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Porque A Arte Somos Nós

Por detrás de uma das maiores obras de todos os tempos, “A Divina Comédia”, encontramos um grande escritor, poeta e político – Dante Alighieri. Este é considerado o maior poeta da língua italiana e, por isso, definido como il sommo poeta. Tal é a grandeza de Dante que a sua ilustre obra tornou-se a obra fundadora da língua italiana moderna.

De facto, esta obra é grandiosa a todos os níveis: estrutural, simbólico e mesmo a nível da intenção por detrás da sua criação. Estruturalmente, temos um poema épico narrativo, dividido em três partes, cada uma delas com exatamente trinta e três cantos. A nível simbólico, é uma obra carregada de analogias e alegorias, que conferem a sua riqueza e profundidade emocional. As principais mensagens simbólicas que podemos captar são as repetições do número três – três partes, trinta e três cantos, três feras – o número da luz, do sagrado e da santíssima trindade. Mas então o que levou Dante a escrever tal obra?

Dante Alighieri

Exilado de Florença, cidade onde nasceu, Dante entrou num período negro da sua vida, onde perdeu o rumo de quem era e de quem queria ser. Para acrescentar a esta desgraça, o amor da vida do florentino morre repentinamente, fazendo com que esta espiral negra se intensifique ainda mais. A intenção principal desta obra é, portanto, servir de catarse, por assim dizer, como descoberta de um novo caminho para a vida do próprio escritor. Assim, Dante dedica catorze anos da sua vida a esta obra descomunal e termina-a em 1320, um ano antes de morrer.

Passando agora para o conteúdo do livro em si, este conta a história de Dante numa viagem mística pelos três reinos da vida depois da morte: o Inferno, o Purgatório e o Céu. No entanto, antes de iniciar a sua viagem, Dante encontra-se numa floresta selvagem, escura, densa e aterradora e é confrontado pelas três feras: um leopardo, um leão e uma loba.

A floresta simboliza a perdição dos homens no pecado e está diretamente relacionada com o período negro na vida de Dante: “Uma vez perdido na selva escura, um homem só poderá escapar se, através do uso da razão do intelecto, descer de forma que veja o seu pecado não como um obstáculo externo (as feras), mas como vontade de caos e morte dentro de si (Inferno)“.

Já as feras são consideradas, por exemplo por Dorothy Sayers, uma tradutora desta obra, os três estados da vida: a juventude, a meia-idade e a velhice. Podem também representar três pecados: o leopardo o descomedimento, o leão a violência e a loba a fraude. Nessa selva, também encontramos um monte, que pode ser associado, alegoricamente, ao monte do Purgatório, símbolo da ascensão da alma e do arrependimento. Não obstante, o caminho para o arrependimento não pode ser feito através da selva escura, uma vez que as feras impedem a passagem.

Dorothy Sayers

Este deve então ser feito através do Inferno, onde encontramos as almas penadas e os desgraçados. Nesta descoberta do pecado, Dante tem um guia que o orientará pelos nove círculos do Inferno – Virgílio. Virgílio também tem um sentido simbólico, pois Dante sempre o admirou e sentiu a influência deste nas suas obras, portanto, este também grandioso escritor representa o intelecto e a razão de Dante, que é a sua única saída da selva escura.

Chegados ao Inferno são confrontados com uma advertência “Deixai toda a esperança, vós que entrais“. Neste paraíso infernal, Dante encontra muitos conhecidos, amigos e mesmo grandes nomes da história, como Sócrates, Aristóteles e Platão, que por terem vivido antes do nascimento de Cristo e nunca terem sequer conhecido o poder de Deus, estão condenados à eternidade infernal.

Dante caminha pelos nove círculos do Inferno para conhecer os seus horrores e assim perceber o que o poderia esperar se continuasse uma vida repleta de devassidão e irresponsabilidade. Somos bombardeados com as mais impensáveis atrocidades e os seus respetivos castigos: no sétimo círculo, os violentos contra os outros, contra si próprios ou contra Deus são, respetivamente, atingidos por flechas num rio de sangue a ferver, transformados em plantas e devorados por harpias, sofrendo com a chuva das brasas eternas, em pleno deserto.

Seguindo para o Purgatório, a criação mais original de Dante, uma vez que esta concepção não existia até então, situamo-nos no espaço intermediário, constituído por uma única ilha com uma grande montanha no centro que sobe até alcançar os céus, o Monte Purgatório. Este estaria reservado para aqueles que se arrependeram em vida dos seus pecados e estão, portanto, em processo de serem perdoados. No Purgatório, as almas deambulam e assistem às punições infernais daqueles que não se arrependeram.

Obra de Sandro Botticelli, pintor renascentista italiano, que criou o “Inferno” de Dante inspirado na “Divina Comédia”

No final da sua viagem, Dante chega ao Paraíso. Aqui Virgílio abandona-o e passa o “testemunho” de guia a Beatriz, que levará o poeta pelas nove esferas celestiais. A visão do Paraíso que lemos na obra é apenas a visão de Dante, uma vez que esta não é igual para todos. A explicação para tal é o facto de existirem almas mais espiritualmente desenvolvidas que outras e que se encontram mais próximas da experiência de Deus e que, portanto, têm um percurso diferente das outras almas.

Todavia, Dante só consegue entrar nos céus graças ao amor que sente por Beatriz e com a sua ajuda. Esta representa a paz e a fé que Dante procura na sua vida para mudar de rumo e é, no fundo, a última saída da espiral de desgraças que o poderiam levar à condenação infernal.

“A Divina Comédia” é uma obra extremamente detalhada e profunda tanto a nível linguístico como visual e mesmo simbólico. Não é uma obra para todos e requer muita investigação aquando a sua leitura, uma vez que está repleta de alegorias e referências mitológicas. É, portanto, um livro riquíssimo e deve ser saboreado ao longo de semanas e semanas, a fim de assimilarmos toda a sua intensidade.

Dante foi um homem que, encontrando-se num período de escuridão, refugiou-se na sua escrita e criou uma das maiores obras de todos os tempos que, decerto, ecoará ao longo dos séculos através de todas as gerações subsequentes. E é exatamente isso que todos os artistas – incluindo os escritores – procuram nas suas criações: uma catarse capaz de purificar e iluminar os nossos passos. Aliás, a arte é isso mesmo, uma luz na nossa vida sem a qual não seremos nunca completos.

Lorena Moreira

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