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Porque A Arte Somos Nós

O livro “A Montanha Mágica” (Edição “Livros do Brasil” Lisboa, 749 p.) é a obra-prima do Prémio Nobel de Literatura Thomas Mann (1875-1955). Trata-se do melhor livro que li na vida e tentarei fazer jus à obra na minha descrição.

O engenheiro naval Hans Castorp sai de Hamburgo (Alemanha) para visitar o primo Joachin Ziemssen, tenente que está hospitalizado no Sanatório Internacional Berghof, em Davos, na Suíça. Pretende passar lá duas semanas. O narrador assim descreve Castorp, numa apresentação primeira: “… gostava de viver bem, e apesar da sua aparência anémica e refinada, agarrava-se com fervor e firmeza, tal como um lactante deliciado pelos seios da mãe, aos prazeres físicos que a vida lhe oferecia“.

Aqui irei adiantar o cerne do romance: o engenheiro que se pretendia instalar no sanatório por 15 dias, apenas para visitar o primo, fica sete anos. É que após uma consulta de rotina lá, fica a saber que está enfermo e que o ar da montanha lhe iria fazer bem. Thomas Mann é filósofo ao abordar a dualidade do tempo objetivo e subjetivo, permeando a narrativa com esses conflitos existenciais e uma percepção deste tempo mais a partir do eu dos personagens, menos referente aos aspectos cronológicos propriamente ditos.

Numa conversa com Joachin, o engenheiro pondera: “Cala-te! Hoje estou a pensar com muita lucidez. Que é o tempo, afinal? Queres dizer-me? Percebemos o espaço com os nossos sentidos, por meio da vista e do tacto. Muito bem! Mas que órgão possuímos para perceber o tempo? Podes responder-me a essa pergunta? Bem vês que não podes. Como é possível medir-se uma coisa da qual, no fundo, nada sabemos, nem sequer uma única das suas características? Dizemos: o tempo passa. Está bem, deixa-o passar. Mas para que o possamos medir… Espera um pouco!

Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e quem te garante que é assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e as nossas medidas, permite-me que o faça notar, não passam de convenções“.

Uma outra característica que percebemos na obra é que Castorp aceita de pronto a sua nova condição. Herdeiro de uma pequena fortuna, mas longe de ser rico, gostava do cigarro, da cerveja e de ouvir música, e tendo uma renda que lhe garantiria a estadia no sanatório de Davos, percebe que as suas relações com os outros enfermos se tornam mais sólidas do que quando estava na planície, ou seja, Hamburgo. E assim vai passando o tempo, com os pequenos dramas, os rituais médicos, o entra e sai de alguns enfermos e algumas cenas bastante existenciais, como as desinfecções dos quartos após o falecimento de alguns moribundos.

Vamos conhecer um pouco estes personagens do Berghof? O Dr. Krokowski é o responsável pelo primeiro diagnóstico, aos 35 anos tem como superior o Dr. Behrens. Clawdia Chauchat, a francesa de 28 anos, desperta a atenção e a corte de Castorp, mais à frente também de Wahsal, o pobre-diabo. Ela desdenha esses assédios, até devido ao facto de estar acompanhada do enigmático senhor holandês Pieter Peeperkon. Temos também personagens menores: Carolina Stohr, Leila Gerngross, Anton Karlovitch Ferge, Sr. Albin e outros. O sanatório não é uma prisão, é um hospital onde o indivíduo pode entrar e sair, desde que esteja recuperado.

Thomas Mann / Fred Stein Archive / Getty Images

Mas eis que surge o personagem que mais me encantou neste romance: o italiano Settembrini. Características não faltam: maçon, escritor, trocista, humanista, sempre pronto para uma boa polémica, etc. Fico me questionando: será que me percebi num espelho? O italiano trava acalorados diálogos com os primos Hans e Joachin e intenta ser o tutor dos dois, notadamente do primeiro. Aqui uma característica peculiar: o engenheiro nunca fora versado em assuntos metafísicos e filosóficos, e Settembrini esclarece-o acerca de vários temas, sempre com a sua língua ferina.

Uma das suas mais belas palestras diz respeito à literatura, cito: “Escrever bem já quase é pensar bem, e daí a agir bem não há muita distância. Toda a Civilização e todo o aperfeiçoamento moral derivam do espírito da literatura, que é a alma da dignidade humana e que é idêntico ao espírito da política. Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, compunha-se de sílabas familiares e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. O nome era: Civilização! E ao pronunciar esta palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha como quem faz um brinde“.

Até que se instala no hospital Naphta um homem muito feio e que é um religioso contumaz, um jesuíta. Cria-se entre ele e Settembrini uma rivalidade feroz, no campo da discussão, e isso sob a audiência dos dois primos e outros.

A vida vai passando: perde-se a noção do calendário, mal se sente as mudanças das estações e as pequenas atividades recreativas no lugar embalam a todos sob o manto da simplicidade: uma celebração de passagem de ano, uma noite de Carnaval, uma palestra regada a bebida e cigarros no auditório, sendo que o holandês é um bom degustador de coisas finas e o engenheiro naval, o nosso personagem principal, vai se regalando com os seus gostosos e pequenos vícios, mais uma dor de cotovelo pelo sonho distante chamado Clawdia.

Quando a história vai ficando arrastada e até verborrágica, inclusive com Joachin que exige alta, mas volta após breve período para continuar o tratamento, vindo a falecer, por mais dramas e desinfecções nos quartos advindo de falecimentos, sempre provoca risos a contenda dialética entre o italiano e o jesuíta. Settembrini não é flor que se cheire.

Esta é a impressão que tinha dele Naphta, aos olhos do narrador: “Que era, afinal, e que se propunha fazer a tal moralidade do sr. Settembrini? Achava-se ligada à vida e por isso não ia além do útil. Era, portanto, despida de heroísmo num grau deveras lamentável. Servia para chegar a ser velho, feliz, rico, sadio e nada mais. E essa mentalidade filisteia, baseada na razão e no trabalho, era para o sr. Settembrini uma ética! Quanto a ele, Naphta, tomava a liberdade de qualificá-la como uma concepção burguesmente mesquinha da vida“.

Já o italiano discorre assim sobre o adversário: “O sr. Naphta é um homem inteligente, o que é raro. Tem um temperamento discursivo, assim como eu. Que me condene quem quiser, mas aproveito a oportunidade de cruzar as lanças da ideia com um adversário de força igual. Não tenho mais ninguém, nem perto nem longe… Numa palavra, não nego que o visito e que ele me visita, que passeamos juntos. E discutimos. Discutimos encarniçadamente, quase todos os dias, mas confesso que o encanto das nossas relações reside precisamente na antinomia dos nossos pensamentos.

Tenho necessidade do atrito, as convicções não vivem, a não ser que tenham ocasião de lutar, e eu, por minha parte tenho convicções sólidas. Mas como poderiam os senhores afirmar o mesmo das vossas, o senhor, tenente, ou o senhor, engenheiro? Não estão armados para se defender contra as miragens intelectuais, correm o perigo de que essas subtilezas meio fanáticas, meio maliciosas, lhes prejudiquem o espírito e a alma.” A coisa chega a um ponto incontornável até que é proposto um duelo, sendo que o desfecho deste é surreal.

Como termina a história e as aventuras de Hans Castorp? Fica a dica para lerem o livro. Discorrendo sobre o tempo, o exemplar que tenho é muito caro. Adquirido num sebo, vejo a assinatura da primeira “proprietária”: Rosa Maria de Carvalho. Ela anotou o ano: 1968. A edição é com o português de Portugal. Portanto, este senhor livro que tenho em mãos está com 52 anos, com as páginas amareladas e o cheiro característico. Findei a sua leitura em 21 de abril de 2017. Lembro-me que no período de leitura, cheguei a ficar gripado e, fechando os olhos e tomando o sol da manhã, por vezes imaginava estar no sanatório de Davos.

Atualmente, o planeta acometido da Covid-19 percebe a dualidade do tempo: o nosso e o do vírus. Mas isso é tema para uma outra discussão…

Marcelo Pereira Rodrigues

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