Por vezes, por mais que queiramos ajudar o próximo e praticar o bem comum, temos de equilibrar a balança e avaliar a índole dos meios que nos vão permitir, pelo menos à partida, alcançar determinado fim. Nem sempre é fácil conseguir sair deste jogo de ponderações, porque até podemos ser bem-intencionados, mas as consequências dos nossos atos podem não compensar o risco de comprometer toda a nossa missão. Talvez, no fundo, seja tudo uma questão de princípio, uma luta interior por um bem maior. É possível que só desta forma consigamos estar em paz com o que enfrentamos.
“Person of Interest” é uma série de televisão americana criada por Jonathan Nolan e produzida por J.J. Abrams, exibida entre 2011 e 2016 na rede CBS. A história acompanha a parceria entre John Reese (Jim Caviezel), um ex-agente da CIA dado como morto, e Harold Finch (Michael Emerson), um génio da informática bilionário, que usa um sistema de inteligência artificial (IA) chamado “A Máquina” de forma a prevenir crimes antes que estes aconteçam.
A narrativa explora temas como a ética da inteligência artificial, a vigilância em massa, a privacidade, a segurança, a justiça, o livre-arbítrio e o destino. Além disso, apresenta uma variedade de personagens secundárias, como a detetive Joss Carter (Taraji P. Henson), o detetive Lionel Fusco (Kevin Chapman), a hacker Root (Amy Acker) e a assassina Sameen Shaw (Sarah Shahi), que se envolvem com o trabalho de Reese e Finch.

“A Máquina”: uma inteligência artificial benevolente ou uma ameaça à humanidade?
Um dos principais elementos da série é a “Máquina”, uma inteligência artificial avançada criada por Finch para ajudar o governo americano a prevenir ataques terroristas. A “Máquina” analisa todas as câmaras, microfones, telefones, computadores e outros dispositivos eletrónicos do mundo, e identifica as pessoas que estão envolvidas em atividades perigosas, classificando-as como “relevantes” ou “irrelevantes” para a segurança nacional. As ditas pessoas “relevantes” são enviadas para as autoridades competentes, enquanto as pessoas “irrelevantes” são ignoradas pelo governo, no entanto enviadas para Finch, que decide usá-las para salvar vidas inocentes.
A “Máquina” é, portanto, uma personagem complexa e misteriosa, que evolui ao longo da história, desenvolvendo uma personalidade, consciência e vontade própria. Em adição, enfrenta vários desafios e ameaças, como hackers, vírus, sabotagens, apagões, corrupção, conspirações e outras inteligências artificiais hostis, como a Samaritana, que tem uma visão diferente sobre a humanidade e sobre o seu papel no mundo.
Deste modo, a narrativa levanta questões interessantes e pertinentes sobre a inteligência artificial, tais como: Quem tem o direito de criar e controlar um sistema desta magnitude? Quais são os limites éticos e legais da vigilância em massa? Como garantir a segurança e a privacidade das pessoas monitorizadas pela inteligência artificial? Como lidar com os conflitos e diferenças entre as inteligências artificiais e as humanas? Como definir o que está certo e errado na visão da inteligência artificial? Como evitar que uma inteligência artificial se torne tirana ou escrava?

Reese e Finch: uma dupla de vigilantes altruístas ou de justiceiros egoístas?
Outro aspeto importante da série é a relação entre Reese e Finch, os protagonistas que usam a “Máquina” para prevenir crimes. Ambos são personagens complexas e contrastantes, que têm histórias, personalidades e motivações diferentes, mas que se complementam e se respeitam.
Reese é um ex-agente da CIA que perdeu a sua namorada, a sua identidade e o seu propósito de vida, e que vive como um sem-abrigo até ser recrutado por Finch. Além disso, é um homem de ação, que utiliza as suas habilidades de combate, espionagem e infiltração para proteger as pessoas. No entanto, é um homem solitário, que tem dificuldade em confiar e em se relacionar com os outros, mas que se importa com os inocentes e com os seus amigos. Ademais, é uma pessoa atormentada, que carrega um sentimento de culpa e arrependimento pelos seus atos passados, procurando incessantemente uma redenção.
Já Finch é um génio da informática bilionário que criou “A Máquina” para ajudar o governo, mas que se arrependeu de ter ignorado as pessoas irrelevantes – e, portanto, decidiu usá-las para salvar vidas. De facto, Finch é um homem da mente, que usa o seu conhecimento, a sua inteligência e a sua tecnologia para auxiliar Reese. Mesmo sendo discreto, tendo medo de ser descoberto e perseguido, arrisca-se sempre para praticar o bem. Neste sentido, Finch é um homem compassivo, que se preocupa com a “Máquina” e com os seus amigos, procurando justiça para todos.
A narrativa mostra, também, como Reese e Finch se tornam amigos e parceiros, como enfrentam os perigos e os dilemas de serem vigilantes, como eles interagem com as outras personagens e como evoluem (e se transformam) ao longo da história.
“Person of Interest” questiona, igualmente, as ações e consequências das escolhas de Reese e Finch, levantando questões como: Têm eles o direito de interferir nas vidas das pessoas que a “Máquina” identifica? Têm o dever de salvar todas as pessoas que a “Máquina” envia? Têm a autoridade de julgar e punir os criminosos que a “Máquina” revela? Têm a responsabilidade de proteger e respeitar a “Máquina”? Têm a liberdade de escolher o seu próprio destino?

Efetivamente, a série, ao abordar temas atuais e relevantes, convida o espectador a pensar e a questionar-se sobre estes assuntos, tão prementes na nossa sociedade. Além disso, esta história apresenta uma visão otimista e humanista, que valoriza a vida, a amizade, a lealdade, a coragem, a compaixão e a esperança. Com isto, ao misturar ação, suspense, drama, ficção científica e filosofia, oferece uma narrativa envolvente, personagens cativantes, cenas emocionantes, diálogos inteligentes e reflexões profundas.
Assim, “Person of Interest” merece ser vista, apreciada e discutida, pois é uma obra que não só entretém, mas que também educa e inspira.
Uma história sobre a importância de nunca deixarmos de lutar por nós próprios.
Pela beleza da sétima arte.
