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Porque A Arte Somos Nós

“Tonio Kröger” (Editora Abril Cultural, 1971, 85 páginas) é uma curta novela de Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica” (que não canso de afirmar, foi o melhor livro que li na vida). Tonio é o nome da personagem principal, um rapaz que nutre pelo amigo Hans um amor platónico, ao mesmo tempo ciumento e que parece não gostar da amizade deste com outros rapazes. Tonio tem alguns complexos, como o de ter o cabelo crespo e ser filho de uma latino-americana, o que deixa entrever dados biográficos, pois a mãe do Prémio Nobel da Literatura era brasileira. Se o Brasil ainda não venceu um Nobel da Literatura, pelo menos de forma indireta isso se deu.

Tonio também se engraça para o lado de Ingeborg Holm, uma loura muito bonita e aqui outros traços biográficos acerca da bissexualidade do autor. Enamorado contemplativo, fica cada vez mais ensimesmado e percebe tratar-se de um esteta, um poeta que parece querer sugar da vida tudo aquilo que ela tem para dar, mas que morre de preguiça.

O escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social alemão Thomas Mann

O enredo dá um salto e vamos acompanhar a visita do protagonista ao atelier de pintura da amiga Lisavieta Ivánovna em Munique. A conversação é fluida e parece haver intimidade entre os artistas, sendo que Tonio reclama de um certo enfado. E o que fazemos quando nos sentimos entediados? Viajamos. Ele comunica isso à pintora e almeja a Dinamarca, filosofando acerca do motivo de não desejar a Itália, cito:

— Meu Deus! deixe-me em paz com a Itália, Lisavieta! A minha indiferença pela Itália chega ao desprezo! Faz muito tempo que imaginei pertencer àquele lugar. Arte, não é? Céu azul veludoso, vinho quente e doce sensualidade… Em resumo, não gosto disso. Renuncio. Toda aquela bellezza me põe nervoso. Também não gosto daquela gente lá de baixo, terrivelmente animada, com o escuro olhar de animal. Estes romanos não têm consciência no olhar… Não, vou agora um pouco para a Dinamarca.

Mas antes terá que fazer uma parada na sua cidade natal, intentando visitar a sua casa de infância. Com surpresa e emoção, nota que a mesma foi transformada numa biblioteca municipal e fica a recordar passagens da sua infância naqueles cómodos. A polícia chega a pedir os seus documentos, que ele não traz consigo, mas logo é liberado para seguir viagem.

Em 1964, estreou uma adaptação cinematográfica da obra de Thomas Mann. Realizado por Rolf Thiele, “Tonio Kröger” tem no elenco nomes como os de Jean-Claude Brialy e Nadja Tiller

Coincidência das coincidências, o nosso herói percebe o enamoramento de Inge e Hans, e sob a proteção de uma identidade adulta, não se dá a conhecer a estes amores da infância. Cada vez mais reservado, olha com distanciamento as pessoas e parece estar sempre mergulhado em si mesmo. A arte é o ingrediente que se consome existencialmente e isso nutre o nosso amargurado pensador, bem classificado pela amiga pintora de que ele se tratava de um burguês, e vaticinado assim, não existem viagens e ponderações que o livrem deste epíteto.

Uma leitura ao mesmo tempo fluida e intensa, esta é uma das primeiras novelas do autor publicadas, isto em 1902, e as diretrizes que fizeram com que se transformasse num escritor de grande vulto, impregnando na nossa consciência e coração vozes e maneiras que nos acompanham para todo o sempre. Uma leitura agradável e artística!

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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