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Porque A Arte Somos Nós

À data de estreia de “Donnie Brasco” já se tinha visto de tudo um pouco no sub-género da máfia. E parte das pérolas quintessenciais, como a trilogia “The Godfather” (1972-1990) e “Scarface – A Força do Poder” (1983), protagonizam também Al Pacino em papéis clássicos.

Estas repetições podiam perfeitamente dar aso a monotonia e redundância, não fosse a equação de “Donnie Brasco” privilegiada por ter nos seus membros o argumentista Paul Attanasio e uma cara fresca cada vez mais consolidada em Hollywood, Johnny Depp.

Baseado numa história real que deu origem a um livro e então ao filme em causa, a narrativa decorre em 1978, onde um agente do FBI chamado Joe Pistone (Depp), também conhecido como Donnie Brasco, infiltra-se numa organização mafiosa em Brooklyn. O meio de entrada dá-se pelo nome de Lefty (Pacino), um soldado raso envelhecido que assume a responsabilidade pelo novato e diz-lhe: “segue as regras, e quem sabe, talvez um dia… Tornar-te-ás um mafioso, um homem feito“.

Essas mesmas regras não o tinham levado a lado nenhum, mas não conhecera outra vida. Cada vez mais envolvido com os criminosos, Pistone começa a estabelecer laços de amizade que colocam em risco toda a operação.

O que distingue a obra de tantas outras no seu domínio é precisamente a relação de amizade e confiança que se desenvolve entre os protagonistas. Não é dado tanta ênfase ao consumismo ou ambição desmedida, à eterna sede de poder e dinheiro fácil que este tipo de operações ilegais costuma implicar.

The Gang’
Al Pacino (esquerda) e Johnny Depp (direita)

Sim, Lefty deseja subir na hierarquia da sua ordem, mas sendo-lhe negada vezes sem conta essa possibilidade, acomoda-se e deseja apenas que não lhe façam a folha. Acaba por encontrar uma espécie de motivação em Brasco, como um pai que vê num filho uma segunda oportunidade na vida, a procura premente por redenção.

Não é que não haja traições, voltas e reviravoltas nos filmes que o antecedem, mas a aposta no ângulo do companheirismo que o argumentista Paul Attanasio reforça, oferece a originalidade e frescura necessárias para deixar uma marca distinta.

Outro aspeto curioso que o enredo apresenta com brio prende-se com a linha ténue entre o “good guy” e o “bad guy“. Aqui já mais direcionado para a personagem de Johnny Depp, cujas vivências e emoções daquilo que num plano teórico não deviam afetar a sua missão, acabam por se revelar autênticos obstáculos que originam mudanças drásticas de comportamento. Lá no fundo, somos apenas pessoas.

Já no que diz respeito à realização de Mike Newell, esta pode parecer um pouco estéril e padronizada, mas atinge o aspeto principal de guiar as interpretações: desde o excelente contraste no estilo de atuação entre Pacino – que volta a mostrar o seu alcance como ator – e Depp – que continua a contracenar com confiança -, como na gestão dos papéis secundários, que conferem a atores como Michael Madsen e Anne Heche, os seus momentos para brilhar.

Curiosamente, no México, a Sony Entertainment Television gravou uma série baseada em “Donnie Brasco”, que se chama “El Dandy” (2015), que teve como protagonistas Alfonso Herrera e Damián Alcázar. O filme foi nomeado para o Óscar de Melhor Argumento adaptado em 1998. Para além dos atores já mencionados, no elenco encontramos também Bruno Kirby, James Russo ou Zeljko Ivanek.

Discute-se de lés a lés se a vida imita a arte ou a arte imita a vida. No caso de “Donnie Brasco”, o filme apresenta-se com os pés no chão quer no seu conteúdo como na sua execução, mostrando uma miragem de uma história verídica que tem tanto em comum com o cinema do passado como o cunho intrínseco e complexo das relações da vida real.

Bernardo Freire

Rating: 3 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

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