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O livro “Michel Foucault: Entrevistas” (Editora Graal, 2006, 107 páginas) é composto por três entrevistas concedidas por Michel Foucault (1926-1984) a Roger Pol-Droit. A primeira é sobre o livro de Foucault, o clássico “Vigiar e Punir“, realizada em 1975. Nesta ele esclarece alguns pontos obscuros. Uma das mais interessantes polémicas diz respeito ao que ele denominou de “gestão dos ilegalismos”. A respeito das drogas, respondeu, cito:

As leis sobre as drogas. Desde os acordos Estados Unidos – Turquia sobre as bases militares (ligados, em parte, à autorização para o cultivo do ópio) até ao esquadrinhamento policial da rua Saint-André-des-Arts, o tráfico de drogas desdobra-se numa espécie de tabuleiro de xadrez, com casas toleradas, casas permitidas a uns, proibidas a outros. Somente os pequenos peões são colocados e mantidos nas casas perigosas. Para os grandes lucros, a via está livre.

Atualíssimo, não?

Capa do livro “Michel Foucault: Entrevistas”

A segunda entrevista versa sobre literatura, onde Foucault debocha do poder universitário, ao mesmo tempo que enxerga a literatura acusando-a de se enclausurar cada vez mais nos muros universitários. Numa das passagens, descreve os seus próprios livros como apenas pequenos pacotes de explosivos e esclarece a função do escritor, cito:

A partir do momento em que você escreve, mesmo que seja com o seu nome civil, começa a funcionar como alguém que é um pouco outro, um ‘escritor’. Estabelece, para si mesmo, continuidades e um nível de coerência que não são exatamente da sua vida real. Um livro seu remete a outro livro seu, uma declaração sua remete a um gesto público seu… Tudo isto acaba por constituir uma espécie de neoidentidade, que não é idêntica à sua identidade civil, nem mesmo à sua identidade social. Aliás, isso é bem sabido, uma vez que se quer preservar a vida dita privada.

A terceira parte da entrevista é quase pessoal, relacionando autor e obra. Ele solta uma frase de efeito: “eu não sou daquele tipo de vigia que afirma ser sempre o primeiro a ter visto o dia clarear“. E não é mesmo. Quando analisa o poder, despoja-se de qualquer pretensão que viesse a dar a entender que ele seria o porta-voz de uma geração. Assim como Gilles Deleuze (1925-1995), Foucault quer fazer uma filosofia prática, do dia-a-dia, e derrubar os dogmas académicos que povoam o cérebro da ‘intelectália’ francesa. Para tal, acaba por se indispor com Jean-Paul Sartre (1905-1980), é provocado, provoca de volta, enfim, faz filosofia.

A importância deste pequeno livro de entrevistas é uma apresentação a Michel Foucault. Roger Pol-Droit, filósofo que ganhou o Prémio Essai France Television em 2001 pelo livro “101 Expériences de Philosophic Quotidienne“, soube conduzir bem a conversa.

O filósofo francês Roger-Pol Droit

Frases de Michel Foucault:

Eu acredito, seguindo Nietzsche, que a verdade deva ser compreendida em termos de guerra. A verdade da verdade é a guerra.

E não posso deixar de rebater estas graves interrogações sobre a justificativa do fundamento da pequena questão vilã: ‘Quem é você, onde nasceu? A que família pertence?’ Ou ainda: ‘Qual é a sua profissão? Como é que você pode ser classificado? Onde deve fazer seu serviço militar?’

Tenho prazer em escrever, descubro pequenos truques, mas não tenho prazer de ter esse prazer.

Eu pensei em escrever uma história que nunca apareceria, a dos próprios loucos. O que é ser louco? Quem o decide? A partir de quando? Em nome de quem? Esta é a primeira resposta possível.

Não sou a favor da destruição, mas sou a favor de que se possa passar, de que se possa avançar, de que se possa fazer cair os muros.

O meu discurso é, evidentemente, um discurso de intelectual e, como tal, opera nas redes do poder em funcionamento. Contudo, um livro é feito para servir a usos não definidos por aquele que o escreveu. Quantos mais usos novos houverem, possíveis; imprevistos, mais eu ficarei contente.

Todos os meus livros, seja “História da loucura” seja outro, podem ser pequenas caixas de ferramentas. Se as pessoas querem mesmo abri-las, servirem-se de tal frase, tal ideia, tal análise como de uma chave de fendas, ou uma chave inglesa, para produzir um curto-circuito, desqualificar, quebrar os sistemas de poder, inclusive eventualmente, os próprios sistemas de que os meus livros resultaram… pois bem, tanto melhor!

Não, não estou onde vocês me espiam, mas aqui de onde eu os olho rindo.

Marcelo Pereira Rodrigues

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