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Porque A Arte Somos Nós

“Essa é uma característica do nosso cérebro, Nugget. Quanto mais dolorosa for a lembrança, tanto mais depressa perdemos a chave para abri-la. É saudável e certo esquecer coisas tão arrasadoras. Por mais que o tentemos, nunca poderemos conjurar uma experiência, seja ela qual for, com a sua agudeza original. Não devemos nem mesmo tentar, embora isso seja próprio da natureza humana. Simplesmente não tente, nem com muita força nem com muita frequência… pois é assim que poderá meter-se numa enrascada. Esqueça a dor. Ela se foi! Não é isso o mais importante?


“Uma Obsessão Indecente”

“Uma Obsessão Indecente” (Editora Círculo do Livro, 328 páginas), romance da australiana Colleen McCullough (1937-2015) publicado em 1981, é ambientado numa clínica para alienados nos estertores da II Guerra Mundial. Dividido em sete partes, com breves capítulos, a história apresenta-nos a irmã enfermeira Honour Langtry, na casa dos 30 anos, pertencendo à enfermaria X, num sítio que não deixa de ter os seus encantos, tendo uma praia ao fundo. Esta clínica é para oficiais do Exército que tiveram problemas psicológicos e logo somos apresentados a cinco deles com as suas idiossincrasias: Neil Parkinson ressente-se de não ter tido o talento necessário para se tornar um pintor profissional.

Filho único do milionário Longland, tendo inclusive passado uma temporada na Grécia, buscando inspirações, percebeu que o seu trabalho não passaria nunca por um crivo mais sério. A guerra colheu-o e agora ele está ali, fazendo a corte à irmã enfermeira, mas sendo solenemente rechaçado por esta. Percebe-se logo de caras que na clínica a internação não é forçada, lembrando-nos um pouco Schatzalp, descrito no clássico de Thomas Mann (1875-1955), “A Montanha Mágica“. Se não dá para consumar o namoro, ao menos ambos são amigos.

Luce Daggett é um sujeito inconveniente que não perde a oportunidade de ser desagradável. Na vida civil fora ator, e ainda sonha com o regresso aos palcos para se reafirmar enquanto tal. As suas investidas na irmã Langtry são grosseiras e ele é um espírito atormentado que investe sobre todos. Matt é cego, embora haja a suspeita de uma cegueira psicológica. Nugget é hipocondríaco e Benedict é misógino, com crise de consciência por ter matado durante a guerra, inclusive velhos e miúdos. Se este é o seu ponto fraco, Luce não se esquecerá de cutucá-lo sempre.

A romancista australiana Colleen McCullough

Este corpo indistinto e problemático conversa na hora do chá noturno, sob a supervisão da irmã que consegue controlar os egos e desavenças. O elemento que vem balançar essa relação convencional é Michael Wilson. Aliás, o livro inicia-se com a sua chegada, com uma mochila na mão e alguns bons livros de romances de excelentes autores, tais Steinbeck, Faulkner e Hemingway.

Sargento que surtou ao quase matar um oficial, tem na sua ficha a suspeita de ser homossexual, pois defendera com unhas e dentes o amigo Collins no batalhão a que servia. Ele logo se mostra amável e percebemos que o motivo do título se justificará pela relação dele com a irmã. Seria um romance água com açúcar, com passagens tórridas de envolvimento? Vejamos.

O novato logo se enturma, ajudando nas tarefas domésticas e servindo os companheiros na hora do chá e refeições. Diplomata, tenta evitar conflitos o tempo inteiro e é o único que parece ter paciência com Luce. Este investe contra ele, com proposta homossexual e é rechaçado. Quando a irmã o inquire com rudeza, perguntando na verdade qual era a dele, ele se apodera e esclarece que o que importava eram as relações de poder.

Ele era hetero. Ele era homo. Ele estava na vida para o que der e vier. Um autêntico soldado dionisíaco. Um anticlímax quando a protagonista se depara com uma cena na despensa, com Luce segurando o braço de Michael, com intenções lascivas? Afinal, Michael era ou não era homossexual?

A parte água com açúcar da novela apresenta-se com a tórrida cena de amor de Langtry com Michael. Forte, suado e intenso. Mas na mesma noite do amor um crime acontece na casa-de-banho e Luce é “suicidado”. Se o carpe diem é louvável, as culpas recairão novamente sobre os ombros de Michael, que não estava onde devia para prevenir este trágico desfecho. Mais uma vez admoestada pelo Coronel Barbicacho (apelido), relação que era conduzida a frases desagradáveis, a irmã sabe que também foi responsável por não prever este suicídio.

Mas a guerra está no fim e logo todos retornarão às suas vidas civis. O alojamento está sendo desmontado e percebe-se que a irmã estava tão envolvida com o sítio que não se preparou para o retorno à vida civil. Apegada por demais aos seus amigos oficiais problemáticos, vê-se refutada pelo amor de uma noite e descarta a proposta de Neil para um enlace a seguir.

Colleen McCullough

Herói de romance bem típico, Michael só se deixa envolver pelo seu senso de responsabilidade e de dever. Abrigará Ben sob as suas asas e este será o segredo da trama. Faz ver isso à enfermeira, esclarecendo que ambos pertenciam a mundos diferentes e que quando tudo acabasse ele voltaria à sua fazenda e ajudaria Ben.

No último capítulo, focado inteiramente na vida civil de Langtry e trabalhando num desprestigiado hospital para alienados (ser enfermeira neste tipo de hospital dava pouco status) ela receberá a visita da colega de outrora, a irmã Dawkin, que veio inclusive internar o pai no hospital. Noticia à amiga os destinos dos seus oficiais e ficamos quedados com o desfecho o qual, para manter o suspense e não atrapalhar o prazer da leitura, recomendo a íntegra.

Uma novela com temática alusiva ao senso de dever, para além da superfície observamos certos tipos de caráter que nos inspiram e modelam. O que à primeira vista poderia ter sido entendido como um romance lascivo, o certo é que o título é sensacionalista de forma a esconder uma linda história de amor e dever.

Sua autora, mundialmente famosa pela obra “Pássaros Feridos” (1977), lutou muito até obter reconhecimento mundial pelo seu trabalho. Contextualizando à época, quando o papel da mulher era bem definido, ela ousou desafiar as regras e antes de dirigir boas histórias, chegou a conduzir autocarros. Foi bibliotecária, viu frustrado o sonho de entrar para uma faculdade de Medicina (o pai opôs-se) e quando da publicação deste “Uma Obsessão Indecente” em 1981, já era reconhecida como a grande escritora que angariou merecidamente os píncaros. Dela li apenas este livro, mas futuramente estarei aberto a outros. A sua prosa ágil e direta convida-nos a isso…

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 3 out of 4.

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