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Porque A Arte Somos Nós

“O importante é viver com quantidade!”. Essa máxima camusiana traduz um pouco o sentimento do absurdo do indivíduo perante a vida. O absurdo é o tema central da obra “O Mito de Sísifo” (“Le Mythe de Sisyphe” em francês), livro este que data de 1942.

Albert Camus é um expoente da literatura francesa. Militante partidário e editor do Combat (jornal este que deixou um sulco na história), o autor de “A Peste” sempre defendeu a primazia do indivíduo sobre os sistemas organizacionais que tentam comprimi-lo.

Em “O Mito de Sísifo”, Camus introduz a noção de absurdo na questão mesma do raciocínio. A primeira parte da obra é académica, num diálogo direto com filósofos como o russo Chestov, o dinamarquês Kierkegaard, Jaspers e Husserl, só para citar alguns. Camus contrapõe os pretensos sistemas destes e autentica a condição humana como estranha a eles. A falta de um lugar comum é um salto, porém um salto que não pode nem de longe assemelhar-se ao salto e queda de Kierkegaard.

Na primeira parte desse livro, encontram-se nas entrelinhas o ciúme e misto de desdém de Camus por Jean-Paul Sartre (outra sumidade!), quando se refere a este apenas como “um autor dos nossos dias“. De tudo o que me parece estranho circunstancialmente, eis o absurdo.

Albert Camus
Sören Kierkegaard

Em “O homem absurdo” (parte 2), há um ensaio acerca do amor exacerbado do conquistador Don Juan. Aqui ele é visto na sua decrepitude, numa cela de um monastério espanhol. Quando a sociedade o olha, confirma em si o preço que se deve pagar pelos excessos. A sociedade vigilante sente-se vingada, até.

Porém, este velho é o mesmo conquistador sagaz que viveu exacerbadamente cada conquista, nunca se atendo a retratos, mas sempre necessitado do olhar meigo e cândido de uma donzela. Impossível não relacionar essa passagem com “O Diário de um Sedutor“, de Kierkegaard. Indico também o filme “Don Juan DeMarco“, produzido por Francis Ford Coppola e realizado por Jeremy Leven. Afinal, “a melhor parte do amor é perder todo o senso de realidade”. E isso é absurdo!

Na parte seguinte do livro, Camus trata da criação absurda. A obra de arte pode ser fruto tanto do envolvimento quanto da negação do seu criador. Não se apegar à sua obra é uma renúncia sadia. A manifestação da arte encontra no mundo tanto a sua veracidade quanto sua estranheza. Nessa passagem, há uma conversa íntima de Camus com a personagem Kirilov, de Dostoievski. Nele, uma afirmação surreal, cito: “Se Deus não existe, eu sou Deus“. Essa insensatez é mais um atestado do absurdo que se manifesta. Aqui, filosofia e arte relacionam-se na visão camusiana.

Depois dos prolegómenos, “O Mito de Sísifo” propriamente dito. Mas afinal, quem foi Sísifo? Sísifo foi um herói às avessas da Mitologia, chegando a ponto de “amarrar a Dona Morte”, nos versos de Homero. Fugiu do próprio inferno e recebeu o castigo merecido por essas travessuras desmedidas (e absurdas). Foi condenado pelos Deuses a rolar um bloco maciço de pedra até o topo de uma colina. Eternamente, essa pedra rolaria abaixo (seria difícil rolar uma pedra acima, mas isso aconteceu!), e a tarefa do anti-herói nunca se completaria.

“Sisyphus”, do pintor italiano Ticiano (1549)

Mas, o que aos olhos de muitos pode parecer um trabalho infrutífero, para Albert Camus há um momento em que o anti-herói vence os Deuses. É no exato momento em que este tem que descer de modo a retornar a sua jornada. Ali, “o espírito debruça-se sobre si mesmo“, avalia a sua própria condição absurda de modo a retornar a sua tarefa. Aí sim, a pedra rola para cima.

No salto para os nossos dias, Camus vê a própria Humanidade retratada no rosto de Sísifo, uma vez que a pedra tinha rolado. Subtraída essa condição universal, se a amiga leitora(o) desempenha todas as tarefas de modo a uma satisfação pessoal, encara o absurdo mesmo sem o saber. Afinal o trivial “segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo” é o tempo preciso para cada um de nós subirmos com a “nossa pedra”.

Aqueles que “debruçam-se sobre si mesmos” encontram não explicações de modo a atestarem suas liberdades dentro apenas de contingências. E vivendo de forma contingente, atestamos o nosso salto e a nossa própria condição absurda: “amar e mudar as coisas me interessa mais“, nos versos de Belchior, cantor e compositor brasileiro do Ceará.

A obra apresenta ainda um apêndice que traz um ensaio acerca de Franz Kafka. Imperdível! Um livro para espíritos livres e condenados, ao mesmo tempo. Condenados a rolar ladeira acima uma pedra pesada e por vezes, contraditoriamente, suportável.

Marcelo Pereira Rodrigues

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One thought on ““O Mito de Sísifo”: Nosso Trabalho Será em Vão?

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