OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Antes mesmo de preparar o café para o esposo e seus dois filhos, Deborah ligou o computador e acessou o Facebook. As bolinhas vermelhas das atualizações estavam concorridas: seis mensagens, dez solicitações de amizade e trinta ocorrências que veria a seguir. Voltou a se ocupar do café, fazendo torradas, suco de laranja, colocando na mesa geleias, manteiga e abacaxi. O marido folheava um jornal do dia anterior; seus filhos, já portando mochilas, sentaram-se ruidosamente e passaram a brigar entre si, sendo contidos pela impaciência do pai e pelo olhar severo da mãe. Tinham 15 e 13 anos, respectivamente. O marido perguntou:

— Amor, como foi o lançamento ontem?

— Foi tudo bem, Fred. O cara é um filósofo que fala umas coisas muito interessantes.

— Tipo auto-ajuda?

— Não sei definir bem, parece que não, fala algumas coisas que incomodam um pouco. Mas foi legal. Fiquei amiga de uma mulher que chora até hoje a perda da mãe. O nome dela é Andreia, coitada.

Frederico refletiu acerca do ocorrido. Sua esposa já era o próprio Muro das Lamentações. Ter arranjado uma amiga com mais lamúrias faria tudo parecer um calvário de lágrimas. Despistou.

— A mãe dela morreu há muito tempo?

— Ela me falou que foi há uns oito anos, acho.

— E chora até hoje?

— Remorsos, Fred, remorsos.

— Ela fez algo de tão grave assim?

— Ela simplesmente sente remorsos. E chora. E sente remorsos. E chora novamente. Chorou umas duas vezes durante o evento.

Fred tentou imaginar a cena. O constrangimento dos demais presentes. Bebeu o café, apressou os meninos e despediu-se de Deborah com um beijo na testa. Saíram. A empregada chegaria dali a pouco, então Deborah teve tempo para verificar a rede social. Clicando na bolinha vermelha da atualização, viu de relance um vídeo que havia sido marcado no dia anterior. Como tinha mais de 2500 amigos virtuais, não imaginou que Luísa Gates era um desses contatos. Surpresa, viu-se no vídeo e ficou com muita raiva do seu sucesso não desejado naquele momento. É que nos comentários havia muitos escritos maldosos, ridicularizando o show de lamentações da portadora de câncer. “Como as pessoas podem ser tão desumanas?”. Indignada, passou a escrever apressadamente e, aliando pressa e raiva, nem pensou nas concordâncias nominais e verbais; apelava apenas para o senso humanitário das pessoas e afirmava ser uma batalhadora e guerreira que estava travando e vencendo uma luta contra um adversário capacitado. Escreveu, bateu o enter com raiva e publicou. Continuou chocada com os compartilhamentos, os comentários maldosos e arrefeceu o espírito com os comentários elogiosos à sua postura. Mandou mensagem para Luísa, interpelando-a pelo fato de ter publicado o vídeo sem sua permissão. Rapidamente, Luísa, de forma desaforada, respondeu que filmou um evento público e sugeriu que ela melhorasse a performance. Mais algumas trocas de farpas via mensagem e Deborah quase ficou propensa a excluir da sua lista de amigos aquela pentelha super-conectada. Resistiu.

Atendeu a campainha e fez entrar a empregada, que a viu chorando. Constrangida, tratou de dar Bom Dia e arrumar a mesa do café, lavando as louças. Deborah atendeu o celular e Diego, um de seus filhos, berrou:

— Mãe! Que merda é essa de vídeo com uma fala sua sobre a luta contra o câncer?

— O vídeo é o que é, como pode observar.

— E precisa me fazer ser ridicularizado na escola pelos meus companheiros? Se zoassem a minha cara, pura e simplesmente, tudo bem. Mas o que não aguento são os olhares disfarçados e sorrisinhos cretinos em minha direção. Mãe, pelo amor de Deus, não precisa se expor tanto.

Deborah chorou mais, gritou, afirmando ser uma incompreendida e que as pessoas mais próximas não lhe davam o apoio necessário. Desligou o telefone e passou a rebater detratores, escrever compulsivamente e, num gesto repentino, pediu à empregada para que tirasse uma foto sua sem lenço e a seguir trocou a sua foto de perfil. Muitos likes instantâneos, mas muitos comentários desprezíveis e ofensivos: Ronaldinho, Kojac, Ogro, e mais e mais grosseria. Rebateu todas as ofensas, indignou-se a ponto de receber meia hora mais tarde um telefonema do esposo pedindo pelo amor de Deus que parasse de escrever asneiras no Facebook. Já estava sendo ridicularizado no escritório de advocacia em que trabalhava. Brigaram por telefone, e Deborah desligou chorando, mais uma vez. Ninguém a compreendia. Infeliz Luísa que a expôs dessa forma. Desligou o computador. O estrago já estava feito e fez uma auto-análise de sua vida como um todo. Ressentimento. Tudo se resumia a isso. Ressentimento. Sentimentos que não foram expressos e ditos. Sempre o silêncio, sempre as dores no peito e aquela sensação de algo entalado na garganta. Quando criança e adolescente, chorava em silêncio. E o que isso lhe reservara? Um câncer! Sua carne sendo carcomida por um inimigo implacável! Por que não chutou o balde antes? Por que aceitou tudo calada? Represou sentimentos. Abafada. Constrangida. Sofrida. Calada. E agora o resultado disso tudo era o rombo da represa, sua auto-piedade a expusera a essa condição humilhante. “Como as pessoas podem ser tão más!”, ponderou.

