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Porque A Arte Somos Nós

O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) deve ser lembrado sempre. O inquieto pensador investigou a fundo a sociedade, tema da sua disciplina e saiu do básico ao tentar explicar os fenómenos de controlo e poder que este último pretendia sobre os comandados, tanto na escola quanto nas fábricas, aliás, sendo as últimas germinadas pelas lições primárias de como se sentar, comportar, cumprir horários e ser um aluno (operário) exemplar. Vale a pena lembrarmos a clássica investigação de Michel Foucault (1926-1984).

Bauman viveu grande parte da sua vida no conflito capitalismo – comunismo, e a quando do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com a queda simbólica do Muro de Berlim, houve quem predissesse que o capital havia afinal vencido e sendo a ideologia dominante, tomaria conta de todos nós. O polonês, que viveu os horrores da Segunda Grande Guerra, poderia ver finda as suas análises, sendo um estudioso experiente e alguém resignado com os rumos do mundo.

Mas qual nada! Com a jovialidade aliada ao olhar de águia, modernizou-se a ponto de estudar aplicativos, o fenómeno das redes sociais, sendo o Facebook o “grande tranquilizador” dos dilemas sociais e foi um crítico ferrenho das teias do consumismo para nos transformar a todos nós em seres compradores, e não pensadores. O termo “modernidade líquida” traduz bem o aventado pelo também sociólogo e filósofo Karl Marx (1818-1883) que já havia vaticinado profeticamente que o capital fazia com que “tudo o que fosse sólido se esvaísse no ar” e isso é observável com a obsolescência programada dos bens de consumo, pois acredito que os telemóveis estão aí para não nos deixar mentir.

O filósofo alemão Karl Marx

E quando o mundo se liquefaz no imediatismo dos contatos virtuais, onde eu posso perentoriamente desconectar-me de uma pessoa que não compartilha os meus pontos de vista, estamos a falar de bolhas que ecoam o jogo de espelhos e ouvimos tão somente a nossa própria voz. Façam uma experiência: escolham uma pessoa na vossa lista de contatos do Facebook e “curtam” os seus posts em sequência.

Na política do agradecimento, ela provavelmente irá identificar-se consigo e afeiçoar-se-á compreendendo que são verdadeiras almas gémeas que se encontraram por acaso e certamente a extensão ocorrerá a partir daí. Mas se não alimentarem essa ração diária de “curtidas”, certamente esta pessoa se desligará de si por ora entendendo que, afinal, vocês não têm pontos de vista assim tão comuns.

O excelente romancista Jonathan Franzen (sei que estou a dever uma resenha sobre um romance dele aqui) critica a banalização do “gostar”, explicando que o que é “gostado” geralmente leva tempo e alude ao couro do boi que é curtido, que é necessário dar um tempo para que o tempo processe essa equação. Não é o que observamos na liquefação dos dias de hoje. O que era sólido esvaiu-se no ar. A tecnologia, nossa aliada a toda a hora, se não fosse ela certamente não seria articulista do Barrete, mas devemos problematizar o monstro diuturnamente para não sermos escravos dele.

Lembro-me que na adolescência escrevia cartas a namoradas e amigos. O ritual de sentar para escrever, refletir, tecer as linhas, passar a limpo, corrigir, melhorar, fazer a redação final, colocar num envelope, dirigir-me a uma agência dos correios, a atendente colar um selo e despachar. Dias após, o retorno com o ritual ao menos básico de se dirigir aos correios (não posso precisar se o remetente tinha o mesmo zelo que eu na redação final), mas este simples exemplo “antigo” indicava-nos o tempo da reflexão, da espera e do anseio.

Hoje nesta liquidez não foram poucas as vezes em que recebi um e-mail, sendo que após duas horas o escrevente alertou-me via mensagem de texto que me havia enviado um e-mail e acredito que ele ansiava por uma resposta efémera e rápida, afinal, o tempo urge para todos. Não são poucas as vezes em que nos desculpamos na resposta pelo tempo que demoramos a responder. Coisa de dois dias. Policio-me para não entrar na correria dos dias atuais.

O filósofo polonês Zygmunt Bauman

A modernidade é líquida também no campo da informação. Conto-vos uma inconfidência acreditando piamente que uma amiga ainda não adquiriu o hábito da leitura e, portanto, não se sentirá atingida por este meu comentário. Relatava a minha amiga sobre as coisas do trabalho, sobre a desvalorização por parte do patrão, do pouco incentivo em desempenhar atividades novas e, após ouvi-la pacientemente, remeti e falei-lhe acerca da obra genial de Albert Camus (1913-1960), “O Mito de Sísifo“, e em como a metáfora da pedra que rola monte abaixo indicava o trabalho inútil, de modo que ela ler o livro seria algo positivo.

Duas horas depois, via mensagem de texto, ela comunicou-me que havia lido a sinopse da obra, que havia entendido tudo, mas que não entendia a correlação que eu havia feito. Pediu-me para explicar. Senti-me impossibilitado de a explicar, até devido ao facto de ela ter afirmado, contraditoriamente, que havia entendido tudo. Foi quando me senti um atrasado que demorou cerca de dez dias para me ater às 158 páginas da obra.

Dou inclusive a sugestão para que através destas resenhas que escrevo aqui para OBarrete, vocês leiam a obra na íntegra, e ficarei muito feliz em conversar com vocês sobre as vossas impressões. No que toca à cultura, educação e aprendizagem, Zygmunt Bauman aventou à feliz perceção de que com a enxurrada de informações que recebemos, coisa enlouquecedora mesmo, não há a menor chance de processarmos tudo. Como havemos de reter a nossa atenção se somos viciados em dispersões, se toleramos os insuportáveis zumbidos dos nossos aplicativos e se nos sujeitamos a estar atualizados o tempo inteiro, mas, contraditoriamente, estarmos desconectados de nós próprios?

Bauman, o velhinho simpático que hipnotizava auditórios com as suas profecias (e a dizer que o profeta não é aquele que adivinha o futuro, mas sim aquele que descreve o presente) manteve-se atual e profundo, cunhando um termo que ficará indelével com ele, do mesmo modo que “a náusea” ficou cunhada a Sartre e “o absurdo” cunhado a Camus. Homem do seu tempo, Bauman ficará determinado como o pensador arguto que refletiu sobre a nossa deprimente “modernidade líquida”.

Será sempre necessário retornar a este pensador.

Zygmunt Bauman analisa a “modernidade líquida”

Marcelo Pereira Rodrigues

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