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Porque A Arte Somos Nós

Imaginem em Portugal algo surgir fora do eixo Lisboa-Porto. Pois cá no Brasil essa díade é do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, províncias fronteiriças que ditam o decurso da arte, cultura, etc. Mas vem da província Rio Grande do Sul, mais ao Sul, uma das mais importantes bandas do rock Brasil: Engenheiros do Hawaii. Formada por Humberto Gessinger (voz e baixo), Augusto Licks (guitarras) e Carlos Maltz (bateria), o trio já tinha três discos no currículo até que lançou um ao vivo, intitulado “Alívio Imediato”. Isso em 1989. A setlist é a seguinte:

Nau À Deriva

Alívio Imediato (estas duas primeiras de estúdio)

A Revolta Dos Dândis I

A Revolta Dos Dândis II

Infinita Highway

A Verdade A Ver Navios

Toda Forma de Poder

Terra De Gigantes

Somos Quem Podemos Ser

Ouça O Que Eu Digo Não Ouça Ninguém

Longe Demais Das Capitais

Tribos E Tribunais

Grande parte dos roqueiros tupiniquins à época procuravam a simples diversão e muitas letras provocativas que bradavam contra o sistema. Percebe-se em Humberto Gessinger, o letrista intimista e filosófico, que cita Albert Camus (1913-1960) e Jean-Paul Sartre (1905-1980). O som do trio é enxuto e direto, agita em algumas canções e, do ao vivo em questão, encontramos interseções de canções já consagradas pelo público. O local da gravação, uma famosa casa noturna do Rio de Janeiro, o Canecão, pulsa com esta apresentação que mais se assemelha a uma pedrada. Um repertório muito bem trabalhado e separando o joio do trigo, passando na peneira acerca das bandas que ficariam, os Engenheiros passam da seletiva, devido à relevância.

Sou suspeito por ser fã ‘de carteirinha’, e em todas as canções percebo a banda ajustadinha e direta. Elenco aqui uma letra bastante reflexiva:

A Revolta dos Dândis I

Entre um rosto e um retrato, o real e o abstrato

Entre a loucura e a lucidez

Entre o uniforme e a nudez

Entre o fim do mundo e o fim do mês

Entre a verdade e o rock inglês

Entre os outros e vocês

Eu me sinto um estrangeiro

Passageiro de algum trem

Que não passa por aqui

Que não passa de ilusão

Entre mortos e feridos

Entre gritos e gemidos

A mentira e a verdade

A solidão e a cidade

Entre um copo e outro

Da mesma bebida

E entre tantos corpos

Com a mesma ferida

Eu me sinto um estrangeiro

Passageiro de algum trem

E que não passa por aqui não

E que não passa de ilusão

Entre americanos e soviéticos

Gregos e troianos

Entra ano e sai ano

Sempre os mesmos planos

Entre a minha boca e a tua

Há tanto tempo, há tantos planos

Mas eu nunca sei pra onde vamos

E eu me sinto um estrangeiro

Passageiro de algum trem

O que não passa por aqui não

E que não passa de ilusão

Da esquerda para a direita: Humberto Gessinger, Carlos Maltz e Augusto Licks. Os Engenheiros do Hawaii na década de 1980

No Ensino Médio, e como os adolescentes têm a estranha mania de se juntarem a tribos, haviam os fãs dos Legião Urbana, dos Titãs (eu incluso) e Engenheiros. Haviam muitas discussões sobre qual era a melhor banda. Tolice, todas eram excelentes! Uma revista de grande circulação à época, no segmento musical, a Bizz, dava grande espaço para as entrevistas dos grupos nacionais e Humberto era detratado pelos críticos, na mesma proporção em que era adorado pelos fãs. Boas polémicas.

Coube ao destino e à boa sorte que no início da minha carreira como editor da Revista Conhece-te, em 2001, eu encontrasse Humberto Gessinger e apresentando-lhe a publicação, ele me desejasse sorte e afirmasse que eu era uma pessoa inteligente, para sempre acreditar no meu potencial. O certo é que tive a oportunidade de realizar grandes entrevistas com ele e isso alavancou muito a Conhece-te.

Mal sabia o miúdo que um dia iria entrevistar o grande músico que admirava com fervor. Rememorando a década de 1980, a certeza de uma baliza importante de um conjunto diferenciado que com o seu intimismo soube marcar o seu nome na história. Humberto segue hoje carreira a solo, mas Engenheiros do Hawaii é uma marca sólida numa existência de mais de três décadas.

Marcelo Pereira Rodrigues

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