Precisava fazer algo, pensar calmamente sobre os próximos passos e relembrou a causa daquilo tudo: ter ido ao lançamento na noite anterior. Pensou no título do livro de Gregório e arrependeu-se de não o ter adquirido. “40 reais era um preço caro para um livro”, mas se lembrava de trechos do título no banner: Provocações, Pensador Atualizado, um tipo de coisa assim. Tinha o telefone de Gregório. Ligou. Caixa Postal. Deixou recado.

Por volta do meio-dia, o professor retornou:

— Alô, Boa Tarde! Aqui é Gregório, ligaram-me desse número e eu…

— Ainda bem que você retornou. Sou a Deborah, da noite de ontem.

— Deborah, Deborah – Gregório tentou se lembrar, pois fizera uma associação mental entre a mulher chorosa pela perda da mãe e a mulher com lenço na cabeça.

— Deborah, a que está enfrentando uma batalha de saúde.

— Ah sim. Tudo bem, Deborah?

— Tudo péssimo!

— O que ocorreu?

— Fui vítima de um vídeo feito na noite de ontem no lançamento. Aquela menina irritante que estava filmando e postando tudo.

— Sim, sei. Mas o que especificamente aconteceu?

Deborah relatou o caso, tim tim por tim TIM, e seu interlocutor se perguntou primeiramente o que ele tinha a ver com aquilo tudo. Resignou-se e entendeu que Deborah estava a fim de desabafar. Foi solícito e a ouviu. Quando, enfim, pôde interrompê-la, fê-la entender que a Internet era um mundo sem regras, que ele mesmo havia sido vítima de ataques por conta de uma coluna mal compreendida que havia escrito, que o lance era não colocar mais lenha na fogueira e, apesar de não ser guru de auto-ajuda, reforçou o básico, atentando para a auto-estima da chorosa.

— Mas você foi vítima como?

— De um artigo bobo que escrevi sobre as conversas idiotas em um ponto de ônibus.

— Como assim?

— Bem, criei um texto fictício, de mentirinha, sobre pessoas que, ao invés de lerem jornais, revistas ou livros em um ponto de ônibus, ficam conversando sobre coisas alheias e fúteis, noticiário de futebol etc. Acho que errei na mão. Tentei ser cómico. Fui taxado de elitista.

— E o que você fez?

— Nada. Fizeram comigo. Criaram uma página para me criticarem.

— E falaram o quê?

— Não sei.

— Não sabe, como?

— Não li as postagens. Quis me preservar.

— Espera aí! Então as pessoas falando mal de você e você nem aí?

— Isso mesmo.

— Não ficou curioso?

— Pra quê?

— Para saber das ofensas e xingamentos.

— Nem um pouco. Já tinha escrito o texto. Consegui meu objetivo. Mas, claro, realmente senti depois que fui bastante sarcástico.

— E ficou tudo por isso mesmo?

— Sim. Apenas respondi às pessoas que me interpelaram pelo e-mail que fica abaixo da minha coluna no jornal. Foram educados. Pude me expor. E até me desculpar.

— E te xingaram de quê?

— Pelo que ouvi dizer, de veado, viu só como eles são preconceituosos? De elitista, de snobe, o que vem a ser o mesmo, de europeu paraguaio, de um montão de coisas. E alguns até me sugeriram que eu me mudasse para a França.

— E isso não te incomodou? As críticas…

— Nem um pouco. Como filósofo, tento exercer a minha paciência estoica e, aliás…

— Estóico? O que é isso?

— Estóico é uma escola filosófica que existiu na Grécia Antiga e que pregava o comedimento, a moderação, sofrer as coisas com paciência, esse tipo de coisa.

— Ah, sei.

— Então, Deborah, o lance é ignorar mesmo. Não dá para debater com a massa.

— Mas não acredito que você não fez nada…

Pensando bem, Gregório fez. Lembrou-se disso e remeteu a um artigo que havia escrito intitulado “Os Idiotas da Internet”. Deborah se interessou, pediu para ler e Gregório ficou de enviar, quando chegasse a casa. A conversa amainou o espírito de Deborah. Sua empregada estranhara um pouco a falta de lenço na cabeça e aquela careca lustrosa. Dali a pouco chegaram seus dois filhos, Diego fez um charme e foi direto para o quarto, revoltado. Fernando comeu silenciosamente e estranhou a falta de lenço na cabeça da mãe. A empregada sentou-se e comeu junto. Deborah mudara o hábito toda vez que Fred não estava lá. Com Frederico em casa, Luzia ficava constrangida e mal mal o olhava.

