Enquanto as câmaras mediáticas apontam para oeste, “Mr. Nobody Against Putin”, recém vencedor do BAFTA de Melhor Documentário, revela um projeto de longo prazo, onde a guerra é normalizada desde a infância e a violência apresentada como virtude cívica.
Março de 2023, Los Angeles. “Navalny“, de Daniel Roher, convence a Academia dos Óscares de que merece a estatueta dourada de Melhor Documentário. Meses antes, tinha feito o mesmo comigo. O filme coloca-nos na primeira pessoa de Alexei Navalny, o mais incómodo opositor político de Vladimir Putin, e expõe de forma escancarada a tentativa de envenenamento de que foi alvo, em agosto de 2020, através de uma substância tóxica chamada Novichok.
Quem acompanha os Óscares sabe que o mérito importa, mas é secundarizado com frequência por valores como política e contexto. Em 2023, a guerra na Ucrânia, perpetrada pela Federação Russa, dominava as atenções, contribuindo contundentemente para o sucesso do filme de Roher. Três anos volvidos, “Mr. Nobody Against Putin”, coassinado por David Borenstein e Pavel Talankin, nomeado para o mesmo prémio, não deverá ter a mesma sorte. Isto mesmo com a recente vitória do BAFTA de Melhor Documentário no bolso.
A guerra na Ucrânia perdura, as negociações de paz avançam e recuam, a contabilidade dos mortos torna-se cada vez mais agonizante (é a guerra com maior mortandade na Europa desde a 2.ª Grande Guerra), mas a agenda mediática tende a divergir para oeste, perplexa com a deriva autocrática da atual administração americana – que agora se entretém a moldar os destinos do Irão. Entre os efeitos dentro de fronteiras, está a repressão mais agressiva de sempre do ICE, provocando uma clivagem na confiança entre os americanos e as suas forças de segurança.

Neste caldo de conflitos, “A Vizinha Perfeita” (disponível na Netflix), ganha o favoritismo ao retratar a escalada de um desentendimento mundano pelas lentes apaziguadoras e regradas das câmaras corporais da polícia da Flórida. Não é o primeiro filme a usar este dispositivo, mas rara foi a vez em que o vimos sem narração externa ou brutal dramatismo. Conseguirão os Óscares resistir à tentação de premiar este esforço que coloca as forças de segurança americanas sob uma luz mais branda?
Enquanto as câmaras mediáticas apontam para oeste, o documentário “Mr. Nobody Against Putin” revela um projeto de longo prazo, onde a guerra é normalizada desde a infância e a violência apresentada como virtude cívica. O Grupo Wagner faz palestras sobre armas e alunos são premiados pelo alcance do lançamento de granadas. No processo, os professores que corroboram com mais afinco na execução da propaganda do regime são recompensados. Afinal, segundo Putin, “os comandantes não ganham guerras, os professores é que ganham guerras“.
Se “Navalny” transformava o cinema em prova, este filme, com semelhante coragem, transforma-o em testemunho de um plano nacional: a construção metódica de uma economia de guerra, em que crianças, professores e instituições são peças do mesmo projeto. Lá está o cinema, sempre o cinema, a dar-nos a ver mais do que as parangonas do dia, cortando o ruído e alertando para o que persiste, mesmo quando desviamos o olhar.
