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Uma viagem por entre montanhas, enfrentando o frio, a fome e a solidão, pode ser, de facto, uma aventura heroica. “Caminhar no Gelo” (2011, Tinta da China) é um diário sobre a majestosa caminhada do realizador Werner Herzog, escrito em 1974. O famoso cineasta alemão é mais conhecido pelos seus trabalhos cinematográficos, como “Aguirre, a cólera de Deus” (1972) ou “Fitzcarraldo” (1982), que também evocam esta ideia de viagem, cometendo loucuras para chegar ao seu destino. Neste livro, Herzog testemunha e detalha a sua jornada durante o gélido Inverno alemão, pois contrariamente ao que se sucede nos livros dentro do género Literatura de Viagem, “Caminhar no Gelo” é uma confissão pessoal acerca da solidão.

Esta épica viagem inicia-se no final do Outono, em 1974, depois de Werner Herzog receber a noticia de que a sua amiga e mentora, Lotte H. Eisner, estava às portas da morte. Sendo assim, Herzog começa a sua caminhada, a partir de Munique, com a esperança de evitar tal tragédia. “A Eisner não pode morrer, não morrerá, não o permito. Não agora, não pode. Não, não morrerá agora, porque não morrerá.” (p. 16).

Lotte H. Eisner nasceu em Berlim, na Alemanha, em 1896, tendo sido curadora e escritora da Sétima Arte, mais precisamente na análise ao movimento do Expressionismo alemão. Eisner analisa obras e autores como F. W. Murnau ou Fritz Lang

Começara então a jornada do cineasta, a partir de sua casa, em Munique, até ao descanso efémero de Lotte H. Eisner, em Paris. Levando consigo apenas uma mochila, uma bússola e um par de botas novas para esta caminhada de quase mil quilómetros. Segundo as entradas no diário, esta viagem realizou-se entre 23 de Novembro e 14 de Dezembro em 1974.

Durante a caminhada, por entre o gelo e a neve, Herzog mantém uma descrição pessoal sobre o que vai sentindo quer fisicamente quer psicologicamente, quase que desesperando pela chegada do fim da viagem. Esta característica de enfrentar o impossível libertando-se do corpo, está presente na sua obra cinematográfica.

Mais do que evitar a morte de Lotte H. Eisner, Herzog também procurou a solidão. “Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.” (p. 13). Um ponto interessante para um livro de viagem, porque, em “Caminhar no Gelo” não há a descoberta de outra cultura, apenas um humano sozinho enfrentando a brutal força das montanhas.

O cineasta alemão Werner Herzog

Durante a viagem, Herzog não enfrenta somente a natureza e a solidão, também se depara com o silêncio da natureza, isto porque, Herzog é como um estranho para as aldeias que “fingem a morte quando eu me aproximo.” (p. 34), fazendo do alemão o único por aquelas paragens. Por mais incrível que pareça, graças a esta caminhada ou não, a verdade é que Lotte H. Eisner melhorou e viveu mais nove anos. “Ninguém saberá o que esta jornada significa” (p. 121), assim conclui.

Este livro, “Caminhar no Gelo”, é um testemunho pessoal de como uma viagem pode mudar o próprio autor, e até mesmo os acontecimentos de outrem. Ao não desistir do seu sonho utópico, Werner Herzog enfrentou o impossível, mergulhado em solidão e em silêncio, a viagem revelou ser uma experiência arrebatadora. Esta caminhada marcou profundamente o realizador de tal maneira que é possível encontrar nos seus filmes ligações e referências a este livro, principalmente nos seus protagonistas. No fundo, o importante não é o destino, mas sim, a viagem.

João Filipe

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