Após chegar a casa, Gregório almoçou. Ligou o computador, buscou nos seus arquivos a crónica prometida e remeteu:

Os Idiotas da Internet

Gregório Mendes (GM)

Publiquei este post no meu Facebook, no dia 9 de Junho. Cito: “Grande verdade: Pessoas competentes têm canais para se expressarem. São merecidamente definidas como ‘formadores de opinião’. Estudam, leem e se formaram para tal. Em contrapartida, qualquer imbecil sem instrução (e sem credibilidade alguma) posta bobagens nas redes sociais e não sabe nem concordar um verbo. Chamo a estes de ‘os idiotas da internet’, os famigerados arautos da ‘teoria de conspirações’. Indico aos meus amigos observarem sempre a fonte. Não percam tempo com idiotas desqualificados!”. A repercussão está toda lá. Confiram!

Claro que não sou idiota a ponto de demonizar a rede e as facilidades para a divulgação do nosso trabalho. Mas irei aludir aqui a um tipinho bem característico de usuário que não soma nada ao processo e traz apenas desinformação, intriga e confusão, além do famigerado ativismo via Facebook. Quando o idiota é apenas um ego narcísico que posta fotos do seu café da manhã e troca sua foto de perfil cinco vezes ao dia, bem, é um mal menor. Mas vamos a alguns casos engraçados e hipócritas: a tradicional livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro, deu o grito e declarou que irá fechar as suas portas, pois as vendas de livros físicos caíram muito e não está mais viável manter o estabelecimento. Foi a deixa para que ocorresse um ativismo para que a livraria não fechasse. Milhares de pessoas curtiram, compartilharam e opinaram. Elementar, caro Watson: ao invés de curtirem, deveriam era comprar um livro físico na livraria e assim, deste modo, o estabelecimento teria um lucro que tornaria viável o seu funcionamento. Claro que esse ativismo via Facebook é frouxo, vazio e fútil. Se vale para o caso da livraria, vale para defensores de animais (alguns que mais aparecem em detrimento aos próprios animais, conseguindo inclusive um cargo no poder público e saindo em vantagem), debates acalorados com coisas comezinhas de uma cidade interiorana e religiosos que não devem nada ao Talebã em questão de racismo e intolerância e o mal maior que é o português ruim. “Sepulcros caiados” na expressão de Jesus de Nazaré.

Agora há o tipinho de usuário médio infeliz que é aquele machão que vocifera as suas verdades nas redes teclando como se usasse uma metralhadora. São dignos de dó, pois se inserem naquela expressão: “De longe ruge como leão, de perto mia como gatinho”. Como não poderia deixar de ser, amigos me alertaram para uma campanha contra a minha humilde pessoa na Internet. Verdadeiramente, não me importei. Não cheguei a ler os insultos (como escritor, fico receoso de desaprender a língua portuguesa) e minha tolerância vai até a página 567. E a esclarecer que sou um ardoroso defensor da liberdade de expressão. A ler gente imbecil escrevendo, prefiro mil vezes Flaubert, Cioran e Foucault. Aliás, tenho é pena dessa gentalha que dispara suas bobagens com ares de superioridade.

Então sigamos assim: que tal separarmos o joio do trigo e melhorarmos os nossos canais de informações atentando para o perfil daquele que escreve? A dizer que o mundo está cheio de idiotas, e termino com a concepção do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que sempre afirmava que a regra da sociedade nunca será a de pessoas esclarecidas e sim a de canalhas. MPR assina embaixo. Canalhas, idiotas e vagabundos da Internet! Óbvio, toda regra tem exceção!    

Após o envio, lembrou-se de algo que o deixou satisfeito. Meses depois, lera um comentário de Umberto Eco que afirmava: “Normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora (com as redes sociais) eles têm o mesmo direito à palavra de um Prémio Nobel”.

Poucas horas antes, Luísa estava comendo biscoitos na sala da psicopedagoga da escola. Reunião de emergência com os pais e a direção. A escola já atentara para a falta de concentração da aluna, seu vício frenético em celulares e tablets e chegaram à conclusão de que a menina não vivia, apenas digitava, digitava, digitava. Das reclamações dos professores à compreensão geral dos colegas, a menina insone vivia como zumbi naquele recinto. Aborrecida, disse à psicopedagoga que queria ir para casa almoçar. A profissional informou que seus pais já estavam a caminho, e indicou a garrafa de café e o pote de biscoitos. Luísa mordeu alguns, e bebericou o café. Acessou a Internet pela sexta vez desde que estava naquela sala e, aos pedidos da pedagoga para que entregasse o aparelho, relutou. Colocou o celular no bolso e cruzou os braços. Pelo que pudera perceber, o vídeo do dia anterior dera bastante repercussão. Sorriu feliz!

Marcelo Pereira Rodrigues

Podes encontrar o conto anterior, “O Quarto em forma de bunker”, aqui!

One thought on “Conto: “Expiação Pública e Raiva”

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