OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Dom Sebastião (1554-data da morte em estudo) foi rei de Portugal e dos Algarves. Único filho legítimo de João Manuel, Príncipe de Portugal e da sua esposa, Joana da Áustria. Foi um herdeiro esperado e desejado para dar continuidade à dinastia dos Avis. Assumiu o governo aos catorze anos de idade, manifestando fervor religioso e militar. Defendeu os interesses portugueses no norte de África, planeando a tomada do porto de Larache, controlado pelos gananciosos turcos. Nesse porto, os corsários atacavam as naus portuguesas, impedindo o comércio transatlântico. Espanha não enviou ajuda: as prometidas galés. Dom Sebastião então marchou por terra culminando na armadilha da Batalha Alcácer Quibir.

Nas mãos do sultão Abedal Maleque (Mulei Maluco), os portugueses perderam grande parte do seu exército. Uma chacina. Ao ser aconselhado a render-se e a entregar a sua espada, Dom Sebastião terá dito: “A liberdade real só há de perder-se com a vida“. Foram as suas últimas palavras. Os cavaleiros arremeteram contra os turcos. Dom Sebastião seguiu a massa. Desapareceu como por magia, envolto na multidão, na fumaça de um nevoeiro que o encobriu completamente. Todos ficaram em dúvida sobre o seu verdadeiro fim.

O mistério ainda ronda o desaparecimento de Dom Sebastião. Um enigma. Teria mesmo morrido com apenas vinte e quatro anos durante a fatídica cilada? Dizem que um alcaide de Marrocos terá pedido resgate por Dom Sebastião. Que o próprio rei escreveu a mensagem de socorro. Que ele chegou vivo a Itália. Um estranho encapuzado em Veneza. Maltratado e humilhado. Qual terá sido o seu sombrio destino? Foi posto em ferros na masmorra de um castelo? Ou num navio para ser vendido como escravo?

O desastre instalou-se em Portugal. A independência do país em perigo. A juventude dizimada. Filipe II de Espanha, casado com uma irmã de Dom Sebastião, foi declarado sucessor legítimo ao trono. O povo, imaginando Dom Sebastião vivo, não baixou os braços. Dom Sebastião voltaria para salvar a Pátria. Tinham fé. Certeza. Filipe invadiu Portugal com violência e opressão.

Pintura do Rei de Portugal, D. Sebastião, por Cristóvão Morais (1572) / Wikipédia

O tempo passou. Quatro homens afirmaram ser o rei Dom Sebastião. Alguns foram presos, outros enforcados. Seriam mesmo impostores? Loucos? Farsantes? Delirantes? O facto é que Dom Sebastião se tornou num mito. Um mito messiânico, o sebastianismo, germinou e atravessou séculos. A crença obstinada de que o herói voltaria por entre as brumas.

Luís Vaz de Camões dedicou a sua obra-prima, “Os Lusíadas” (1572), ao rei Dom Sebastião, fazendo um retrato épico e mitológico do monarca. Solicita ao rei que ouça com humildade o que ele, poeta, tem a dizer. Apela ao rei que volte e renove a memória dos seus antepassados. Lembra que os seus “vassalos excelentes” enfrentam lutas e privações sem sua presença. Um trecho:

E vós, ó bem nascida segurança

Da Lusitânia antiga liberdade,

É não menos certíssima esperança

De aumento da pequena cristandade;

Vós, o novo temor da maura lança,

Maravilha fatal da nossa idade,

Dada ao mundo por Deus, que todo mande

Para do mundo a Deus dar parte grande.

Fernando Pessoa, no seu livro de poemas “Mensagem” (1934), escreveu o poema “Dom Sebastião, Rei de Portugal“. Transcrevo os versos:

Louco, um louco porque quis a grandeza.

……………………………………………………

Minha loucura, outros que a tomem,

E o que nela ia,

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

A cultura popular brasileira, através do catolicismo sertanejo de resistência agrária do século XIX, assimilou o mito de Dom Sebastião. Lá no sertão da Bahia, durante a Guerra de Canudos (1896-1897), os camponeses acreditavam que o rei iria regressar para auxiliar no confronto com a “República ateia”. E também durante a Guerra do Contestado (1912-1916), entre o Paraná e Santa Catarina, surgiram vários líderes messiânicos como os monges José Maria de Santo Agostinho e João Maria, que acreditavam firmemente na volta do rei Dom Sebastião, em carne e osso, símbolo espiritual do elevado ideal da cavalaria.

O poeta português Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935)

A síndrome de um salvador da Pátria persiste nos corações. É uma tendência psicológica, cultural e política de uma sociedade mergulhada em crises, trevas, corrupção generalizada e falta de esperança. Como resolver tantos problemas sem uma liderança forte? Uma condução e visão claras? Como encontrar soluções coletivas se as instituições estão desacreditadas, falidas, endividadas em bilhões? Se as pessoas estão a ser postas umas contra as outras, sem solidariedade e compaixão? Quando virão melhores dias, de justiça, pacificação e prosperidade?

Que mito o de Dom Sebastião! E meu poema ficou assim:

Dom Sebastião,

Rei,

Monge,

Cavaleiro

De meu distante Portugal.

Dizem que morreste em Alcácer-Quibir,

Desapareceste na floresta tórrida,

Montado num elefante

Ajaezado de púrpura,

A cruz de prata no peito.

O sultão marroquino

Fez de mim escrava,

Senhor absoluto,

Vivo sob seu domínio.

À minha volta

As tamareiras se erguem,

Ácidas,

Tiro resina das acácias;

Fora das muralhas do palácio

Há rinocerontes,

Gorilas,

Búfalos negros

E avestruzes gigantes;

No grande platô,

Pigmeus

Escondem-se entre folhas de palmeiras;

Por toda parte, o perigo,

O mouro,

A ambição de marfim.

Não morreste,

Bravo Dom Sebastião,

Virás salvar-me,

Libertar-me do sultão,

Do soberano Mal;

Nas asas da Arte,

Pelo oceano da Poesia

Regressaremos juntos

Às fontes,

Às raízes,

À glória de Portugal.

Raquel Naveira

O OBarrete quer continuar a trazer as melhores análises e embarcar em novas aventuras. Clica aqui e ajuda-nos, com o mínimo que seja, a conseguir os nossos objetivos!

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from OBarrete

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading