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Porque A Arte Somos Nós

Do mundo corporativo predatório ao psiquismo mais demente. Remetendo a filmes sobre cobiças e poder nas Bolsas de Valores de Nova Iorque, dos quais “Wall Street” (1987) é o seu representante-mor; de Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese em “Shutter Island” (2010), fazendo-me ainda lembrar o livro “A Montanha Mágica“, de Thomas Mann. Este “A Cure For Wellness”, realizado por Gore Verbinski e com argumento de Justin Haythe, traz no seu elenco nomes como Dane DeHaan, Jason Isaacs, Mia Goth, Celia Imrie, Lisa Banes, Adrian Schiller e Harry Groener. As 2h27min deste suspense/fantasia deixam-nos com uma dúvida moral no final. A nacionalidade desta longa-metragem é dupla: Estados Unidos e Alemanha.

No início, o jovem executivo Lockart (muito bem conduzido por Dane DeHaan) vive uma vida para fora. Bem-sucedido, arrogante e vivendo sob pressão, é prontamente desmascarado numa reunião de chefia acerca da sua “contabilidade criativa”, por assim dizer. Ele sabe jogar o jogo, tem um trunfo na manga e rebate perguntando se todos ali não faziam parte dessa falcatrua. No que toca à sua permanência, Lockart é convocado a resgatar um executivo que está num hospital nos Alpes Suíços, pois este tem que assinar um documento importante para uma negociação exitosa.

O pequeno vilão vai a contragosto. Flashes apontam que ele tem uma relação fria com a mãe, apesar de amá-la muito. Parece que o miúdo se perdeu há muito, tendo-se transformado num homem frio e ganancioso.

Lockhart (Dane DeHaan)

O cenário da locação do hospital é esplêndido: nada mais do que o Castelo Hohenzollern, em Hechingen, Alemanha. A minha retina descansou assim deste mundo corporativo e cheio de pressão. Mergulhei na tela e repousei lá, nesta espécie de “Shutter Island”, só que muito mais belo. As internações são voluntárias, as diárias exorbitantes e os pacientes dopados, assemelhando-se a zombies. O proprietário do lugar é o Dr. Volmer (interpretado por Jason Isaacs) e acerca de algumas normas proibitivas ao intrépido executivo, tendemos a antagonizar entre ‘mocinho’ e vilão nesta relação.

Um detalhe passa despercebido: o doutor alerta que ali os hóspedes estavam em busca de si mesmos, cansados da sociedade enquanto tal, e que o remédio era mesmo o isolamento. Que todos eram felizes assim, que a medicação poderia ocasionar efeitos psiquiátricos colaterais e revelar assim a essência do interno. Certamente, devido ao facto de a sociedade atual ser avessa a normas, focando-se mais nos direitos do que nos deveres, sendo nós levados a antipatizarmos com uma instituição tão cheia de regras.

Uma personagem feminina intriga-nos: Hannah (interpretada por Mia Goth). Rapariga, crescerá do meio para o final da narrativa com o seu desabrochar numa bela mulher. Frágil e dependente, vive sob as asas de Dr. Volmer, numa relação paternal. O nosso protagonista com poucos escrúpulos encontra o executivo sénior que procurava, mas este está lesado e parece arrependido em ter pertencido ao abominável mundo dos negócios. Ali está em paz, e ao que tudo indica não pretende arredar pé da sua atual condição. O hospital é envolto em mistérios e, da minha interpretação, tudo o que irá derivar a partir daí é o mundo interior de Lockart, para lá de nebuloso.

Mia Goth (Hannah)

Este apaixona-se pela andorinha de asa quebrada Hannah, ficando nós a questionar se é lícito Lockart envolver-se com uma miúda. Mas castelo leva a tempos imemoriais, pois estes tempos representavam uniões de senhores com esposas de 12 anos e assim somos relativizados para estas questões, mais ainda a partir da perceção de que o Dr. Volmer quer ser mais do que um pai. Remetendo a eras passadas, entende que é o Super Homem (de Nietzsche) aludindo que normas e convenções são para os fracos, e desposa na verdade a sua filha num ritual macabro a ponto de acorrentar a pobre donzela.

Aí o suspense descamba para o terror, as provações do nosso anti-herói são insuportáveis, ao ponto de perder um dente da frente numa cirurgia a seco e ter que engolir enguias, e é aí que percebemos que a loucura atingiu o seu grau máximo. No ponto de fuga, com o devido resgaste da donzela, o final feliz fica em xeque: será que toda aquela viagem não se passou à guisa do conteúdo do excecional livro e filme “Fight Club“? Ou seja, na verdade, será que tudo o que aconteceu não é o componente existencial psicológico doentio de Lockart?

Tive uma experiência de debate com a minha esposa, que aludiu ao óbvio: a dicotomia mocinho-bandido, as práticas inescrupulosas do dono do hospital, que seda os internos para lhes roubar as fortunas e, quando eu aventei se todas aquelas ocorrências não haviam sido fruto da imaginação doentia de Lockart, ela reagiu afirmando que eu não tinha entendido o filme. Para o bem da convivência, e para não ser obrigado a dormir no sofá, capitulei afirmando que ela tinha razão, mas fico com as minhas convicções acerca deste aspeto. Pelo menos, tenho a oportunidade de registar esta minha opinião.

Ao fim ao cabo, “A Cure for Wellness” bem que nos exige discernimento e as paisagens são de tirar o fôlego!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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