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Antes de assentar a discussão no jogo que dá título ao artigo, importa refletir sobre uma problemática que inquieta inúmeros jogadores, desenvolvedores e apreciadores de videojogos em geral. Deve ou não um videojogo “dar a mão” ao jogador? Com este termo pretende-se incluir elementos tipicamente presentes em videojogos e que se prendem com a existência de tutoriais, avisos a relembrar as mecânicas de jogo, dicas na resolução de puzzles, e a lista continua.

Aqueles que se debruçam sobre este tema tipicamente situam-se numa de três posições: os que defendem que o jogo deve proporcionar esse acompanhamento do jogador; aqueles que defendem que não o deve fazer (sobretudo por estar a desvalorizar o papel da aprendizagem); por último (e na grande maioria), os que consideram que o jogador deve ter o controlo sobre a sua experiência e sobre a ajuda que recebe.

Não deixa de ser curiosa, portanto, a primeira mensagem que é mostrada logo após iniciar “The Vanishing of Ethan Carter”, onde, sobre um ecrã preto, se leem as seguintes palavras: “Este jogo é uma experiência narrativa que não te dá a mão”. Segue-se um voice-over, onde é possível inferir rapidamente quem é a personagem principal e o conflito inicial da história. Depois, o jogador é deixado no meio de uma floresta à sua mercê.

Mensagem inicial de “The Vanishing of Ethan Carter”

Uma análise minimamente minuciosa permite inferir que se está a controlar Paul Prospero, um famoso investigador de eventos sobrenaturais que, após receber uma carta do seu fã de 12 anos Ethan Carter, decide visitar a sua cidade natal (uma pequena cidade em Wisconsin), descobrindo à chegada que o próprio Ethan se encontra desaparecido. Através das suas qualidades de investigação (traduzidas nas várias mecânicas do jogo), Paul Prospero começa a investigar este desaparecimento, percebendo gradualmente a intervenção de uma entidade sobrenatural não só no desaparecimento de Ethan, mas em vários cadáveres, que Prospero conclui pertencerem todos à família Carter.

Embora nenhuma da jogabilidade seja explicada ao jogador, este irá eventualmente perceber que a maneira de ir avançando na narrativa é desvendando as várias cenas do crime. Através das capacidades sobre-humanas de Prospero, o deslindamento de cada assassinato é composto por duas etapas. Primeiro, o jogador tem que detetar nas redondezas objetos importantes que possam estar relacionados com o crime (por exemplo, uma corda ou vestígios de sangue). Depois de ter todos os elementos que necessita, o jogador tem que interpretar as pistas para criar a sequência temporal dos eventos ligados a essa morte.

As principais mecânicas do jogo estão relacionadas com a investigação de crimes

O jogo é apresentado num ambiente mundo aberto e o jogador (explorando o mesmo através de uma perspetiva na primeira pessoa) pode descobrir as áreas jogáveis à sua vontade. Contudo, a narrativa está apresentada de uma forma linear, de modo que, para avançar com a história, os assassinatos terão que ser resolvidos por uma determinada ordem. Embora a tendência normal fosse a de apresentar algum tipo de indicador sobre o que fazer a seguir, o jogo mantém-se fiel ao lema que introduz no ecrã inicial.

Dependendo das preferências do jogador, essa vertente linear pode ser considerada como uma das poucas críticas que se podem fazer a “The Vanishing of Ethan Carter”. Da mesma forma, aquilo a que se pode chamar o “fim” do jogo não pode ser desbloqueado até que o jogador consiga resolver todos os casos, algo intimidante pois o jogador não é informado nem do número nem do local dos mesmos.

Porventura, a tática usada pelo jogo de não dar a mão ao jogador pode prejudicar mais do que beneficiar a experiência como um todo, pois nem sempre essa regra de ouro é seguida à risca, bem como em certas situações não se perdia nada se houvesse alguma possibilidade em aceder a ajudas. De qualquer modo, “The Vanishing of Ethan Carter” merece ser destacado por contar uma história bem escrita e bem apresentada mas que, acima de tudo, é uma experiência que não podia ser contada em mais nenhum meio além do dos videojogos.

Disponível em: Nintendo Switch, PS4, Xbox One, Windows

Luís Ferreira

Rating: 3 out of 4.

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One thought on “Jogo: “The Vanishing of Ethan Carter” – Quando o jogo não dá a mão ao jogador

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