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O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) é um dos pensadores mais originais da História da Filosofia. Mesmo que beba na fonte dos pré-socráticos e dos filósofos clássicos da Antiguidade, ele veio desmistificar, confrontar, poetizar e profetizar aspectos morais e comportamentais da sua época. Aliás, o seu olhar agudo e ferino, mesmo que fisicamente acometido em alguns momentos pela cegueira advinda da sífilis, era para além do seu tempo.

Nada modesto e consciente da elevação das suas sentenças, Nietzsche foi um extemporâneo e, a bem da verdade, em muitos aspectos, pode ser considerado um extemporâneo até os dias atuais. Neste artigo, destacarei alguns dos seus conceitos, prometendo para o futuro esmiuçar em outros textos e apontar a atualidade, e ainda um certo incómodo que a filosofia do alemão ainda nos apresenta.

Hoje é fácil observarmos até Fã-Clube do alemão. Um dos filósofos mais comentados do mundo, um dos célebres da História da Filosofia, estampado até em camisolas, o certo é que enquanto cá andou Nietzsche não teve vida fácil. Filho de pastor protestante, o miúdo bem poderia ter seguido os passos do pai. Ingressou na Filosofia e especializou-se em Filologia. Professor universitário, estudioso exemplar e escritor lírico, começou a desmistificar os sistemas filosóficos engendrados de épocas passadas e atuais.

Certamente foi a sua função de filólogo que lhe permitiu essa agudeza de visão; fazendo uma analogia, ele afirmava que assim como os médicos conseguiam enxergar para além da superfície, diagnosticando o paciente, ele conseguia ver o real significado das palavras e observava estupefacto o rebanho de ideias e conceitos presentes na sua época. Ao invés de construir um sistema, ele necessitava destruí-lo, depurá-lo, aperfeiçoá-lo, e nada de proposta a grandes sistemas.

Daí a “filosofia do martelo”. Aqui cabe uma explicação e eu espero ser um pouco filólogo para apresentar uma tese que me incomoda: o martelo existe para fixar as coisas, para bater o prego. Não seria mais apropriado denominarmos Nietzsche o “filósofo da marreta”? Pois a marreta derruba, joga ao chão, faz ruir, destrói. E esse é o propósito deste professor. Em vida, os seus livros foram recebidos com frieza crítica. Em muitos casos, dos 100 exemplares que ele pagou para publicar, não chegou a vender 10. Mas nada que abalasse a auto-estima do autor de “Assim Falava Zaratustra“.

Os últimos dias de Friedrich Nietzsche

Sem falsa modéstia, tinha em conta que seus escritos eram para poucos, para seletos. Comparava-se àquele homem que sobe as montanhas e que, à medida em que vai subindo, e à medida em que o ar vai ficando mais frio, sabedor que isso pode provocar gripe e pneumonia para espíritos mais frágeis, compreende a sua solidão. Enfim, um autor impositivo, feroz, agudo, mas sensivelmente poético, dada a sua manifestação em aforismos que são breves sentenças que chegam a machucar espíritos mais reaccionários.

No campo da moral e do comportamento, Nietzsche percebe o homem envolto em sombras dogmáticas da religião e proclama assim o “Deus está morto“. Mas que fique bem claro: ele não matou Deus. Apenas percebeu o óbvio: os homens cultuavam uma sombra e isso o remetia à caverna do Platão. Nietzsche empreende uma jornada de saída dessa caverna. Mas cuidado! Para aqueles que estão acostumados às sombras, olhar de frente para o Sol pode cegar.

Desmistifica o cristianismo, essa religião de dois mil anos que se pretende atemporal. Zomba da figura de Jesus Cristo e não poupa adjetivos nada lisonjeiros ao carpinteiro de Nazaré. Daí o virulento panfleto “O Anticristo“, numa narrativa cheia de deboche e de dedo na ferida. Enxerga o cristianismo como um platonismo barato, como uma adaptação do Mundo das Ideias Perfeitas ao céu cristão. Lamenta a figura de Sócrates (469 a. C. – 399 a. C.), o “caçador de ratos de Atenas” e até a verosimilhança icónica entre ele e Jesus de Nazaré é aventada em grandiloquentes deboches.

Ataca o pastor Martinho Lutero (1483-1546) que provocou o Cisma na Igreja Católica, mas que proporcionou o fortalecimento desta, com a sua Contra Reforma. Entendia Nietzsche que com o Renascimento europeu, a Igreja estaria fadada ao seu ostracismo merecido. Escreveu, sem dó nem piedade, que “o protestantismo era o mais sujo dos cristianismos“.

Alguns de seus livros mais expressivos são “O Nascimento da Tragédia” ou “Helenismo e Pessimismo“, que desmistifica a época grega clássica como o período de excelência. Este seu primeiro livro já veio fincar a sua bandeira nada convencional. A “Gaia Ciência” é um tratado acerca de moral e costumes, de desmistificação e chamamento a uma nova consciência. “Além do Bem e do Mal” é um excelente compêndio de aforismos, assim como o fenomenal “Assim Falava Zaratustra”, uma paródia ao asceta que sobe a montanha acompanhado de uma águia e uma serpente, e o lirismo na visão de mundo do profeta é divertidíssima, muito profunda.

Ecce Homo“, “Humano“, “Demasiado Humano“, “Genealogia da Moral“, “O Caso Wagner” e “Schopenhauer Educador” são outros dos seus títulos. Um dos filósofos que mais me influenciou na minha formação, mencionei-o em dois títulos de meus livros: “Muito Humano Demais” e “Corda Sobre o Abismo“. Em “A Queda“, homenageei-o com enxertos lidos pela personagem Carla de trechos do “Assim Falava Zaratustra”.

“A Gaia Ciência”
“O Caso Wagner”
“Ecce Homo”

Amor fati. Eterno Retorno. O Super – Homem. São temas os quais pretendo abordar em breve. Aventurem-se pelos escritos de Nietzsche, mas advirto-os: agasalhem-se bem, pois a sua escrita elevada poderá fazê-lo resfriar-se. Todo cuidado é pouco…

Cito alguns dos seus aforismos:

O amor a um único ser é uma barbárie, porque se exerce com detrimento de todos os outros. Tal é o amor de Deus“;

O cristianismo deu veneno a Eros; mas este não morreu, degenerou e tornou-se vício“;

É a música da nossa consciência, a dança do nosso espírito, que não sabe suportar as tiranias dos puritanos, dos sermões dos moralistas e da bondade dos homens de ‘bem’“;

A todos os partidos. O pastor necessita sempre de um carneiro-chefe para guiar o rebanho, ou então será às vezes guiado“;

Não se odeia enquanto se despreza; odeia-se quando se estima igual ou superior“;

Na vingança e no amor, a mulher é mais brutal que o homem“;

Um povo é um rodeio que dá a natureza para chegar a seis ou sete grandes homens e para livrar-se deles“.

Marcelo Pereira Rodrigues

4 thoughts on “Nietzsche: Um filósofo ainda extemporâneo

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