“A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre.”
“Homem Comum”
A obra “Homem Comum” (Editora Companhia das Letras, 2007, 131 páginas), de Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Brito, é mais um texto contundente que o autor nos oferece. A cena inicial dá-se num cemitério, e lá ficamos a conhecer a vida deste homem comum, filho de uma família judia que era proprietária de uma relojoaria/joalheria antes da Segunda Grande Guerra nos Estados Unidos, e as tarefas suburbanas deste miúdo que desde cedo teve que ser submetido a cirurgias. Uma, para a erradicação de um caroço e inchaço perto dos testículos, deu-se em tenra idade. Ele lembra-se da companhia de quarto, também um miúdo, que estava mal e fica na sua memória a cama vazia deste no dia seguinte.
Este homem comum, que não tem a sua identidade revelada na história, teve três casamentos. Do primeiro, teve dois filhos, Randy e Lonny, que o detestam. Numa das suas reflexões amarguradas, ele cita:
“Seus Sacanas! Seus idiotas! Seus merdinhas, sempre a condenar-me! Tudo seria diferente, ele se perguntava, se tivesse sido diferente e feito tudo de modo diferente? Agora eu estaria menos só? Claro que sim! Mas o que eu fiz foi isso! Estou com setenta e um anos, e este é o homem que fiz de mim. Foi isso que fiz para chegar aonde cheguei, e estamos conversados!“.
Cecília é o nome da primeira esposa. Do segundo casamento, também desfeito, a esposa é Phoebe. Esta deu-lhe uma filha amorosa, Nancy, mãe de dois gémeos que foi abandonada pelo marido que se via invadido pelo lar crescente. O terceiro casamento foi com uma modelo dinamarquesa de 24 anos, Merete. O ápice deu-se numa lua-de-mel em Paris, antecipada, que fez com que Phoebe parasse de fingir que nada estava a acontecer e, humilhada, pôs fim a tudo. Leiam o desabafo:
“Não, você rachou um táxi com aquela dinamarquesa de vinte e quatro anos com quem está tendo um caso. Desculpe, não dá mais para fingir que não estou vendo. Fingi que não vi com aquela secretária. Mas agora a humilhação foi longe demais. ‘Paris’, exclamou, com repulsa. ‘Tanto planeamento. Tanta premeditação. As passagens, o agente de viagens. Diga-me uma coisa: foi você ou foi a sua namoradinha romântica que teve a ideia de dar uma escapadela em Paris? Onde vocês dois comeram? Quais foram os restaurantes encantadores que frequentaram?“
Como era de esperar, jovem ainda, Merete não estava preparada para lidar com doenças e internações e foi de pouca valia para o nosso desafortunado publicitário. Não que ele não se tivesse destacado na sua área, mas a frustração deu-se devido ao facto de que a sua vocação era a de ser pintor. Mas afinal, a realidade sempre bate à porta e temos que sair para garantir o dinheirinho que irá pagar as contas, não é assim?

O irmão do protagonista é Howie, que desde cedo esbanjava saúde e obteve sucesso na careira, sendo CEO de grandes empresas e que detém uma pequena fortuna de 50 milhões de dólares. Sempre amoroso e atencioso com o irmão, observamos um pouquinho do complexo de Caim e Abel quando o nosso enfermo sempre relativiza o seu desfortúnio em relação à saúde plena do irmão.
Stends, cateteres, anestesias localizadas, anestesias gerais, éter, check-ups, internações, camas hospitalares, recuperações, permeia o livro esse odor de doença que nos acomete a todos, uns em maior, outros em menor escala. Aceitando com estoicismo todas estas etapas, quando se muda para uma casa à beira mar propícia a aposentados, arvora-se a dar aulas de pintura e conhece entre as suas alunas a decrépita Millicent Kramer, que sofre atrozes dores na coluna. Tão fortes que no seu entendimento a ingestão de um frasco de analgésicos, que a levou ao óbito, é preferível do que continuar a sofrer.
Os dias do nosso protagonista são modorrentos. Assim como uma das suas poucas atividades, caminhada pela praia. Encanta-se com o sorriso jovial de uma beldade, coitado! Todo aquele que se está a afogar compreende que rabo de jacaré é tronco. Ela ri e tem-no apenas como um velho, deixando de frequentar aquele bocado de praia quando ele se insinua para ela. Ao procurar amigos para saber como estão, mais más notícias: um está internado com graves problemas psiquiátricos, ele também terá que conviver com o derrame cerebral da segunda esposa, com a boca torta e o reflexo do que significa a velhice.
O único consolo é a amorosa Nancy, que não deixa de ligar um dia sequer. Mas é hora de auto avaliações e o nosso protagonista faz um tour pelo cemitério da família, pois ali ele será enterrado também. Conversa com o coveiro, esta figura que passa tão despercebida no quotidiano, mas que nos acompanha nos momentos mais terríveis, democraticamente servindo um a um. Descrições pormenorizadas do quanto de terra devemos cavar, do porquê da não utilização de pás mecânicas, para evitar que outras covas afundassem, o coveiro faz o seu serviço competentemente e nada mais natural para ele do que fazê-lo. Esse pé no chão (literalmente) remete-nos para o pertencimento à vida enquanto enterra outros.
Ao cabo de uma descrição rude de como se deu o fim do nosso homem comum:
“Ele perdeu a consciência, sentindo-se longe de estar derrubado, de estar condenado, ansioso por se realizar mais uma vez, e no entanto nunca mais despertou. Paragem cardíaca. Deixou de ser, libertou-se do ser sem sequer se dar conta disso. Tal como ele temia desde o início.“
Um livro excelente, deste que é um dos autores mais consagrados da nossa geração.
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