OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

Neste ensaio, ao invés de analisar um livro específico, irei analisar quatro. Mais do que a obra em si, o conjunto de pensamentos e atitudes de um dos maiores escritores do século XX, o checo Franz Kafka (1883-1924). Kafka marcou a história da literatura pelo nonsense, pela valorização do sonho em detrimento à vigília, pelas passagens surreais. Parábolas maravilhosas, escrita fácil, Kafka é um autor incomum.

A bibliografia de Kafka é bem fragmentada: contos que foram publicados em revistas literárias, romances inacabados, a redação de um diário que o acompanhou por toda a vida e obras impactantes, perfeitas, que determinam o sentido existencial do seu autor. Divididas em dois blocos, um sendo a relação intrínseca entre “O Processo” e “O Castelo” (esse romance é inacabado, pois coincidiu com a morte de seu autor), mas que tem em comum a denúncia ao abuso da burocracia nas relações entre o Estado e o indivíduo.

Metáfora bem elaborada, alude ao estado totalitário e tiro certeiro, que remete à stalinização da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (a extinta URSS), onde o indivíduo é anulado por um poder opressor. Qualquer semelhança com a atual Coreia do Norte não é mera coincidência!

“O Castelo”, Franz Kafka
“O Processo”, Franz Kafka

Franz Kafka conhecia a burocracia de perto. Formara-se em Direito desejando ser um escritor o tempo todo. Típico caso do filho que tem que se submeter à vontade dos pais para obter uma paz relativa. Não no caso de Kafka, em eterno conflito com a autoridade paterna, o que o fez escrever a carta mais visceral de um parente a outro, a “Carta ao Pai“. Quase um vómito existencial, na singularidade de psicologia incomum, carta essa que só foi publicada após o seu passamento.

Aliás, adendo: foi graças ao amigo Max Brod que podemos ler hoje várias obras de Kafka. É que este havia pedido ao amigo para destruir todos os originais inéditos, pois não via valor algum nesses escritos. Kafka já estava bem enfermo, mas graças a essa “boa traição” de Brod, podemos hoje contestar a impressão autocrítica de seu autor. Realmente, existem obras em que dá para se perceber uma incompletude, mas não chega a arranhar a excelência de outras narrativas. Obrigado, Max!

Em “O Processo” está o melhor do surrealismo kafkiano. Josef K. é um funcionário burocrata de um banco. Ao se preparar para o desjejum, recebe o comunicado de dois policiais de que está sendo processado. “O que foi que fiz?”; “Como assim?”; “Estou sendo processado por quem?”; O mais surreal é que os guardas pouco sabem, aliás, não estavam ali para prendê-lo, apenas para comunicá-lo para que preparasse a sua defesa. A trama se desenvolverá com todos os rituais burocráticos, de assimilação aos poucos de Josef K., de que terá que se defender frente a uma estapafúrdia condenação antecipada.

Desse modo, o tribunal do júri se verifica como sendo uma mixórdia, de uma promiscuidade impressionante, e há passagens realmente significativas a guisa de analogias: o advogado de defesa que contrata é incapacitado pela doença, e está acamado, tendo já a certeza de que não poderá contar com uma ampla contestação, sendo o “acamado” o signo de que frente ao Estado e ao poder a defesa ser infrutífera.

Um caso é dúbio na leitura dessa obra: muitos julgarão não entendê-la, outros julgarão senti-la. O drama existencial aí verificado é singelo. Franz Kafka possui certa candura, meiguice literária e poética que faz atravessarmos o pântano com alma elevada. Nesse enredo absurdo, o leitor vai se impacientando, como se fosse uma testemunha de acusação ou defesa nesse processo enrolado.

Outra fonte burocrática é o inacabado “O Castelo”, onde um agrimensor, K., é contratado para realizar um serviço para o dono do castelo, em uma aldeia qualquer. A população adverte-o de que o acesso ao castelo é impossível, tendo K. que passar por todo o trâmite dificultoso na tentativa de uma audiência com o senhor Klamm. Esses pontos em comum determinam uma preocupação do seu autor com as formas autoritárias de convivência.

“A Metamorfose”, Franz Kafka

Um outro marco é a curta novela “A Metamorfose“, que é a descrição de um caixeiro-viajante, Gregor Samsa, que se vê transformado em inseto ao acordar. “A Metamorfose” é uma ironia à existência produtiva, naquela relação interesseira do indivíduo que produz o próprio sustento e que é o arrimo da família. Transformado em inseto, fica impossibilitado de abrir a porta de seu quarto e sair para trabalhar. Muitos a princípio virão bater à sua porta, chamando-lhe para as responsabilidades. Os outros não entendem a quebra de rotina de Gregor, deixando de trabalhar e colocando em risco o seu emprego e o sustento da família.

Constrangimento para Samsa, e o mais interessante é que ele, aos poucos, vai assimilando a sua nova condição e na maioria das vezes fica mais preocupado com o que a família irá pensar dele do que com verificar seus próprios sentimentos. Depois de algumas horas, a família de Gregor toma conhecimento da situação e assusta-se com a transformação do filho trabalhador em um inseto asqueroso. Varrerão ele o tempo todo para debaixo de um canapé escondido no quarto que fica imundo com o passar dos dias.

Melhor do que continuar comentando acerca dessas obras, uma dica válida é começar a ler imediatamente os livros desse maravilhoso escritor.

Marcelo Pereira Rodrigues

One thought on “Kafka e o Absurdo da Existência

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: