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Porque A Arte Somos Nós

Luís de Camões foi o cantor da mais célebre aventura marítima lusitana, mas ficou enleado naquilo que escreveu. Do homem que foi, quase nada se sabe, é pouca a documentação a esclarecer a sua biografia (obscura): tudo aponta para que tenha nascido em Lisboa. Dá-se como muito provável o seu nascimento em 1534 ou 1535. “Ó gente temerosa, não te espantes, / que este dia deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu“.

Dir-se-ia que os grandes poetas, os grandes artistas, têm essa fatalidade: não são muito conhecidos, não há muitos elementos para estabelecer a sua biografia. No entanto, a relação de Camões com Coimbra é lógica e plausível: a Universidade era na época o lugar de formação da intelectualidade nacional.

Camões, o boémio, o namoradeiro, é uma das poucas facetas adquiridas como certas pela história em relação à personalidade do poeta. Os seus versos não deixam dúvidas: Luís Vaz de Camões padeceu de amor, mas quanto ao resto são os próprios historiadores a dizer que na vida do escritor quase tudo é conjectura, suposição, hipótese, cálculo de probabilidade.

Camões tem sido e continua a ser assumido como símbolo de Portugal: sentimo-lo como um de nós, personificando-nos colectivamente. Era um apaixonado, insatisfeito, aventureiro e irrequieto, disposto a partir, sempre disposto a começar de novo, a tentar as fortunas noutras paragens. Com ele, identificamos a aventura das descobertas. Também Camões sentiu a necessidade de se interrogar sobre a nossa razão de ser como país: oscila entre uma visão negativa, pessimista, descrente de Portugal e também de si mesmo e, por outro lado, uma euforia entusiástica ou um orgulho desmedido.

Luís de Camões foi um dos impulsionadores da chamada “medida velha”, expressa em redondilhas (menor ou maior). Por outro lado, a dita “medida nova” praticou-a na poesia épica d’”Os Lusíadas“. Ademais, nos seus sonetos, o escritor consegue imergir em temas substanciais como o amor, a tristeza, a saudade, a religião e a própria Natureza. Mais concretamente, há uma procura interior em, através das suas paixões não correspondidas – resultantes numa angústia profunda – “cantar” a sua dor, repleta de sofrimento e de depressão.

No meio de toda esta cultura sentimental, importa frisar que Camões recebeu uma substancial influência de Petrarca, poeta italiano, mas também uma forte vertente clássica por parte, por exemplo, de Platão. E toda esta conexão ideológica é visível na sua poesia de elevação sentimental e de interioridade analítica, que racionaliza e dramatiza o amor de uma forma lógica. Tudo isto leva Camões a cair em paradoxos e contradições entre ser e ter e, mais concretamente, numa interrogação interminável: viver para amar ou amar para viver?

Retrato de Francisco Petrarca
Estátua de Platão

Nos seus poemas, faz o tratamento da figura da mulher amada, posta a descoberto através dos estereótipos petrarquistas e idealizada como um ser celestial e inatingível, permitindo ao homem fazer a transposição do mundo das aparências ao mundo das essências. Além disso, enaltece-se a importância atribuída à memória nos seus poemas, associada à acção destruidora do tempo, do destino e da morte, e, muito concretamente, à labilidade do amor.

A memória é a faculdade humana que permite aglomerar e conservar todos as evidências do percurso amoroso do sujeito lírico e é, precisamente, ela que consegue manter também a perdurabilidade destes fenómenos no interior do poeta, quer através de presença ou reconstrução do passado, quer enquanto projeção no futuro.

Camões pareceu querer fazer crer que, no modo de inspiração e criação poética, o acto da escrita provém ontologicamente da vivência do sentimento amoroso em si, o que atribui aos seus sonetos uma das expressividades mais efectivas da simbiose do evento biográfico, enquanto fenómeno poético que qualifica o petrarquismo quinhentista.

“Os Lusíadas” são, entre muitas outras coisas, a busca de uma identidade para Portugal: pretende levar os portugueses a fazerem as perguntas fundamentais — Quem somos? O que nos define? Que missão nos cabe na História? Qual o sentido do nosso passado? Que rumo a seguir no futuro?

Primeira edição de “Os Lusíadas” (1572)

Camões pretende que os portugueses obtenham de si mesmos uma imagem, que sem lhes ocultar os seus defeitos, os seus erros, lhes permita reconhecer o sentido e dignidade de um passado comum. Mas mais do que isso, a obra de Camões constitui um impulso à superação das nossas limitações, dos nossos defeitos; um apelo ao melhor de nós mesmos, ao heroísmo, à dedicação e aos valores colectivos, de modo a ultrapassarmos o individualismo que nos caracteriza.

Por sua vez, a poesia de Camões debruça-se sobre o que é transitório, o que é incerto. No entanto, há um lado dialético quase contrastante (como não podia deixar de ser) nas reflexões que faz sobre a condição humana e a sua finalidade. Com uma forte influência clássica, o “destino” não podia deixar de ser a real fatalidade camoniana.

Por outro lado, o tempo é, precisamente, o antídoto para tudo aquilo que seja do domínio do indizível e inefável, mesmo que por vezes seja capaz de aniquilar, por exemplo, a esperança, o sonho, que fazem resultar a desilusão. Essa força de impotência conduz a nossa própria mente a profundos desencontros do raciocínio e pensamento, numa clara dificuldade, universal a todos nós, em viver em harmonia connosco mesmos.

Camões simboliza um voto de confiança no Homem, que faz face ao futuro com esperança e coragem.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Eterno.

Tiago Ferreira

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