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Porque A Arte Somos Nós

Antropológico. Humanista. Futurista. Lisérgico. Adjetivos se alternam quando assistimos ao icónico filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço“. Humildemente, advirto de antemão que não serei capaz de detalhar aspectos técnicos cinematográficos da obra-prima, mas deixarei os meus colegas do OBarrete imbuídos desta missão. Missão! A palavra cai como uma luva, sendo a escritura deste texto um desafio pela complexidade da película. Mas, como dizia Jack, o Estripador: “Vamos por partes”.

O filme levou quatro anos para ficar pronto, e em 1968 veio ao mundo através do realizador Stanley Kubrick (1928 – 1999), que assinou o roteiro juntamente a Arthur Charles Clarck (1917 – 2008), um escritor popular de ficção científica à época.

Com os atores Keir Dullea, Gary Lockwood e William Sylvester, este filme arrastado de duas horas e vinte e um minutos não despertou muitos aplausos na sua sessão de estreia, até pelo facto de ser um tanto quanto lento e modorrento, com poucos diálogos (3/4 do filme não apresentam diálogo algum, e dos poucos que há, a maioria são monossilábicos e comandos de ordem) e pela confusão que apresenta entre os seus blocos, com elementos interpenetrando os períodos e a inovação apresentada a não explicar tudo, violando as leis clássicas de se contar uma história: início, meio e fim. Já assisti a este filme algumas vezes e, a cada final de sessão, saio com mais perguntas que respostas.

Na primeira parte, na “Aurora do Homem”, observamos macacos na savana africana convivendo com outras espécies de animais e as cenas são indicativos processuais. Macacos em bandos que convivem com bandos rivais, um pequeno reservatório d’água e a morte sempre à espreita, quando são atacados por outros animais da cadeia alimentar. Um monólito aparece do nada e intriga os macacos. Por incrível que possa parecer, esse monólito futurístico é personagem deste filme, perpassando em períodos que intriga também os espectadores.

Os macacos e o monólito

Lanço o desafio: se algum espectador conseguiu a definição racional e cartesiana do que significa, trocarei de nome. Num dos momentos, um macaco ao se deparar com uma ossada, reflete e percebe que pode adaptar um osso para lhe servir de arma, e essa descoberta, aliada à fúria represada, o faz destruir macacos do bando rival para assegurar a posse territorial. Passo importante na história da Evolução, o símio herbívoro se transforma em carnívoro, pois adaptou a sua ferramenta para captar alimento. Sugestivo, não? Coitada da anta, que aparece abatida.

O macaco lança um osso para cima e o realizador dá um corte e guinada espetacular: agora estamos no espaço sideral, sendo a primeira nave visualizada uma espécie de extensão do osso. A simbologia de um filme pensado para antever três décadas. Estamos em 1968, época da Guerra Fria e da corrida armamentista, e o Dr. Heywood R. Floyd (interpretado por William Sylvester), americano, está numa missão com destino à Lua, mas não pode revelar os planos para os seus colegas soviéticos na estação espacial.

Não sabemos ao certo em qual nave está o Dr. Floyd, pois na cena anterior verificamos quatro espaço-naves com diferentes modelos. Este faz uma ligação para sua filha, parabenizando-a pelo aniversário no dia seguinte e nada mais é revelado de sentimentos humanos nas acções a seguir. Frios e exacerbadamente racionais, os cientistas são pragmáticos ao extremo, de forma que logo de caras percebemos que será difícil encontrar empatia e tampouco teremos a figura de um herói.

No interior da estação espacial

Um grupo de cientistas explora o solo lunar e… adivinhem? Dão de caras com o monolito. Surpreendem-se pelo facto e, lógico, desejam fazer um registo fotográfico: ao disparo da câmara, o monolito emite um ruído ensurdecedor e dá-se então o corte para outros astronautas, viajando numa outra nave e com três cientistas que hibernam nas suas cápsulas.

Eis que surge o famoso HAL 9000. Inteligência artificial, é o companheiro de jornada dos cientistas Dr. David Bowman (interpretado por Keir Dullea) e Dr. Frank Poole (interpretado por Gary Lockwood). Esse computador frio e racional, contraditoriamente também pode ter sentimentos humanos, e isso é aventado numa entrevista concedida por um dos astronautas a uma estação na Terra. Como personagem, o charmoso HAL, com a sua inconfundível luz vermelha, do tamanho de uma caixa de som de computador, vai dialogando sobre aspectos técnicos e até se permite jogar xadrez com os seus companheiros.

