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Porque A Arte Somos Nós

Estive pensando um pouco além das preocupações diárias (que já são muitas) sobre o que ainda nos pode surpreender. Terminei à pouco a leitura de um livro, “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news“, onde opina o jornalista britânico Matthew D’Ancona (2018) acerca das ondas políticas que impactam a contemporaneidade através dos fatos subjetivados e distorcidos. Ao tomar um gole de café amargo após terminar a última página do livro, perguntei-me em silêncio: o que acontecerá na “era pós-pandemia”?

O prefixo “pós-” geralmente indica um tempo posterior de superação de acontecimentos importantes, revelando características humanas e sociais anteriormente inferiores ou ultrapassadas. “Pós-” traz uma ideia de superação, desenvolvimento… será que vamos presenciar um “pós-pandemia” ou um “novo normal”? Para clarear um pouco esta questão (que agora também é sua, já que você se propôs a esta leitura) gostaria de conversar com Jean-Paul Sartre. Ou melhor: com o Sr. Antoine Roquentin.

Em um dos seus romances mais famosos, “A Náusea“, Sartre narra com riqueza de detalhes existenciais os empreendimentos de Antoine Roquentin, um burguês insatisfeito com os rumos de sua vida, que se muda para uma cidade aparentemente normal e sem muitas novidades: Bouville. O autor, Sartre, alerta para um detalhe: Bouville é uma cidade fictícia; porém isso não representa ser ela uma cidade irreal. O Sr. Roquentin se estabelece em um quarto de uma pensão da cidade, a fim de construir a biografia de um honroso marquês de Bouville.

“A Náusea”, Jean-Paul Sartre

Conhecendo a pensão e sua camareira, a cafeteria da esquina e a biblioteca, o bibliotecário e seus devaneios, os cidadãos e as estátuas da cidade, o Sr. Roquentin vai enchendo-se de um misterioso e abrupto tédio, uma aversão às coisas e pessoas, que ele mesmo chamará de “náusea”. Parecia que ela estava nas pessoas, na cidade, nas rotinas maçantes, por entre as páginas dos livros, nas palavras e expressões de cada um que encontrava. Amargo engano. A náusea estava nele mesmo. Já fazia parte dele havia muito tempo.

O Sr. Roquentin encontra uma ligeira fuga do seu sentimento cada vez mais intenso de náusea apenas quando está na cafeteria de Bouville. Ainda assim, lá, num surto existencial enquanto toma seu café cheiroso e reconfortante, ele avista um casal enamorado e se pergunta silenciosamente: “Agora se amam. Mas e depois?”

Sartre, não querendo escrever uma autobiografia (por considerar esta apenas uma compilação de fatos fragmentados sem nenhum sentido) escreve “A Náusea” como um romance. Um romance sobre ele mesmo, sobre seus sentimentos, sobre sua existência na figura esbelta do escritor Antoine Roquentin. Não imaginava o Sr. Roquentin que, nas tentativas de escrever sobre outrem escreveria sobre si mesmo. Talvez Sartre sabia muito bem que no seu romance entreveríamos a sua própria subjetividade. Mas ele não sabia que na sua subjetividade estaria escondida também a nossa.

Este é o mais maravilhoso conceito que inventou a modernidade: o da companhia literária. Cada vez que temos nas mãos um livro (seja físico ou digital) nos sentimos acompanhados. Quanto mais íntima for a conexão entre o sujeito e a literatura escolhida, mais mística e pujante será a experiência sentida. Quem se encontra no abismo de um bom romance, de um conto, de uma ficção literária ou de qualquer outro género preferido, menos solitário estará durante a sua existência, independente se estiver em Bouville, na França, no Brasil, em Portugal ou em qualquer recanto.

Jean-Paul Sartre

“A Náusea”, à moda grega, faz um elogio à subjetividade, destronando a vida meticulosamente perfeita, estática e mensurável e emancipando a existência sempre potencialmente nova, livre e surpreendente. Do meio para o fim do romance, um insight faz o Sr. Roquentin perceber que sua náusea resulta da inexpressividade da sua existência, até então tutelada por motivações externas a si mesmo: vivia para tomar seu café, escrever seu livro, cortejar alguma donzela e cochilar um pouco (parece um pouco da vida contemporânea: beber alguma coisa, postar algo, rolar alguns perfis sedutores e dormir).

O Sr. Roquentin percebe que a busca dos motivos essenciais das coisas o fazia degenerar-se numa conformidade aparente. Antes de enquadrar-se na essência de uma vida modelada e cronometrada, o segredo da superação de si estava no abandono autónomo à liberdade existencial. Sendo uma existência livre, se torna duramente marcada pela angústia da escolha; estando marcada pela escolha faz surgir tremendo pavor; sendo pavorosa é desafiadoramente difícil; sendo difícil transforma-se em fascinante empenho.

Tais percepções lançadas por Sartre, através do Sr. Roquentin, hoje nos alcançam. Aconteceram em Bouville, por volta da década de 1930; hoje, não sendo este um modelo histórico, mas contextual e paradigmático, reflete as náuseas de 2020. A partir da constatação da necessidade de uma existência personalizada e altamente responsabilizadora, Sartre nos relembra da importância fundamental de uma subjetividade conscientemente crítica.

2020.

Num tempo de incertezas e transição, nunca foi tão importante o valor da subjetividade. No isolamento social, especialmente durante o tempo mais forte da pandemia do Covid-19, fomos colocados violentamente frente-a-frente com nós mesmos e com as nossas escolhas. Parece que não estávamos acostumados a enxergar nossa própria vida. Tivemos a impressão de não reconhecer nossa casa, nosso quintal, nosso jardim, nossa sacada e até nosso gato. De repente um mundo diferente surgiu diante dos nossos olhos; um mundo que sempre esteve ali.

E tivemos que nos acostumar connosco e nossas escolhas. O que significa a minha subjetividade? Por que estou desse modo? Por que gosto dessa camiseta? Por que prefiro tomar café nesta xícara? Na verdade, ainda estamos redescobrindo o sentido que demos àquela sombra que sempre andou connosco, a sombra indecifrável e constante de nós mesmos. Nunca foi tão importante, como agora, o reconhecimento de uma subjetividade. A existência e a subjetividade: o criador e a sua criatura.

Por enquanto estamos nos acostumando. Mas e depois? E quando nossa subjetividade puder retornar mais livremente a andar pelas ruas, a fazer compras, a transitar pelos mesmos corredores da universidade ou da empresa? E depois? O que esperar da “era pós-pandemia”? (se é que haverá esse “pós-” como imaginamos). Que novidades se condensam nesse futuro bem próximo?

Ao aprender a redescobrir a nossa subjetividade, tomara que não voltemos a esquecê-la. Talvez assim as transições façam mais sentido que as rotinas e as rupturas tragam mais vida que as (des)continuidades. Num tempo de “novo normal” é imprescindível o reencontro com a velha subjetividade, por vezes tão subestimada.

Para o ‘novo normal’, na “pós-pandemia”, sugiro-lhe um café com Sartre, em Bouville.

João Eduardo Lamim

João Eduardo Lamim

João Eduardo Lamim é Mestrando em Educação e Tecnologias Digitais pela Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE, Joinville/SC – Brasil); formado em Filosofia; pesquisador nas áreas de Educação e Formação Docente, Cultura Digital, Filosofia e Contemporaneidade. (http://lattes.cnpq.br/8774093045561005)

3 thoughts on “O que esperar na Pós-Pandemia? Um café com Sartre em Bouville

  1. marcelopereirarodrigues diz:

    O artigo é excelente! Parabéns! Meus comentários: estranho mundo esse, em que a modernidade vira pós. Pós de que? Dilema filosófico. No “A Náusea”, Sartre só revela o sentido da permanência no momento em que está ouvindo uma canção em um café. No momento em que pede para repetir a canção. No mais, tudo é náusea mesmo: os objetos, as pessoas etc. Sobre a pós pandemia, penso que as pessoas sairão dela como entraram: desiludidas e promovendo os seus respectivos status nas redes sociais. Quando nos vemos no espelho, às vezes não gostamos do que vemos. Parabéns pelo texto sobre um dos meus livros preferidos!

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