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Porque A Arte Somos Nós

O nono álbum de estúdio de Elton John é uma aventura recheada de melodia e uma espécie de autobiografia do próprio e do seu fiel companheiro e escritor, Bernie Taupin. Este trabalho estabelece uma espécie de ligação com o seu famoso “Goodbye Yellow Brick Road”, de 1973, com muitas semelhanças sonoras e com uma produção mais ambiciosa. Entre estes dois houve “Caribou”, de 1974, que trouxe ao mundo The Bitch Is Back e Don’t Let The Sun Go Down On Me, mas que acaba por diferir bastante do conceito dos dois álbuns anteriormente mencionados.

Logo ao início temos o tema homónimo do álbum, Captain Fantastic And The Brown Dirt Cowboy, que em jeito de introdução conta como começou a história de Elton e Topin, neste caso Captain Fantastic e o Brown Dirt Cowboy, respectivamente. A faixa é um crescendo que se inicia com simplicidade de Elton e uma guitarra acústica, mas que a meio apresenta uma recheada banda composta por Davey Johnstone (guitarras), Dee Murray (baixo), Nigel Olsson (bateria) e Ray Cooper (percussão). Avançamos para Tower Of Babel, uma melodia alusiva ao mito bíblico da Torre de Babel, uma espécie de justificação para a origem das diferentes línguas faladas no mundo.

A verdade é que Elton e Bernie claramente fluíam na mesma linguagem, em conjunto com o resto da banda. A prestação vocal é irrepreensível e a sua estrutura melódica acompanha o dramatismo do cantor. Bitter Fingers, a terceira música desta epopeia leva-nos por entre os dedos mágicos de Elton às montanhas do outro mundo, transportando o ouvinte para um filme como “Alice no País das Maravilhas“, onde tudo é diferente e mágico. A música é divertida e é a primeira do álbum que nos dá realmente vontade de dançar.

Tell Me When The Whistle Blows ao início faz-nos lembrar uma música de Barry White (1944-2003), mas logo percebemos que Elton e a sua banda voltaram à terra com um conjunto de violinos fabulosos para um número mais soul. A guitarra de Davey vai “cantando” à sua maneira, com alguns riffs de blues, destacando-se na melodia dos violinos.

Elton John e Bernie Taupin

O que se segue é das músicas mais incríveis que alguma vez ouvi, e com certeza um dos ex-líbris do músico britânico. Someone Saved My Life Tonight. A história desta canção é também autobiográfica, pois conta a tentativa de suicídio por parte de Elton John em 1968, que foi salvo pelo amigo Long John Baldry.

A genialidade musical do artista levou a melhor, que sete anos depois compôs em conjunto com Bernie esta masterpiece. Com um piano capaz de reabrir todas as nossas feridas, uma voz sentida e uma banda que nunca nos deixa cair, este é precisamente o diamante de toda a obra, e o único single do álbum. Elton recusou ‘cortar’ a música, pois esta tem quase sete minutos e excede a duração média dos singles.

A segunda parte do álbum abre com (Gotta Get A) Meal Ticket, uma música mais rock and roll, que poderia perfeitamente encaixar no álbum “Goodbye Yellow Brick Road”. O seguimento é feito com Better Of Dead, uma música que vem dar um shake extra ao álbum, com um piano e um ritmo que nos faz lembrar um ambiente pub. Uma canção que fala sobre o lado mais promíscuo aos olhos dos seus autores.

Ao contrário desta, a próxima faixa começa de uma forma bastante contrastante. Writing traz-nos um ritmo tropical, com arranjos deliciosos na percussão, transportando-nos por momentos para um palco no meio de uma ilha paradisíaca. Para além da percussão, os doces riffs da guitarra eléctrica fazem-nos sorrir por dentro, mostrando uma faceta mais relaxada da obra. A música aborda o processo de escrita, fazendo desta uma divertida auto-avaliação.

Elton John ao vivo no Dodger Stadium em 1975

We All Fall In Love Sometimes, a música que nos traz de volta à melancolia, mas de forma refinada. Os arranjos são arrojados, uma balada para aqueles que ainda sofrem por amor, ou que mesmo não sofrendo, conseguem agarrar algo desse sentimento através da sensível voz de Elton John. A ponte é feita para a última música do álbum, Curtains. Esta é como que uma despedida de uma longa viagem e de uma era de ouro.

Uma fantasia colorida que continuamente sobe de registo, chamando pelo fim. É a música melodicamente mais rica em todo o lado B, com um final perfeito para uma performance ao vivo, onde com certeza Elton e a sua banda nunca se sentiriam sozinhos em palco.

Esta é uma obra consagrada na discografia de Elton John, contudo, nem sempre merecendo o devido mérito. É essencial para quem queira descobrir mais sobre o artista, e para quem tem curiosidade em explorar obras mais conceptuais. A sua riqueza em arranjos e conteúdo é vasta, não deixando ninguém indiferente à sua audição. Uma experiência obrigatória na consagração do imaginário do músico britânico e do seu fiél companheiro, Bernie Taupin.

Once upon a time“, o “Captain Fantastic” e o seu companheiro “Brown Dirt Cowboy” salvaram as nossas vidas.

Rating: 4 out of 4.

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