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O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831) é um dos maiores expoentes do Idealismo alemão, um dos principais filósofos do século XIX e um dos últimos a elaborar um grande sistema de explicação dos problemas metafísicos da humanidade. Neste artigo panorâmico procurarei apresentar algumas de suas melhores contribuições para a História do pensamento universal.

Na área filosófica, de um ponto de vista mais intrínseco e por vezes impenetráveis a quem não cursou Filosofia, vou tentar ser bastante didático: retomando uma explicação que sempre gosto de informar a leigos, é o seguinte: desde a Antiguidade Clássica, no tempo de Sócrates, Platão e Aristóteles, e mesmo antes destes, com os pré-socráticos, a grande dificuldade dos pensadores foi estabelecer um plano que estivesse além do meramente físico. Um mundo perfeito das ideias (Platão), um céu cristão, um questionamento feito por René Descartes acerca do dilema: “Posso ter certeza de que existo pelo simples ato de pensar?” etc.

René Descartes

Óbvio que tivemos outros sistemas filosóficos que sempre intentaram alcançar esse Ser tão pouco palpável aos nossos sentidos, até pelo facto de os próprios sentidos serem limitadores deste alcance. No artigo sobre Kant publicado no OBarrete esclareci acerca da contribuição do filósofo de Königsberg para a história do pensamento, quando este aborda a questão dos limites do conhecimento humano, sendo que as duas funções cognitivas a priori seriam o espaço e o tempo. Reafirmo: Immanuel Kant é um marco na História da Filosofia: só podemos entender a disciplina antes e depois dele.

Depois dele, e claro, dialogando com ele em vida ainda, Hegel retoma a questão da necessidade de se investigar a totalidade deste Ser, retomando a metafísica antes de Kant. Este Ser, intentado e denominado por ele de Espírito Absoluto, manifestaria-se por intermédio da História, e aí Hegel vai montando o seu castelo de especulações metafísicas numa abordagem interessantíssima. Essa abordagem que dá ênfase ao coletivo, à História, à Filosofia, e acaba dando pouco apreço às questões individuais, daí as críticas decorrentes de filósofos existencialistas, como o dinamarquês Sören Kierkegaard (1813 – 1855) que disse, de certa feita: “Hegel construiu um castelo. E foi morar em um celeiro“. Deixemos essas observações por agora e foquemos em Hegel.

Entendia ele que a Filosofia, essa ave de Minerva, apareceu com os pré-socráticos e a cada estágio da sua caminhada, comportou-se como produto do meio, com todas as suas limitações e essa viagem heróica apontava o estágio parcial do Espírito Absoluto. Aqui cabe uma explicação interessante: até os dias modernos, esse Espírito (mas gentileza não confundirem com religião) mostrava-se e permitia, a cada jornada, uma depuração desse conhecimento e sabedoria.

Assim sendo, estudando todos os períodos da Filosofia até a sua época, Hegel elaborou a caminhada desse Espírito Absoluto (verificada na sua obra mais famosa, “A Fenomenologia do Espírito“) e sem falsa modéstia, entendia que a ele e a seu tempo foi dada a primazia de abarcarem o todo do conhecimento filosófico universal. Por vezes, quase pode beirar à megalomania a percepção de que “O Absoluto sou eu”.

Sören Kierkegaard

Professor renomado e filósofo destacado, Hegel foi convocado pelo governo a fundamentar as bases do ensino da Filosofia nas universidades alemãs. Foi o primeiro a sistematizar a aplicação dessa grade curricular e o formato de História da Filosofia Universal que estudamos até hoje seguem as suas diretrizes. Claro que, com o avançar da época, outras doutrinas e pensamentos foram acrescidas. Sistematizando todo o seu entendimento do mundo, ele mergulhou na questão da consciência e diferenciou-a em três estágios: a sensível, a infeliz e a absoluta. Vamos destrinchar um pouco e trazer para a época atual?

Consciência sensível é a comum a todos nós. São aquelas afecções e sentimentos pelos quais passamos; os acontecimentos quotidianos, as nossas relações com as pessoas e com as coisas, etc. É como um sujeito que apanha o metro e nem se dá conta dos factos ordinários da sua vida. O seu encontro com o bilheteiro, o sentar-se ao lado de um miúdo, enfim, é o viver no seu aspecto mais corriqueiro e banal.

Já a consciência infeliz traduz-se num estágio de inquietação de quem busca conhecer para além deste mundo sensível. Com esforço, dedicação e estudo, mentes individuais evoluem para problematizarem o corriqueiro, intentando um algo a mais. A consciência sente-se infeliz ao ver o distanciamento cada vez maior entre a sua consciência crítica e aquilo que observa do rebanho.

A consciência absoluta é quase uma condição de santo. Um estágio da consciência impermeável às questões comezinhas e que dificilmente se importunará com uma fechada brusca no trânsito. É quase um estágio zen, mas que fique bastante claro: esse bem-estar advém da Filosofia, que se manifesta na compreensão do Além e a vitória da História que finalmente determina o seu fim.

É uma das metáforas mais bonitas da Filosofia quando Hegel, ao abordar a ave de Minerva, ou seja, a coruja (que não à toa é considerada símbolo da Filosofia) voando a altitudes sublimes e observando o mundo, os homens e as coisas terrenas de um ângulo privilegiado. Esse voo panorâmico revela o status do filósofo, do amante da sabedoria, daquele que é privilegiado por ser um agente do tempo e da história na grande viagem do conhecimento.

Essa ênfase na História dada por ele é o que fundamenta toda a sua teoria, no movimento que passou a ser conhecido como Idealismo. Um de seus leitores mais atentos foi o filósofo e sociólogo Karl Marx (1818 – 1883) que pensou todo o esquema hegeliano, mas que inverteu um pólo fundamental: ao invés do idealismo deste, inaugurou a concepção de materialismo histórico. Por isso costumo brincar que Marx foi um hegeliano de esquerda.

Karl Marx

Certamente um artigo é pouco e insuficiente para apresentarmos todas as teorias de Hegel, que fez valorosas contribuições no campo do ensino universitário (como dito acima), na Estética, na Arte, Religião, Direito, Política, enfim, um filósofo completo enclausurado no seu castelo metafísico.

Não é pouca coisa ser o último filósofo a propor um grande sistema de explicação do mundo. Hegel tem seus méritos!

Marcelo Pereira Rodrigues

One thought on “Hegel: O filósofo que insistia no absoluto

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