveria fugir com ele para uma nova vida fora da arquitetura geométrica e da sociedade altamente formal, longe também do homem que parece estar a olhar por ela, e que pode ser o seu marido. No decorrer de vários encontros e conversas, o protagonista sucede gradualmente em submeter a mulher à sua vontade, sendo que no final do filme os dois parecem estar prontos para deixar o mundo requintado do hotel para um destino desconhecido.

As ambiguidades e incertezas que caracterizam a história não são uma questão de memórias que falham aqui e ali, ora porque muito tempo se passou, ora pelos os acontecimentos em questão serem muito triviais, ou por alguma outra razão realista. Em vez disso, a intenção é de expor ou apresentar tudo no filme como um artifício deliberado. “O Último Ano em Marienbad”, às vezes, é descrito como “a história de uma persuasão” – a história na qual um homem tenta convencer uma mulher da realidade de certos eventos passados, e, assim, persuadi-la a fugir com ele. O que vemos no filme, no entanto, não é uma persuasão em qualquer sentido realista em tudo. “Qual é o seu nome?“, pergunta o homem durante um rendez-vous pouco íntimo no parque do hotel. “Não importa“, responde a mulher. Isto dificilmente pode ser uma conversa entre duas pessoas que tiveram um encontro significativo no ano anterior, e que fizeram um acordo em se reunir novamente e possivelmente fugir. Não seria mesmo uma troca plausível entre os dois se se tivessem encontrado no hotel a apenas alguns dias atrás. A troca é mais como uma meditação filosófica sonhadora que os autores puseram na boca dos protagonistas. Ela tem a mesma função de tornar a história não-realista numa “lembrança” do protagonista. Se o relatório dos actos violentos do marido é uma ficção óbvia, qualquer outro suposto acontecimento pode ser, obviamente, igual. “O Último Ano em Marienbad” não conta uma história sobre memórias incertas e sentimentos contrários, mas sim uma composição deliberadamente incoerente de materiais recolhidos a partir de histórias convencionais e de fantasias dos leitores e espectadores.

A figura do labirinto retorna várias vezes no filme, e pode-se, naturalmente, fazer uma analogia com a própria estrutura da película. A primeira imagem do labirinto aparece nos créditos iniciais em que o plano percorre vários corredores do hotel, chegando, finalmente, a uma sala onde todos os visitantes estão a assistir a um filme. Esta noção de labirinto é importante, porque, primeiro todo o filme retrata memórias e fantasias do protagonista de forma a conseguir construir uma sequência querente que proporcione uma total reconstrução dos eventos passados; segundo, o filme deve ser percorrido como um labirinto, ou seja, testando vários caminhos, várias possibilidades. Resnais explora as diferentes versões da história, com fim de chegar à saída, à verdade, experimentando várias possíveis respostas. O exemplo mais evidente deste conceito é o de reconstruir a mesma sala, onde o realizador reposiciona e reveste as personagens, até mesmo os adereços da sala. Mas isto claro, dentro do ponto de vista do protagonista, que procura preencher as falhas existente na memória, testando-se assim todas as possibilidades, tal e qual se faz num caminho labiríntico.

“O Último Ano em Marienbad” é, sem dúvida, um dos melhores exemplos da abolição cinematográfica da narrativa clássica temporal. Nesta, aparentemente desconexa e incoerente, Resnais e Robbe-Grillet põem o espectador à prova, mas também fazem uma experiência artística cujo material principal é o tempo. Resnais provou com o seu segundo filme que foi o realizador da fragmentação, do tempo e dos códigos tradicionais da narração; pronto a fazer da sua obra uma experiência real para o espectador, que é convidado a tomar parte activa na construção da narrativa e do homem no vasto cenário do mundo. Ele refez o realismo tradicional, que requer um começo, um desenvolvimento e um fim: em condições sociais e num jogo dramático.

É um lugar estranho para ser livre.” – Personagem de Marienbad.

