Muitas vezes, a consciência moral não se mede apenas pelo ato cometido, mas pela capacidade de suportarmos ou neutralizarmos o peso do que fizemos; por isso, universalmente falando, a falha ética mais profunda talvez não seja a transgressão em si que fazemos, mas a facilidade com que racionalizamos, com que dissociamos e com que normalizamos o dano causado. Efetivamente, isto expõe uma fragilidade humana recorrente: é comum não escolhermos entre o bem e o mal de forma limpa, mas sim porque estamos à procura de preservar a nossa própria imagem – e é precisamente aí que a nossa moralidade deixa de ser um princípio abstrato para se tornar um teste concreto de integridade.
Este é um dos temas mais marcantes na obra “Crimes and Misdemeanors” (1989), um dos filmes mais inquietantes de Woody Allen – isto porque transforma uma história de adultério e crime numa reflexão amarga sobre culpa, impunidade e auto-engano. De facto, a sua grande riqueza não está em oferecer uma simples lição moral, mas sim em mostrar como até pessoas inteligentes tendem a criar justificações – por vezes, insensatas e irrefletidas – para viverem com aquilo que fizeram.

Sem dúvida que a força do filme nasce da oposição entre duas grandes trajectórias: Judah Rosenthal (Martin Landau), um médico respeitável, que toma uma decisão chocante para salvar a sua própria vida social, e Cliff Stern (Woody Allen), um frustrado realizador de documentários, que procura algum sentido, num mundo onde o sucesso parece favorecer os mais cínicos. Ou seja, esta estrutura paralela, no fundo, faz com que “Crimes e Escapadelas” – título em português – compare duas formas de falência moral: a violência escondida por detrás da impotência ética de quem simplesmente observa o mundo em redor, apático, sem conseguir agir.
O mais perturbador é que Woody Allen não retrata Judah como um monstro unidimensional: pelo contrário, mostra a degradação moral como um processo gradual, alimentado por medo, conveniência e racionalização. Deste modo, o espectador é levado a perceber que o crime não começa no “grande golpe”, mas, sim, muito antes, na capacidade de aceitar pequenas cedências à verdade.

Decerto, o filme coloca em crise a ideia de que o universo recompensa o bem e pune o mal. Em vez disso, apresenta um mundo onde a justiça humana é falível e onde a consciência pode ser silenciada, pelo menos temporariamente. Neste sentido, a grande tensão filosófica da história reside precisamente aí: será que existe uma ordem moral objetiva, ou apenas narrativas que inventamos de forma a tornar o caos suportável?
Factualmente, esta questão torna a obra muito mais do que um drama criminal: é também uma meditação sobre a fragilidade da ética, quando a religião, a lei e a reputação deixam de bastar como limites interiores. Com isto, Judah não é absolvido, mas também não é imediatamente destruído – e essa demora no castigo é talvez a acusação mais severa que “Crimes and Misdemeanors” faz ao mundo moderno.

Inegavelmente, o coração filosófico do filme reside no debate entre fé e niilismo: a personagem do rabino Ben (Sam Waterston) defende que “os olhos de Deus estão sempre sobre nós” e que a vida só tem sentido moral se existir uma ordem divina. No entanto, Judah, inicialmente perturbado pela consciência dos seus atos, acaba por reprimir a culpa. Resultado? No final, prospera: a família continua unida, os negócios florescem e os “maus momentos” desaparecem com o tempo. Ou seja, ele escolhe viver como se o crime nunca tivesse acontecido.
De facto, esta resolução é profundamente perturbadora: Woody Allen parece sugerir que, na ausência de Deus, a moralidade é uma construção humana frágil. Isto é, o crime pode “compensar” se a pessoa tiver poder, estatuto e capacidade de reprimir os seus “fantasmas”. Desta forma, Judah não é punido externamente; o que acontece é que a sua consciência, que parecia uma voz divina interior, vai-se silenciando com o tempo. Com isto, o filme questiona se uma vida ética vale a pena por si mesma ou se é apenas um luxo para quem a pode “pagar”.

Cliff, pelo contrário, representa o lado “perdedor” da equação: íntegro, mas fracassado no amor e na carreira. Isto porque o seu documentário sobre Levy (Martin Bergmann) termina de forma trágica, além de perder Halley para o seu “adversário”, um homem superficial e egocêntrico. Sendo que, no diálogo final, quando Cliff propõe que o assassino do “filme” se entregue graças a uma tragédia moral, Judah responde: “Isso é cinema, não a realidade”.
Aqui reside uma das críticas mais afiadas de “Crimes and Misdemeanors”: a arte – especialmente o cinema de Hollywood ou os documentários mais idealistas – tendem a impor uma certa ordem moral que a vida frequentemente nega. Com efeito, Woody Allen, influenciado por Bergman, Dostoievsky e pelo existencialismo, pinta um universo schopenhaueriano ou nietzschiano: indiferente, onde a ânsia pelo poder prevalece sobre a virtude.
Além disso, uma das qualidades mais notáveis do filme é a forma como mistura o cómico e o trágico sem os separar de forma rígida: as cenas com Cliff, por exemplo, são de uma leveza nervosa que contrastam com o peso da história de Judah – mas essa leveza nunca elimina totalmente o desconforto; pelo contrário, o riso surge como um modo de tornar a desilusão mais suportável.
Portanto, esta fusão de tons também reforça a ideia de que a vida moral não acontece num palco solene: o absurdo, a vaidade e o ridículo fazem parte do mesmo mundo onde se cometem graves crimes. E qual é o resultado? Um filme que parece sorrir enquanto observa uma profunda ruína interior.

Por conseguinte, no centro da obra encontramos a crítica à capacidade humana de reinterpretar os seus próprios atos. Por exemplo, Judah passa de culpado a um homem aparentemente reconciliado consigo mesmo – e essa passagem é inquietante, porque sugere que a consciência pode ser domesticada. Isto é, o filme não afirma que a culpa desaparece: sugere, sim, que ela pode ser negociada até se tornar suportável.
Cliff, por sua vez, representa outra forma de fracasso: a idealização da integridade sem a força prática para a defender. De facto, ele procura autenticidade, mas vive cercado de ilusões, projetos inacabados e relações frustradas. Neste sentido, o “Crimes and Misdemeanors” é cruel com todos os seus protagonistas, pois demostra que a pureza moral raramente sobrevive intacta ao contacto com a vida real.

É indiscutível que, mesmo sendo de 1989, este filme continua atual, pois descreve um mundo onde a imagem pública, a conveniência e a narrativa pessoal pesam mais do que a verdade. Por consequência, esta ambiguidade torna-o especialmente contemporâneo: as pessoas não precisam apenas de esconder o que fizeram; precisam também de criar uma versão de si mesmas que torne determinado gesto, ação ou comportamento aceitáveis.
Assim, “Crimes and Misdemeanors” permanece relevante como uma reflexão sobre responsabilidade, privilégio e impunidade. O seu maior mérito é recusar respostas fáceis e obrigar o espectador a ficar desconfortável com a possibilidade da virtude nem sempre triunfar – e que a lucidez moral nem sempre impede a queda.
Analisado criticamente, o filme é bem menos uma história sobre um assassínio e muito mais um estudo sobre a elasticidade da consciência. Assim sendo, Woody Allen constrói uma obra em que a inteligência não salva ninguém, em que o humor não inocenta nada e em que a clara ausência de justiça se torna o verdadeiro tema.
Um filme sobre integridade, manipulação, hipocrisia e injustiça – e sobre a forma como nós, seres humanos, temos de aceitar isso e continuar a lutar por um mundo (interior) melhor.
Por um cinema feliz.
