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Karl Marx (1818-1883) sentenciou certa feita: “Os filósofos já se cansaram de explicar o mundo. É dada a hora de transformá-lo“. Economista, sociólogo, jornalista e também filósofo, Marx é um destes pensadores intrigantes que quebraram a corrente e fincaram os pés na prática sem, contudo, se abster da teoria. Vamos contextualizar um pouco o seu tempo? Publiquei aqui no Barrete alguns artigos de filósofos metafísicos que tentaram explicar o mundo, mas sempre buscando causas externas que justificassem as práticas terrenas, quotidianas. Escrevendo sobre o século XIX, retroativamente, analisei Nietzsche, Schopenhauer e os idealistas alemães, tais Hegel e Kant. Vamos nos ater a Hegel?

Afirmei aqui que o autor de “A Fenomenologia do Espírito” foi o que arquitetou um grande sistema de explicação do mundo, sendo aliás o último sistema filosófico deveras apresentado. Pois Marx foi um grande estudioso de Hegel (aliás, impossível não ser para quem se propunha a estudar Filosofia à época). Ao idealismo sistemático de Hegel, Marx analisa esse grande esquema e, observador do mundo à sua volta, sendo a Revolução Industrial o germe das novas relações sociais, adequa o sistema hegeliano e atribui à quintessência o materialismo histórico, contrapondo-se ao idealismo histórico de Hegel.

Hegel

Explico melhor: o ideal para Hegel era a Filosofia ditando os rumos da vida periférica, para Marx isso dava-se com a compreensão de que a indústria incipiente criaria monstros que escravizariam corações e mentes, daí o capitalismo, com todas as suas nuances que explicitaremos a seguir.

Percebe-se logo de caras que Marx não deseja apenas divagar sobre os assuntos. Ele quer ir além, quer agir e interferir na sociedade que se mostra. Estudioso contumaz, com fôlego para teses e mais teses extensas, busca uma compreensão e através da imprensa (chega a ser editor de um jornal voltado aos trabalhadores, a “Nova Gazeta Renana“) irá conscientizar sobre as novas relações sociais, e algumas dessas explicações são bastante atuais até hoje. Fincado com os pés no chão, ele analisa o óbvio: as fábricas mostravam uma relação social desigual entre duas classes advindas da Revolução Industrial: burgueses (patrões) e proletários (empregados).

A lógica todos conhecemos: o patrão é dono dos meios de produção e contrata empregados que trabalham para ele, que recebem pelas horas trabalhadas e a isso Marx compreende que a lógica nessa relação é a exploração. O empregado, que não possui os meios de produção, ao sujeitar-se a trabalhar determinado número de horas e receber um determinado salário, será sempre subtraído uma vez que o patrão sempre pagará menos do que o funcionário merece, acarretando daí o lucro. Este é o conceito de mais-valia (no caso, de menos-valia para o trabalhador).

Isso leva à alienação e uma vez que cresce essa nova forma de produção, ocasiona a especialização e isso é bastante interessante de se ver até os dias atuais: numa fábrica de automóveis, determinado setor labuta apertando as porcas e parafusos nas rodas; um outro setor veda com borracha as portas do automóvel e assim segue. Pode ocorrer de um trabalhador se aposentar e nessa mesma fábrica, ter passado 30 anos apenas apertando porcas e parafusos. Aqui vale a pena mencionar as cenas do filme “Tempos Modernos“, de Charles Chaplin.

Marx, um exímio homem das letras, vai à luta e começa a denunciar essas relações empregatícias. Observa que os capitalistas exploram os seus trabalhadores e investiga a fundo o capital. Daí um dos seus títulos mais volumosos e interessantes, obra fundamental para quem deseja aprofundar mais o assunto: “O Capital“. Confesso que quando findei a sua leitura, cheia de análises económicas e teses sobre teses, dois aspectos fisgaram-me mais a atenção: quando a matéria-prima encarece e o empresário se vê na impossibilidade de aumentar os preços, recorre a matérias-primas inferiores e, em alguns casos, isso pode acarretar inclusive a fraudes e adulterações, falsificações.

Outra explicação genial de Marx é que ele entendia que o capitalismo era um gigante que veio para ficar e deu a entender que ele tinha recursos para sobreviver à própria ruína e para tanto irei citar um facto simples: na crise dos mercados de 2008, com as Bolsas de Valores e o mercado imobiliário na bancarrota e os bancos em vias de seguir o efeito dominó, qual foi a primeira providência das economias mais sólidas do mundo?

