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Porque A Arte Somos Nós

“Mas tudo o que lhes peço é o seguinte: Quando os meus filhinhos ficarem adultos, puni-os, ó cidadãos, atormentai-os do mesmo modo que eu vos atormentei, quando vos parecer que eles cuidam mais das riquezas ou de outras coisas que da virtude”


– Sócrates, personagem de Platão, no livro “Apologia de Sócrates”

Para os historiadores da Filosofia, o grego Sócrates é considerado “O Pai da Filosofia”. Nascido em Atenas em 399 a. C, viveu por 70 anos. Mais do que apresentar o filósofo historicamente, irei transpô-lo para a nossa época atual e trabalhar alguns dos seus conceitos. O primeiro diz respeito à conversação proposta pelo pensador de Atenas, sempre questionando a tudo e a todos. A sua máxima “só sei que nada sei” é um primor de ironia, a saber que o filósofo sabia sim de bastante coisa. A principal dela? Saber que não é possível saber de tudo.

Os nossos dias são conturbados. Os discursos agora são propostos em redes sociais, para uma bolha de amigos que pensam exatamente igual a você. Caso ocorra algum stress, é simples: basta desconectar o seu amigo virtual e assim reafirma o seu discurso carregado de certezas. Todo mundo sabe de tudo. Ou pelo menos acham que sabem.

Nessa cacofonia não encontramos palco para análises mais aprofundadas, ideias opostas, argumentações, etc. Máximas são proferidas de maneira dogmática. Imaginem se o homem Sócrates tivesse um perfil no Facebook! Certamente seria persona non grata de muitos, pois estaria sempre questionando tudo e, ao ser confrontado com aquilo que ele pensasse sobre tal assunto, escreveria ironicamente que o Doutor ali não era ele.

Sócrates

Na época de universidade (Universidade Federal de São João del-Rei, no Brasil), tive um professor de Filosofia chamado Florêncio. Numa das suas aulas, ele nos contou uma história bastante irónica: ele estava em casa trancado trabalhando em uma tese, movimentando a massa cinzenta e lá pelas tantas, sua mulher pediu que ele fosse à tasca comprar o leite e o pão. Ele assim fez.

Chegando ao lugar, conversando rapidamente com seus conhecidos, percebeu que eles estavam discutindo sobre vários assuntos: política, futebol, camada do ozono no planeta Terra, etc. Então ele refletiu: “Puxa vida, inteligentes são esses sujeitos, que na tasca sabem de tudo. Eu aqui estudando há um bom tempo e não chego a nenhuma conclusão de minha tese”. Ri demais de sua fina ironia. Assim o é.

O pensamento filosófico exige uma reflexão mais aprofundada acerca das coisas. Foi Sócrates quem nos propôs separar a aparência da essência, sendo a primeira apenas uma forma superficial de enxergar as coisas, tendo a essência o extrato daquilo que as coisas realmente são, no seu âmago. Um pensamento filosófico não pode se permitir opinar no calor da hora, é necessário um tempo de ponderação e tentativa de se ver o problema sob vários ângulos. Um dos escritos mais belos e clássicos da filosofia é a “Alegoria da Caverna“, de Platão (o discípulo de Sócrates que escreveu os seus textos tendo Sócrates como personagem, já que este nada escreveu).

Platão

Dando um salto para os dias modernos, muitos vivem em cavernas epistemológicas, cultivando o seu castelo de cartas e sendo intransigente na área do conhecimento, ou antes, auto-conhecimento. Basta dar uma passada pelas redes sociais para percebermos as dicotomias empobrecedoras na análise do discurso, ou melhor, da falta de discurso. Assim sendo, tripeiros não se dão com alfacinhas; adeptos do Porto odeiam adeptos do Benfica; partidários Socialistas não se bicam com Conservadores e a coisa vai desandando por aí.

Sócrates hoje nos sugeriria tolerância, a ver que por detrás de nossas simples aparências (as camisolas de teams que usamos, as opiniões que professamos e o ideário do partido político que aderimos) existe a essência, e essa nos despe em uma característica elementar: somos exclusivamente seres humanos, únicos e diferenciáveis. Assim sendo, o “só sei que nada sei” de seu propositor poderá ser uma oportunidade incrível para aprendermos, sendo humildes ao ponto de entendermos que todos têm direito a ser, pensar e agir diferente.

Que um mundo impregnado de Filosofia venha nos colher no momento mais conturbado de nossa existência aqui na Terra. Quando ultrapassamos a modernidade e a verdade, acreditando que o “pós” dê conta dessa dificuldade, que estamos numa pós-modernidade com direito a uma pós-verdade, pois bem, sejamos conservadores pelo menos no entendimento dessa última. Verdade que é palavra difícil de ser respondida, como na interrogação de Pôncio Pilatos a Jesus de Nazaré, e o contras-senso é perceber que muitos hoje entendem serem portadores dela.

Que o método da maiêutica, o parir ideias, seja a seta que nos aponte mais conhecimento e humildade. Afinal, “só sei que nada sei”.

Marcelo Pereira Rodrigues

4 thoughts on “Sócrates e a Ironia do “Só Sei Que Nada Sei”

  1. Elizabete Rodrigues Pereira Chaves diz:

    Brilhantes as colocações do filósofo Marcelo Pereira Rodrigues em uma perfeita análise da máxima de Sócrates “Só sei que nada sei”. Parabéns ao filósofo e escritor.

    1. marcelopereirarodrigues diz:

      Elizabete, muito obrigado pela atenção na leitura e pelo elogio que, partindo de você, tem sentido especial. Boas coisas!

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