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“Sairá da alma e não do cérebro uma obra que emocione.”


António Teixeira Lopes

Nascido a 27 de outubro de 1866 em Vila Nova de Gaia, António Teixeira Lopes afirmou-se como um dos maiores artistas da sua geração, tendo as suas obras espalhadas por todo o país e estrangeiro. Um artista dedicado à sua família e à arte que inspirou e influenciou toda uma geração de artistas, nomeadamente, o escultor e museólogo Diogo de Macedo (1889-1959). É, hoje, um dos expoentes máximos da escultura em Portugal e uma das mais icónicas figuras da cidade de Gaia.

A sua aprendizagem de escultura começou com o seu pai, o ceramista e também escultor José Joaquim Teixeira Lopes (1837-1918), o que proveu um contacto muito próximo com a arte. Principalmente, quando o pai retirou Teixeira Lopes, que já manifestara uma vertente artística acentuada na sua tenra idade, da escola para ensiná-lo na Fábrica de Cerâmica das Devesas, o que proporcionou uma oportunidade para Teixeira Lopes ser criativo.

António Teixeira Lopes no seu atelier em Gaia (Fonte: proximArte)

Mais tarde, foi discípulo de António Soares dos Reis (1847-1889), na Academia Portuense de Belas-Artes, em 1882, e de Pierre-Jules Cavelier (1814-1894) e Louis Ernest Barrias (1841-1905) na École de Paris, em França, 1885. Enquanto estudante em Paris, Teixeira Lopes participa em vários concursos, como na Ronde-Bosse de 1886, onde vence com a obra “Academia”, e no tão aclamado Salon no ano seguinte, onde apresenta “Teresinha” e “Orfão”. Depois da participação em 1887, Teixeira Lopes expõe por mais seis anos consecutivos com obras como “A Viúva”, “A Infância de Caim”, “Ofélia”, etc.

Apesar de estudar e expor em Paris, Teixeira Lopes voltava regularmente a Portugal, onde se destacam algumas exposições como a primeira exposição individual em território nacional realizada na Associação Comercial do Porto em 1890, onde expõe “A República”, “Conde de S. Bento”, “Caim” (que viria a ser uma das suas obras mais conhecidas), entre outras; e a exposição, juntamente com o pintor Veloso Salgado (1864-1945), na Exposição Agrícola Industrial de Vila Nova de Gaia.

A obra de Teixeira Lopes subtrai o realismo e romantismo francês do século XIX e explora uma liberdade artística que se revê na sua originalidade na expressão naturalista. Influenciado pelo escultor francês Auguste Rodin (1840-1917), este considerado o fundador da escultura moderna, Teixeira Lopes “deverá de ser lido / entendido não como um inovador mas como um continuador, isto é, como um conservador da herança clássica em que se filia a tradição da escultura ocidental” (Teixeira, p. 27).

“A Viúva”, Mármore, 1893 (Fonte: Museu de Arte Contemporânea do Chiado)

A “obra-prima” do naturalismo português, “A Viúva”, é tida como uma “peça sentimental e expressiva [de] um corpo desalentado (…) sublinhando a sua situação psicológica”, embora, em termos gerais, se mantenha “fiel à herança do modulado e das temáticas clássicas.” (…) O naturalismo surge como uma vertente deste romantismo e não como um movimento independente. (…)

A obra do escultor António Teixeira Lopes, em sintonia com o seu tempo artístico, revela a complexidade e multiplicidade de influências e registos que caracterizam o século XIX. Além do tempo, também o espaço que percorreu e em que se fixou interagiu com a sua produção, pelo que, a partir desta se compreende o ensino da disciplina em Portugal, o gosto pelas encomendas, públicos, e os referentes externos olhados com admiração.


(Ribeiro, p. 51-56)

Esta peça é “constituída na abstração cénica de um mundo humano, urbano, coletivo e artificial refugia-se na interioridade possível da sua singular dor, (…) perdida na ignota imensidade do chão onde, derradeiramente, desaparecera a presença de seu amado esposo” (Teixeira, p. 45-49). Há ainda os “dois olhares cruzados: o da mãe que desce, mas se suspende, dividido na atenção autómata do gesto de amparo ao filho que por si sobe e para mais alto olha, invocando, quiçá, o augúrio de um futuro escultor de renome” (Teixeira, p. 46).

Teixeira Lopes volta definitivamente a Portugal em 1894, e decide construir um espaço para morar e trabalhar em Vila Nova de Gaia. O projeto da casa-atelier é do seu irmão, o arquiteto José Joaquim Teixeira Lopes Júnior (1872-1919). Este espaço, doado pelo próprio escultor à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia em 1933, é hoje conhecido como Casa-Museu Teixeira Lopes, um dos pontos culturais mais visitados da cidade.

Esta doação acontece porque Teixeira Lopes, que não teve descendência, tinha a intenção de conservar o seu espólio e temia a perda e venda dos seus bens, sendo que também queria tornar este espaço num museu que toda a gente pudesse visitar. Após essa doação, Teixeira Lopes é nomeado diretor-conservador da Casa-Museu.

Casa-Museu Teixeira Lopes

Durante este tempo em Portugal, foi condecorado com a primeira medalha do Grémio Artístico em 1897, e foi professor de escultura por duas vezes na Escola de Belas-Artes do Porto desde 1901 até 1936, pois abandonou primeiramente entre 1916 e 1918, e depois entre 1929 e 1932. Em 1916, ainda assume a presidência da Sociedade Portuense de Belas Artes, fundada em 1898 por artistas como José Marques da Silva (1869-1947), uma das principais figuras da arquitetura do Porto.

Antes da sua morte, legou à Academia uma verba para que anualmente fosse atribuído o prémio “Teixeira Lopes” a quem se revelasse o melhor aluno de escultura. Esta vontade de ajudar o próximo foi algo que o caracterizou durante toda a sua vida, sendo que foram várias as angariações de fundos que organizou para apoiar os mais desfavorecidos, principalmente as crianças. No início do ano de 1942, retira-se para a sua casa de família em São Mamede de Ribatua, onde acabaria por falecer com 76 anos, a 21 de Junho do mesmo ano.

A Casa-Museu Teixeira Lopes merece a visita dos nossos leitores e espera-vos de terça a sábado das 09:00 às 12:30 e das 14:00 às 17:30, com entrada gratuita e visita guiada ao interior da Casa-Museu incluída.

Bibliografia

LOPES, António Teixeira – Ao correr da pena. Memórias de uma vida…. Câmara Municipal de Gaia, Vila Nova de Gaia, 1968.

RIBEIRO, Marta Barbosa; BRITES, Joana – A casa-atelier de António Teixeira Lopes: um microcosmo oitocentista, in N.º 4 (2018): Refúgios, 3.ª Série, pp. 31-59.

RIBEIRO, Marta de Almeida Barbosa – António Teixeira Lopes: a construção do artista e a interpretação da obra. Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural, Universidade de Coimbra, 2017.

TEIXEIRA, José – A mulher na escultura : em António Teixeira Lopes. Tese de mestrado em Teorias da Arte, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2001.

João Filipe

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