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De todas as pérolas do cinema americano que não são realizadas por Martin Scorsese, “Scarface – A Força do Poder” de Brian de Palma é, sem dúvida, uma das que deixa um impacto mais longínquo. A re-imaginação do filme de 1932 troca o cenário urbano e pesado de Chicago pela cidade soalheira de Miami, mas mantém a mesquinhez e sentido de oportunidade do protagonista. Em parte pela extraordinária e imersiva interpretação de Al Pacino, que encarna todos os defeitos e mais alguns de um imigrante cubano que sucumbiu ao lado negro do sonho americano.

A versão inicial do filme foi recebida de forma negativa por parte da crítica, e chamou a controvérsia em relação à violência e linguagem gráfica no filme. Contudo, “Scarface – A Força do Poder” foi o 16.º filme com maior venda de bilheteira em 1983, e o sétimo maior registo na América do Norte, no mesmo ano.

O argumento foi adaptado pelo engenhoso Oliver Stone e o contexto tem mais do que um toque de comunismo. Em 1980, Fidel Castro, líder de Cuba, permitiu a navegação de barcos e transporte de pessoas para fora do país, sendo que muitos acabaram em campos de refugiados. Entre os viajantes estavam Tony Montana (Pacino) e o seu melhor amigo, Manny Ribera (Steven Bauer), munidos de testosterona, névoas de sangue e uma enorme vontade de subir ao topo da montanha do império da cocaína.

No plano de fundo de qualquer história sobre mafiosos está um núcleo ausente de valores humanos, um conjunto de personagens superficiais e gananciosas que através das suas ações danosas formam um conto preventivo.

Al Pacino como Tony Montana

Pois a melhor forma de descrever “Scarface” é enquanto tragédia, um filme onde todos os intervenientes estão a fugir de algo. No caso de Montana, a fuga da opressão do regime de Castro e a consequente busca de poder barato. Quanto a Elvira (Michelle Pfeiffer), o interesse romântico do protagonista, a fuga de uma vida sem amor ou significado a partir do precioso sedativo que é o pó branco.

No entanto, a densidade do argumento propõe algo mais. Para além do dispor de diversas atitudes vis, traições e negócios ilícitos, a escrita ridiculariza, expõe e aponta o dedo através do vestuário, direcção de arte e violência brutalizada. Chega mesmo a ter contornos de sátira pela forma como as personagens habitam o excesso. Não é preciso ir mais longe do que referenciar o padrão de tigre do carro de Montana, ou o que o próprio tem escrito em destaque no centro da sua mansão: “O Mundo é Teu”.

No plano materialista, o mundo é de facto seu. E Al Pacino não apresenta quaisquer reservas em demonstrá-lo através de uma interpretação maníaca. A sua performance explosiva e comprometida oferece em partes iguais entretenimento e profundidade emocional. É facilmente uma das encarnações mais elogiadas e imitadas do cinema moderno, e está tão associada com o nome do filme como Marlon Brando está com a obra-prima “O Padrinho” (1972).

He loved the American Dream. With a Vengeance.

Quanto às interpretações secundárias, Pfeiffer acaba por ser a mais interessante porque à partida não parece ter muito que mastigar, mas à medida que a dependência da droga vai sendo cada vez mais notória, o papel de mulher aborrecida começa a fazer cada vez mais sentido e a sua postura, por leviana que pareça, está perfeitamente apropriada.

Seria difícil despedir-me desta crítica sem recordar o impacto cultural que “Scarface” teve não só no cinema, como na cultura em geral. A crueza da realização de Brian de Palma confere certamente um estilo e uma aura operática ao filme, mas não se pode descuidar a escrita de Stone, que de forma focada e com frases marcantes como “Diz olá ao meu pequeno amigo” e “Digam boa noite ao homem mau“, preencheram quase três horas de puro gozo cinematográfico.

Bernardo Freire

Rating: 4 out of 4.

IMDB

Rotten Tomatoes

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