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Porque A Arte Somos Nós

Para todos os amantes de música, o nome Elton John não é surpresa, contudo esta obra vem dar a descobrir a alma por detrás do artista britânico: a pessoa, o homem e a criança, Reginald Kenneth Dwight. Nascido em Pinner, Inglaterra, “Reg” desde novo revelou um especial interesse para a música, tendo sido incentivado pela sua avó a tocar piano. O início do livro é uma uma espécie de descrição de como tudo começou, com Elton a explicar como via na música a escapatória para todos os problemas familiares.

Com pais separados desde cedo, Elton John conta como era difícil lidar com a sua mãe, Sheila Eileen, a pessoa que lhe mostrou pela primeira vez o que era o rock and roll. Mas antes disso, frisar que o músico sempre teve uma grande facilidade em decorar melodias, o que lhe valeu a entrada na Royal Academy of Music. Aqui, Elton aperfeiçoou o seu conhecimento e técnica como pianista, tendo aprendido e tocado muitos compositores clássicos, tais como Chopin ou Sebastian Bach. Na continuidade da ideia anterior, foi nesta altura que a mãe de “Reggie” levou para casa um disco de Elvis Presley, criando assim um fascínio musical e visual no seu filho. Nunca mais nada seria igual. Apesar do pai ser totalmente contra a moda do rock and roll e desejar que o seu filho singrasse na Força Aérea, a verdade é que Reg não quis ouvir falar de outra coisa. Seguiram-se algumas bandas até chegar aos Bluesology, um grupo de rhythm and blues que atuava maioritariamente em pubs, mas que foi importante em toda a carreira de Elton John. Como este admite, em certas situações, como fugir de um concerto pela janela, ajudaram o músico a lidar com situações mais “estranhas” e com os nervos de subir ao palco.

Com alguns concertos na bagagem, o então pianista dos Bluesology, que por vezes também era músico de estúdio, decidiu candidatar-se a um anúncio da NME (New Musical Express) de maneira a conseguir um contrato profissional, mas o máximo que este conseguiu foi um envelope… que lhe mudou a vida. Neste envelope estavam músicas escritas por Bernie Taupin, um rapaz da aldeia que tinha a ambição de ser escritor. Após estes combinarem um café, o que daí surgiu é história. Bernie foi viver com Reggie por algum tempo, de forma a criarem o máximo de canções possíveis. Em estúdio, “Empty Sky” dá início à longa carreira de Elton John, grande parte desta com Bernie a seu lado. Do ponto vista profissional, a autobiografia descreve muito bem as dificuldades e as aventuras na carreira do músico britânico. Desde o seu primeiro concerto nos Estados Unidos da América, no Troubadour – que esteve para não se realizar devido a um ataque de nervos por parte de Elton -, até aos grandes palcos de todo o mundo. Para qualquer fã, os depoimentos do artista são ouro. As logísticas e as tentações de andar na estrada são inúmeras, principalmente para quem atinge um sucesso muito repentino. Esse mesmo sucesso começou precisamente com Your Song, do seu segundo álbum “Elton John”, que ditaria o início de muitos grandes hits. Seguiram-se Rocket Man (And I Think It’s Going To Be A Long Time), Daniel, Bennie And The Jets, Crocodile Rock, The Bitch Is Back, Philadelphia Freedom, Don’t Let The Sun Go Down On Me, entre outros – isto tudo num espaço de cinco anos.

Esta ascensão explosiva por parte de Reggie, escondido por detrás do artista Elton John – nome “tirado” de dois membros dos Bluesology, Elton Dean e Long John Baldry – trouxe outro tipo de vícios e surpresas. Para além do elevado consumo de álcool, Elton começara a utilizar também cocaína, uma droga que o acompanharia até bastante tarde na sua vida. É também por esta altura que o músico conhece uma pessoa marcante na sua vida profissional e pessoal: John Reid. Este último foi o primeiro grande amor do músico, com o qual teve 100% certeza da sua orientação sexual. Mesmo sendo uma relação que mais tarde se revelaria tóxica, Reid lança Elton para outro patamar e certifica-se de que economicamente este pode dar aso a outro dos seus grandes vícios, ainda hoje presente, shopping. No livro, o artista descreve a sua extravagância para com tudo o que esteja relacionado com arte, mobiliário e roupa. A certa altura da sua vida, na casa de Woodside, o músico descreve episódios em que tinha medo de convidar alguém a ir lá a casa, pois com tantas peças e obras frágeis espalhadas, a probabilidade de alguém partir alguma coisa era enorme. Este tinha um campo para jogar squash praticamente inativo, pois servia de armazém para guardar as caixas das últimas compras em leilões.

Durante a narrativa da obra somos presenteados com inúmeros episódios fascinantes, desde assustar o Iggy Pop em palco, destruir quartos de hotéis, conhecer a Família Real, ser o primeiro a fazer John Lennon reaparecer nos palcos após a separação dos Beatles, à sua amizade com Gianni Versace ou com a Princesa Diana. Para além destas duas últimas personalidades que já deixaram este mundo, Elton John também privou com artistas como Freddie Mercury, George Michael ou Michael Jackson – todos eles também já morreram. Para além destas aventuras, esta autobiografia mostra um artista despido: o Reggie que nunca abandonou o Elton John. É verdade que a fama atrai muita gente, muita diversão e muito prazer, contudo não chega. E foi isso que o músico britânico sentiu ao fim de algum tempo, com a droga e a música a servirem como distracção e abrigo do sofrimento que este sentia na sua solidão. Os anos 80 foram bastante conturbados para o artista, contudo houveram momentos marcantes, como o Live Aid em 1985. Elton conta um episódio caricato, onde no backstage o seu amigo Freddie Mercury, vocalista dos Queen, brinca com o seu visual dizendo que Elton mais parecia “a Rainha-Mãe”. Foi durante esta década que o músico se casou com Renate Blauel, num acesso de amor instantâneo, que durou cerca de quatro anos. O músico conta como era ser constantemente perseguido pela imprensa britânica acerca da sua homossexualidade, e como essa pressão muitas vezes o fazia rir, como outras vezes o punha num estado depressivo.

Numa fase mais final, Elton John conta-nos a sua relação com a Princesa Diana e recorda quando, após a sua separação do Príncipe Carlos, esta foi cobiçada por Richard Gere e Sylvester Stallone durante um jantar. Diana foi uma activista na luta contra a SIDA, tal como Elton John. Após ter perdido amigos para a doença, o músico fundou a AIDS Foundation, uma associação que já angariou vários milhões de dólares. A história principal por detrás desta mudança na vida de Elton é bastante peculiar e comovente, pois percebemos que o músico chega a um ponto onde já não consegue aguentar mais o ritmo de vida que tinha, e revela uma maior maturidade para com a vida e para com ele mesmo. A juntar a isto, é por esta altura que este conhece o seu atual marido, David Furnish, com quem hoje tem dois filhos.

Podia estar a prolongar-me muito mais e a falar de muitos episódios da vida de Elton John, tal como ser presidente do Watford, o clube inglês da Premier League… Mas o melhor a fazer será mesmo ir a uma livraria e comprar esta obra. É uma dissecação a um artista que vemos através da televisão ou em cima de um palco, mas que carrega consigo um mundo mágico cheio de tragédia e alegrias, conquistas e derrotas, mas acima de tudo, de luta. Esta leitura é uma experiência rica e ajuda-nos a compreender a mente e o coração de quem desde cedo percorreu os corredores da fama. Impactante, puro e divertido!

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