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Porque A Arte Somos Nós

Francisco encontrava-se em Olomouc, na República Checa, e toda a sua história de vida daria uma bela trama kafkiana. Estudante de Filosofia residente em Berlim, saíra da capital alemã aos 23 anos após concluir a graduação apenas. Dera um tempo na vida académica e passara os seus últimos seis meses enfronhado numa narrativa romanceada sobre Franz Kafka, autor que tanto admirava. Era brasileiro de facto, naturalizado alemão e toda a sua vida sempre fora de bastante esforço, a ver a mãe que trabalhava de faxineira para garantir o seu sustento e o do filho único.

Criança estranha, adolescente sorumbático e jovem curioso, estudou Filosofia e viu respondidas muitas das suas questões existenciais. Dividia o tempo entre a faculdade e alguns servicinhos extras, como lavar os automóveis dos seus colegas que o socorriam em algumas situações. Fazia uns extras como segurança de loja e à noite, varando a madrugada, escrevia o seu diário que passou a ser um livro, uma história fictícia que envolvia corvos, Kafka e pesquisava amiúde a Checoslováquia, a agora República Checa e a sua capital Praga.

Franz Kafka

Após viajar mais de seis horas, como boleia de um camionista, encontrava-se agora na universidade de Olomouc, que distava 280 km da capital Praga. Na bolsa a tiracolo, o seu livro produzido numa gráfica rápida. Na sua ingenuidade, estando no prédio da faculdade de Letras e de Filosofia, seria natural conversarem sobre a possibilidade de publicação em larga escala ali, com a chancela dos coordenadores de cursos e professores.

Num período de pouco mais de quatro horas, só recebera respostas negativas: as secretárias dos departamentos esclareceram-lhe que àquela hora não haviam professores e diretores naquele prédio. Sugeriram-lhe o departamento de marketing, também fechado àquela hora, e após tantas inviabilidades, sentiu-se o personagem de Kafka, o agrimensor K. que intenta uma entrevista com o dono do castelo, nunca consentida, como expressa na obra “O Castelo“.

No mesmo prédio, mas no departamento editorial da universidade, Karl Heinz Mann, um relações públicas de 46 anos de uma grande editora alemã, que estaria dali há três meses na Feira do Livro de Frankfurt, saía de reuniões desanimado com a pouca eficiência dos acordos. Como a sua editora era mais comercial e nada universitária, tinha a certeza na véspera de que dali não sairia nada de proveitoso.

Pacientemente, respondeu aos interlocutores que a editora para a qual trabalhava não havia pensado em abrir um selo mais académico. Sorrisos, cafezinhos, trocas de gentilezas, uma breve solenidade onde lhe agraciaram com um diploma de Honra ao Mérito, fotos posadas para constarem das páginas virtuais da instituição e ele já se despedia, pensando na estrada que o levaria a Praga. Pretendia dormir lá e trabalhar nos dois dias seguintes.

“O Castelo”, Franz Kafka (1926)

Sai no estacionamento e, um pouco distraído, avança com o seu Mercedez-Bens sobre um jovem folheando um livro, também bastante distraído. Um pouco mais rápido e o jovem voaria por sobre o automóvel. Pragueja e desce do veículo se desculpando e procurando saber se doía algum membro do quase atropelado.

Chega a derrubar o desavisado, que se levanta recolhendo o livro e esfregando as mãos. O jovem o tranquiliza, também se desculpa e confessa que estava com a cabeça no mundo da lua. O funcionário da editora o questiona acerca do livro, porque o prendia tanto a ponto de perder a noção de tempo e espaço, ao que Francisco afirma se tratar de uma novela fictícia sobre Kafka, um romance focado no absurdo.

O interlocutor interessa-se e pede mais informações, sugerindo-lhe um banco próximo. O jovem escritor e filósofo concorda, sente que está a ser entrevistado e defende a sua narrativa lúdica com unhas e dentes. O interlocutor questiona-o sobre os seus sonhos referentes à publicação, no pouco tempo em que conversaram já havia percebido a fluência do escritor, e interiormente já o imaginava palestrando nos estandes de livros mundo afora, sob a tutela da sua editora. Era um pouco místico e não acreditava no acaso: o certo é que não o atropelara à toa.

Ao saber da função do interlocutor, Francisco riu e perguntou se haveria a possibilidade de alguém da editora ler o seu original. O Sr. Mann sacou a sua carteira, retirou um cartão de visitas cromado e passou-o ao jovem. Prometeu incumbir-se pessoalmente do projeto de fazer vir ao mundo um romance inspirado em Kafka na cidade onde o acaso o destinou. Pegou no livro, perguntou se Francisco precisava de mais alguma coisa e insistiu se ele por acaso não estaria a sentir alguma coisa. Após a resposta negativa, despediu-se e sorriu ao entrar no seu automóvel, tendo a convicção de que, casualmente, descobrira um grande escritor.

Francisco arrumaria um local para almoçar, passearia pelo restante da tarde e apanharia um comboio com destino a Praga. Não sabia ao certo os motivos, mas Olomouc parece que se abrira para ele como um deslumbrante sorriso.

Marcelo Pereira Rodrigues

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