João Filipe

⭐⭐⭐⭐

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt0054632/?ref_=nv_sr_srsg_0

Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/last_year_at_marienbad

Hoje em dia, estamos numa sociedade de aparências; uma sociedade que apenas almeja conseguir um estatuto, o reconhecimento das pessoas, mesmo que por detrás disso haja um vazio, uma falta de motivação profunda e de prazer naquilo que se faz no dia-a-dia, naquilo que nos motiva (ou não) a ser melhores. Procuramos ser bem pagos, sem primeiro investir em algo em que sejamos verdadeiramente bons, para daí advir, com naturalidade, uma valorização (e valoração) da pessoa, de forma a conseguir exponenciar a sua estabilidade (emocional, humana e financeira). Mas, o verdadeiro problema é um pouco mais complexo. Hoje em dia, há falta de sinceridade e de frontalidade. Podemos até discordar das pessoas, mas nunca teremos a ousadia (a clareza intelectual) para o dizer, mesmo que até se trate de um amigo próximo, com quem devemos ter, naturalmente, esse tipo de confiança, é preferível iludir a outra pessoa, dizer que tudo está bem, que gostamos do que está em causa, ao invés de sermos sinceros, primeiro connosco mesmos, depois com os outros.

As pessoas de hoje vivem atormentadas pelo medo de serem mal interpretadas, de ferirem o outro, de não serem compreendidas, de ficarem mal vistas, por isso, na maioria das situações permanecem caladas, silenciosas, reprimidas. Não fosse o maior problema da actualidade, não a voz dos loucos, mas o silêncio dos sensatos (lúcidos), como disse Martin Luther King, o facto de preferirmos calarmo-nos – mesmo que essa escolha (que é uma escolha) não seja uma realização intencional, muitas vezes – revela não só que somos uma sociedade, fundamentalmente, de medos. Lutámos tanto pela nossa liberdade de expressão, e a verdade é que hoje em dia não lhe fazemos um uso pleno, só parcial, só num contexto muito restrito, pessoal, ou confortável. Tudo isto para dizer que, nos dias de hoje, apenas nos sujeitamos a situações que se mantenham na nossa zona de conforto, e muitas vezes nós temos potencial para sermos bem sucedidos noutro patamar, mas o medo é, quase sempre, maior que nós próprios.

Há uma pequena história, muito conhecida, que ilustra muito bem a forma como as pessoas de hoje se manifestam e se revoltam para com opiniões, situações e preconceitos: “Um rapaz e um velhote vão a passar por uma aldeia e levam um burro com eles. Ao passar pela primeira aldeia, os habitantes fazem troça deles por terem um burro e irem ambos a pé. O rapaz sobe ao burro. Na segunda aldeia, os habitantes fazem troça e criticam o facto de ser o velhote a ir a pé. O velhote sobe ao burro. Ao passar na terceira aldeia, a história repete-se e ambos são alvo de críticas por estarem os dois em cima do burro, que assim ficaria com bastante peso para suportar. O rapaz desce. A passar pela quarta aldeia, o velhote é criticado por ser o rapaz a ir a pé, privando o menino de ir mais confortável no burro“. Tudo isto serve para demonstrar que na sociedade de hoje, independentemente do que tu faças, vais ser criticado, e vai haver sempre alguém a dizer que estiveste mal. Esta história, além de traduzir bem a essência da nossa sociedade em geral, caracteriza, igualmente, as redes sociais: um “espaço público” que serve para as pessoas se expressarem irreflectidamente, sem critério e repleto de preconceitos.

Posto isto, deixo um apelo ao leitor: cultivemos mais a nossa individualidade e autenticidade, e deixemos os outros seguir a vida deles, fazer as suas escolhas, e não colocar ninguém acima de nós. Esta é a nossa vida: nós somos a pessoa mais importante da nossa vida. Não devemos ter medo de sermos autênticos. Só de, pelo contrário, não o sermos.

Vale a pena pensar nisto.

Tiago Ferreira

Não te apegues demais

Aos conteúdos da carteira,

Porque ao aparecer um intruso

Podes perder a algibeira.

Ficar a soluçar

A perda dos dividendos,

Tanto trabalho desperdiçado

Tanta hora sem retorno,

Sono e sonhos perdidos

Que parecem não ter dono.

Neste grande desgosto,

Que parece não ter solução,

Às vezes a vida mostra-nos

Que nem tudo deve seguir um certo guião.

Aparecendo uma mão amiga

Como que, por trás da neblina.

Alguém que nos ampara,

E nos ajuda logo ao virar da esquina.

E afinal, pensando ter perdido

Uma grande maquia.

Acabaria por ficar mais rico,

De algo que pouco se vê hoje em dia.

De uma amizade verdadeira

Algo de grande valor.

Deixa lá a algibeira,

Que nesta vida repentina

Não levamos os valores,

Mas quem está à nossa beira.

Pedro Maia