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Porque A Arte Somos Nós

Este drama altamente impactante transpõe uma tranquilidade e correlação entre os seus aspetos mais ousados, cinematograficamente falando, de enorme destaque. Se a sua narrativa arranca com bastante entretenimento e ritmo, a forma como se desenvolve nunca é forçada, nem tão-pouco previsível. Aquilo que esperamos deste “Primal Fear” (1996) está sempre aquém daquilo que a obra desperta realmente em nós. Numa história onde o real e o ilusório também entram em conflito, a verdade é que a sua maior valência fílmica está na sua personalidade e na sua constância quase deslumbrante.

A forma como contorna as peças do seu puzzle é de tal forma sui generis que o espectador se recusa a perder o fio à meada, sendo sempre capaz de encontrar o norte através das suas subtilezas altamente visionárias. No plot inicial temos um advogado bem-sucedido e bastante egocêntrico, Martin Vail (Richard Gere). Sempre no auge da fama, este advogado decide defender, em regime pro bono, um rapaz, Aaron (Edward Norton), acusado de matar um arcebispo em Chicago, num caso bastante mediático. No entanto, a verdade é que ao investigar o caso acaba por descobrir alguns factos sinistros sobre o crime.

A riqueza mais contemplativa deste filme obedece a regras bastante peculiares. Não só o motivo narrativo que nos é apresentado é bastante coeso e coerente, como os sub-plots vão justificando, com bastante rigor, a sua essência. Em “Primal Fear”, temos o melhor de vários “mundos”, uma vez que não carece, de todo, de riqueza de géneros. Além de ser bastante efetivo na forma assertiva como nos mostra o ambiente de um julgamento, não deixa de ter na personagem do advogado Vail a simplicidade e o auge da sua atratividade.

Martin Vail (Richard Gere) e Aaron (Edward Norton)

Um dos aspetos mais curiosos da narrativa prende-se com o facto de a advogada de acusação, Janet Venable (Laura Linney), ter já um historial romântico com Martin, o que não só significa que esta destemida advogada tem, por um lado, uma certa vantagem em já conhecer certas artimanhas do seu oponente, mas por outro Martin, manhoso e engenhoso como é, conhece os pontos fracos de Janet e vai certamente aproveitar-se disso. Nota-se perfeitamente um clima de bastante tensão entre eles e que, de facto, houve certas coisas que ficaram mal resolvidas, o que alimenta, de certa forma, a chama deste confronto.

Ao que tudo indica, Aaron parece sofrer de uma condição bastante rara e bizarra de dupla personalidade. Desta forma, aquilo que Martin vai tentar alegar é que não terá sido, alegadamente, Aaron a cometer o crime, mas sim a sua figura mais reprimida, o seu outro lado, a que chama de Roy. De facto, este filme consegue-nos dar uma riqueza bastante produtiva de entretenimento, além de ser bastante obscuro quando tem que ser, sem nunca dar tudo ao espectador e deixando a expectativa de algo mais comandar o seu conforto cinematográfico.

Neste papel, que é o primeiro de Edward Norton numa longa-metragem, fica uma sensação ampla de dever cumprido e daquela que na altura se afirmava como uma das maiores promessas na indústria cinematográfica – como se veio a verificar. Além disso, este filme toca bastante em pontos de acertada discussão, tais como a pornografia infantil e como a mente humana nos pode levar por um caminho de alheamento e afundamento interpessoal, sem nunca perder o seu norte mais ousado.

Janet Venable (Laura Linney) e Martin Vail (Richard Gere)

Estará o rapaz a dizer a verdade? Terá sido mesmo “ele”? Terá havido uma terceira pessoa? São questões que não abandonam a índole interessada do auditório, faminto de uma emoção, suspense e gradação dramática que “A Raiz do Medo” (título em português) nos consegue dar em grande medida. Para tal, contamos com o argumento conjunto de Steve Shagan e Ann Biderman, que o adaptaram do romance homónimo de William Diehl, de 1992. A realização, essa, tem a obra de Gregory Hoblit, capaz de enquadrar este guião num filme com um princípio, meio e fim bastante articulados, sem esquecer a beleza e simplicidade da sua banda sonora – que até música portuguesa contém.

Assim, chegamos ao final do filme com um questionamento bastante válido: qual é, de facto, o medo primitivo por detrás desta história? Naturalmente, a par com a sua estrutura quase exímia, tem certos aspetos de thriller que vão alimentando a fome do espectador, aguçados por um ritmo calmo, contemplativo e bastante sui generis, quase raros numa produção deste calibre.

O lema principal deste filme é “mais cedo ou mais tarde um Homem que carrega consigo duas caras se esquecerá de qual delas é real”. Felizmente, a experiência que esta história proporciona dificilmente se esquecerá, isto porque, no meio de tanto realismo, uma irrealidade nunca vem só.

Por um cinema feliz.

Tiago Ferreira

Rating: 4 out of 4.

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