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Na função de agente literário, chegam-me às mãos alguns originais que logo são direcionados à equipa de pareceristas à guisa de leituras críticas, correções ortográficas e gramaticais, etc. Um em especial chamou-me a atenção: trata-se de “Além da Vida Uterina”, do advogado Edir Pires. Sugerimos ao autor trabalhar num ponto cego da trama, mas no todo a história é bastante envolvente. Com capítulos breves, narra a história de Daniel (ele um renomado advogado criminalista), Michelle (esposa) e Fernanda (filha adolescente com um comportamento exemplar) e advindo do temor das consequências do que foi o primeiro parto, quando sofreu uma hemorragia, Michelle decide interromper uma gravidez e recorre a uma clínica clandestina.

A decisão com o esposo envolve conflitos éticos e legais, sendo que estranhos acontecimentos começam a ocorrer dando ares de paranormalidade à narrativa. Lemos personagens genuinamente bons e exemplares e a história servirá para recuperar um pouco de fé na humanidade, pois mesmo Michelle não procedeu à interrupção da gravidez à toa. Temia a própria vida.

O advogado e escritor Edir Pires

Numa cidade de cenário não nomeada, mas que supus Conselheiro Lafaiete, da província Minas Gerais, pelo facto de viajarem a cidades vizinhas tais como Barbacena e Juiz de Fora (para as clínicas abortivas), e o anseio mineiro pelas praias de Angra dos Reis (Rio de Janeiro) e Guarapari (Espírito Santo), o certo é que a fluidez dos acontecimentos ditos corriqueiros numa família de classe média alta são sobressaltados pela repentina alteração de humor da filha, que sempre foi um exemplo na escola.

Com diálogos minimalistas e que revelam a experiência do seu autor, com situações por vezes corriqueiras e banais, o surpreendente espreita a cada página como o afirmado logo no começo da obra, na citação de William Shakespeare de que “existe mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor a sua vã filosofia“.

A leitura deste original veio encontrar-me numa dicotomia que tenho refletido nestes últimos tempos: a crença e os factos. Senti-me um pouco Daniel com a sua visão mais racionalista acerca dos assuntos e desdenhando de fenómenos paranormais. Mas devo admitir a citação proposta no início, e que indica:

Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay – Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem

Don Quixote” – Miguel de Cervantes

Retrato de Miguel de Cervantes, feito pelo pintor Juan de Jáuregui, por volta de 1600

O autor, que já publicou uma obra por uma editora espírita, entende que este proposto “Além da Vida Uterina” não perfaz o género, e nós atestamos isso. Não se trata de obra espírita, mas sim de narrativa espiritualizada, inserida em uma novela ágil e direta, sem muitas firulas e, como dizemos aqui na província de Minas, sem “encheção de linguiça”.

Agora é oferecermos aos editores, orientar Edir no tocante às possibilidades e tomara que em breve os leitores possam ter acesso ao desenrolar desta história ética e com um final surpreendente.

Marcelo Pereira Rodrigues

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