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Porque A Arte Somos Nós

Recomendo o filme “Amor” (“Amour” em francês) para todas as pessoas sensíveis e amorosas. Dirigido e escrito pelo austríaco Michael Haneke, estrelado por Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert, foi merecidamente o vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012. Mas advirto: o filme é um violentíssimo “soco no estômago”.

A história narra a vida de um casal de aposentados que vai ficando senil com o passar dos dias. A locação do filme é quase 100% feita num apartamento amplo em Paris, com uma biblioteca bastante sortida, mas aos poucos a morbidez vai se mostrando no trato cuidadoso do casal. Apenas em raros momentos a porta se abre para ventilar o ar da vida em contraste com o cheiro de morte e decadência que vai tomando conta do casal.

Este filme (tive que interromper a sessão por duas vezes, pois confesso que me emocionei demais num primeiro momento) serve de mote para um problema muito corriqueiro: a senilidade e o fim da vida. Aqui, tomo o ponto de vista da filha que por momentos se desespera com a situação deprimente pela qual os seus pais estão passar. Daí o soco no estômago. Geralmente, para quem está de fora, é fácil determinar decisões e conselhos para os outros.

Mesmo brevemente, vivi este drama com a minha finada mãe, e lembro-me até hoje de sua partida, numa semana em que teve que usar o fraldão. Aquilo era muito humilhante para ela. Com a sua sabedoria incrível de vida, pediu-me para que eu fosse embora do hospital na noite em que faleceu. Hoje entendo melhor a sua situação e a respeito muito por isso.

Isabelle Huppert
Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva

Mas convenhamos: o desgaste causado por pessoas no final da vida não são culpa delas. E esse é um desafio para todos nós aprendermos. Temos que ser estóicos, pacientes, carinhosos e compreensivos. Já auxiliei familiares nessas situações difíceis e sei da dor que impregna vidas e ambientes.

Uma das grandes questões que abordo é acerca do prolongamento da vida, farmacologicamente falando, mas atento para uma questão muito mais importante: e a questão da qualidade de vida? Pois sinceramente, eu, Marcelo, não almejo viver a totalidade dos anos e ser um contumaz consumidor de cápsulas de laboratórios. Sinceramente, pela minha natureza solitária e de elefante, quando sentir que estou sobrando, saio do bando. Quando não puder mais viajar, caminhar pela praia, ir a um shopping, frequentar cinema, frequentar bons restaurantes, visitar museus, ler e escrever, sinto muito dizer, mas estarei morto em vida.

Mas entendo e sei que a eutanásia é uma questão complexa e que envolve muitas outras questões. O tema é controverso. Não a defendo, exceto quando a dor física do paciente for insuportável e quando a respiração é apenas artificial, mas enquanto isso não se dá, sugiro a paciência para lidar com essas questões. Respeito muito os meus amigos que passam por essas situações e sei da dor e desamparo a que são acometidos.

A vida, esse carrossel de acasos e vicissitudes, por vezes nos golpeia com potentes socos no estômago, uma mão mais pesada que a de um Mike Tyson. A nós, só cabe assimilar o golpe. Assistindo a “Amour”, tem-se uma ideia do existencialismo em sua aparência mais visceral.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

One thought on ““Amour”: O direito à eutanásia

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