Acreditem: injetarem mais dinheiro nos bancos, pagar a solvência de empresas gigantescas para assim a roda continuar a girar. Com a atual crise da pandemia da Covid-19, a União Europeia injetou trilhões de euros para socorrer aos membros pertencentes ao bloco. Não cabe mais explicações aqui, a coisa já é dada.

O interessante em Marx é que ele não prega apenas uma inversão nessas relações de forças predominantes. Ele não deseja que o empregado se transforme em patrão e vice-versa, uma vez que, se assim fosse, apenas inverteria os polos e a exploração continuaria da mesma forma. Através de frases e sentenças apocalípticas, sendo Marx um grande redator, ajuda a organizar através de correspondências uma organização de trabalhadores internacionais, e esse rastilho de pólvora alastra-se pela Europa até aos Estados Unidos.

Daí o “Manifesto Comunista“, que é de 1848 e que indico como uma porta de entrada aos pensamentos do seu autor. Trata-se de um livro simples, visivelmente voltado para a classe trabalhadora e Marx, a duras penas, viaja pela Europa para ser o líder dessas manifestações. “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos” é o lema desta chamada.

Aqui cabe uma observação acerca da sua vida pessoal. Certa feita, a sua mãe reclamou com ele o seguinte: que ao invés de perder meses e meses elaborando uma obra denominada “O Capital”, seria proveitoso se ele se predispusesse a consegui-lo. Marx sempre passou apertos financeiros, contraditoriamente ao ter sido visto como um homem da prática, perdia-se nas suas ideias e poderia estar mais preocupado em dar um estilo ao final do parágrafo que estava escrevendo ao choro de um filho que estava visivelmente a morrer de fome. Chegou ao ponto de deixar faltar batatas para a sua numerosa família.

O próprio “Manifesto Comunista” é fruto de uma insólita parceria, pois o filho de um industrial torna-se seu amigo e ajuda-o a sair dos seus muitos apuros financeiros. Seu nome? Friedrich Engels (1820-1895). Amigo e discípulo, este formulou muitas das teorias marxistas.

Friedrich Engels

Na atualidade, Marx sofre de um preconceito ideológico gritante e a isso aludo ao mesmo preconceito que indica que foi Friedrich Nietzsche (1844-1900) com o seu conceito de Super Homem o causador do nazismo impetrado por Adolf Hitler. Pois bem, é facto que a Revolução Russa de 1917 se inspirou nas ideias de Marx para pregar o socialismo, a coletivização dos bens de produção nas mãos do Estado que distribuiria em partes iguais aos seus cidadãos partes deste bolo.

Pois somos sabedores das atrocidades cometidas por uma classe de dirigentes russos e Josef Stalin que exterminou 20 milhões de indivíduos (sendo três vezes mais genocida que Hitler), só que cabe aqui uma observação: como Stálin combateu Hitler na Segunda Guerra Mundial, e a história sempre foi escrita pelos vencedores, pois bem, meio que fizeram vistas grossas a essas atrocidades. E Stálin vitimou o seu próprio povo, fazendo-os morrer de fome nos gulags (mas isso é para outro artigo).

A esse preconceito, costumo analisar que uma coisa foi Marx, outras os marxistas e o marxismo, sendo que muitos estudiosos deturparam e deturpam até hoje muito do que ele nos ensinou. Aliás, cabe aqui um puxão de orelhas: para um sujeito que se diz comunista ou socialista, questionem-no se ele leu algum escrito de Marx. Simples assim.

Pela relevância de Karl Marx, pretendo escrever outros artigos em breve. Indico o filme “O Jovem Karl Marx“, do realizador Raoul Peck, de 2017, que nos apresenta importantes traços biográficos deste ilustre pensador.

Marcelo Pereira Rodrigues

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3 thoughts on “Karl Marx: Um pensador bastante atual

  1. Mauro Donisete Holsapfel diz:

    Marx e Engels foram os primeiros autores ocidentais a proporem genocídios de povos inteiros. O morticínio dos regimes comunistas já era propagado por eles.

    1. marcelopereirarodrigues diz:

      Obrigado pelo comentário! O senhor poderia me citar as partes específicas onde os autores escreveram isso?

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