“As mulheres ou veem tudo, ou não veem nada, segundo o seu estado de alma. O amor é a sua única luz.”
“A Falsa Amante”
Ao deleite com mais uma novela de Honoré de Balzac (1799-1850). É chegada a hora de avaliarmos uma linda história de amor em “A Falsa Amante” (Editora Biblioteca Azul, 2012, 68 páginas). Aqui o foco recairá para “esta gente do Norte”, os amigos polacos Adão e Tadeu, que chegam a Paris tentando imiscuir-se na sociedade francesa. Valorosos soldados, inclusive Tadeu Paz é capitão e de certa forma orientador do amigo, notadamente nas questões pecuniárias. Amizade como esta não existe e rapidamente adquirem uma propriedade faustosa em Paris, dando-se o casamento com Clementina du Rouvre, filha única do marquês du Rouvre. O conde Adão Mitgislas Laginski é o noivo e ambos percorrerão as rodas da sociedade.
Foi só após algum tempo que Clementina passou a reparar naquele homem que morava num anexo à sua propriedade. Sempre a esquivar-se e cuidando do estábulo, Tadeu passava despercebido, mas nos primeiros colóquios a três, sendo inclusive convidado a ir à Ópera, dá-se a flechada do Cupido. Ele apaixona-se pela mulher do amigo e nem pensa em concretizar os seus desejos. Nada lascivos, passa a ser um amor platónico e nessa altura ele inventa para si uma história de amor com uma amazona do circo, a intrépida Málaga, nome artístico de Margarida Turquet.
A adoção desta por Tadeu é cavalheiresca e misteriosa. Este oferece-se para ser uma espécie de irmão mais velho, quase um pai, tirando-a daquela rotina estafante de circo e oferendo-lhe renda e conforto. Como não ousa em tocar num fio de cabelo da amazona, pois o seu amor estava alhures (e tão perto), vai sendo alvo de fofocas ao ponto de amigas de Málaga a alertarem para este tipo excêntrico.

Adão é um perdulário contumaz. Gasta até não poder mais, notadamente no jogo, e sempre recorre ao amigo no intuito de administrar estas perdas. Estoico como ele só, Tadeu chega até a assumir a culpa por uma renda vultosa perdida. Clementina sugere ao esposo que dispense Tadeu, pois este está a dilapidar o património com Málaga. Fraco de caráter, ele concorda após fraca relutância e, quando é comunicado, Tadeu sabe que tem que dispor de toda a organização das finanças e explica a Clementina tudo o que até então estava em seu poder de decisão: melhores preços, economias, etc. Afinal, lidar com as finanças de um lar não é para todos.
Esta proximidade final deixa-nos em suspense por uma possível queda neste amor platónico, mas Balzac é elegante ao ponto de não fazer perder uma excelente amizade por causa de um affair.
Quando Tadeu parte para reassumir um posto de capitão no Exército polaco, deixa como legado apenas uma carta reveladora a Clementina, explicando o ardil da falsa amante para se ver impedido de declarar o seu verdadeiro amor. Segredo este que se manterá por muito tempo, ficando ela sempre curiosa acerca dos passos do antigo capataz na sua volta à pátria.
Málaga não era bem flor que se cheirasse e talvez a licenciosidade dela fizesse com que muitos a cheirassem demais. Inclusive Adão e a sua moral um pouco duvidosa? Leiam e tirem as vossas próprias conclusões.
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