Filosoficamente, esta parte é muito rica e impressionante. Se lembrarmos a época em que o filme foi feito, e se retroagirmos mais e entendermos que HAL era já o personagem de livros do seu autor, veremos a sagacidade de se discutir o quanto estaríamos à mercê da tecnologia, e que aos poucos ela poderia substituir muitas de nossas atividades, enfim, penso que o entendimento da época atual já é cristalino por si só, mas compreender que isso foi pensado há mais de 60 anos, é realmente magnífico.

HAL 9000

HAL insurge-se e desperta a suspeita entre os dois astronautas “humanos” (eles também que despertam pouca ou nenhuma afeição, dificultando ainda mais a percepção de quem seria o herói na trama) de que ele está sabotando a missão. Num ambiente claustrofóbico e de constante Big Brother, os humanos encerram-se numa cápsula para terem privacidade e chegarem à conclusão de que a máquina estava descontrolada.

A insurreição dá-se no momento em que HAL assassina um deles, que estava fora da nave avaliando uma avaria. Os três que hibernavam e no duelo entre o humano que restou e a máquina, tal como no desligamento desta, no respiro abafado e desalentador, observamos os sentimentos de HAL acerca de sua finitude. Se observarmos hoje, nutrimos muita simpatia pelos robôs domésticos que estão a servir em algumas lanchonetes pelo mundo. São máquinas engraçadas!

Após suplantar HAL, Dr. David se encontra a caminho de Júpiter e é na parte final da trama que ocorrem as cenas lisérgicas de cores e imagens. Completa supressão do espaço e tempo, o clip da nave e do olho do astronauta adentrando aquele túnel é um misto de aterrador e sublime. Espectro de possibilidades. O bólido atraca num quarto com características barrocas e de dentro da nave David já percebe “Um Outro Seu”.

Desce e, em cada cómodo, uma fase da sua vida, agora encerrado, decrépito, numa espaçosa cama e, da cena icónica do dedo que quer tocar Deus (o que remete a “Criação de Adão” de Michelangelo), com a presença mais uma vez do monolito, ocorre um salto para um feto de uma raça mais evoluída que se traveste de planeta.

“2001: Odisseia no Espaço”

Ufa! Que viagem! Um filme especulativo, metafísico e que aborda temáticas filosóficas das mais diversas. Atemporal, brilhante nas suas abordagens e dos recursos tecnológicos à época para se rodar o filme, percebe-se nitidamente que nasceu para ser um clássico, uma obra de arte que não se entrega fácil e que, à medida em que o assistimos mais, nos deixa intrigados com as novas perspectivas. Stanley Kubrick é um cineasta espetacular (e se uso o tempo verbal no presente é intencional) e quem sabe não conseguiu a imortalidade por meio das suas técnicas cinematográficas? Um artista que inventou o cinema de ficção científica, dando relevo a esse segmento.

Por mais que assista a “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, não deixarei de me questionar sobre algumas questões: o monolito seria Deus? Seria um aparelho enviado por alienígenas para ir monitorizando a evolução da raça humana? O astronauta decrépito venceu a limitação do tempo e espaço e se transformará num ser mais evoluído? O quanto evoluímos na fabricação de armas para abater os nossos semelhantes? O final apresenta-nos o conceito de Super Homem de Friedrich Nietzsche? E também poderíamos aludir ao Eterno Retorno também na visão do filósofo alemão, sendo que a música inicial se relaciona com a placenta espacial?

Gosto muito de filmes espaciais, sinto que viajo para além da Terra e me maravilho com as tomadas do nosso Planeta Azul, visto lá de cima, mas com todos os recursos disponíveis atualmente, ainda mais me maravilho com as técnicas apresentadas em “2001 Uma Odisseia no Espaço”. E a trilha sonora do filme, “Assim Falava Zaratustra” de Richard Strauss, que espetáculo!

De certo, daquilo que o genial Umberto Eco (1932-2016), Doutor em Semiótica classificou de “obra aberta”, este filmaço é uma destas peças.

Marcelo Pereira Rodrigues

Rating: 4 out of 4.

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