OBarrete

Porque A Arte Somos Nós

O segundo é o primeiro dos últimos” – Ayrton Senna

Recordo como se fosse hoje o dia 20 de Outubro de 1984 em que pela primeira vez fui assistir a um evento de Fórmula 1 ao vivo. A excitação era grande e quando começamos a ouvir o ronco dos motores para o início da sessão de qualificação desse sábado, já ninguém se mantinha sentado no anfiteatro da curva três da pista do Autódromo do Estoril.

Estava prestes a começar, até que finalmente percebemos que os primeiros carros se aproximavam e imaginem qual foi o primeiro carro que os meus olhos viram passar à sua frente, o Toleman-Hart com o numero 19 de um piloto cujo capacete ostentava as cores da bandeira do Brasil: Ayrton Senna da Silva. A partir desse dia, e até hoje, para mim, ele foi e será sempre o melhor piloto de Fórmula 1 que existiu à face da terra.

Vem isto a propósito de vários documentários que já foram feitos acerca do Ayrton. Como em tudo, não é pacifica a abordagem que é feita pelos seus vários produtores. Existe uma necessidade latente de trazer a lume algumas circunstâncias de vida acerca da estrela que foi Ayrton Senna e nem sempre se acerta na forma como se quer salientar esta ou aquela qualidade, ou este ou aquele defeito.

O certo é que existe muita matéria para ver e analisar acerca deste às do volante e não é minha pretensão dissecar qual o melhor ou pior documentário editado até hoje, tão somente fazer justiça à sua figura principal. Um dos principais documentários, e que pode ser encontrado na Netflix, é “Senna” (2010), do realizador britânico Asif Kapadia.

Portugal, 1984
Os 10 melhores momentos do piloto

Ayrton Senna da Silva nasceu no berço de uma família com posses financeiras e desde cedo mostrou interesse por atividades ligadas ao automobilismo. Aos 13 anos disputou o seu primeiro campeonato em karting, tendo ganho desde logo a primeira prova em que participou e posteriormente o campeonato sul-americano da categoria nos anos de 1977 e 1980, para além de ser campeão brasileiro em três épocas: 1978/79/80.

Estes seriam anos decisivos para Ayrton, pois esta foi a verdadeira escola de aprendizagem na formação do campeão em que se viria a tornar. Mais tarde decide partir para a Europa para tentar a sua sorte, embora que não contasse com grande apoio por parte da família que receava pela sua integridade nas provas motorizadas. Ainda assim foi campeão de Fórmula Ford 1600 e 2000, Europeu e Britânico, entre os anos 1981 e 1983, demonstrando mais uma vez todo o seu potencial, ganhando uma elevada percentagem das provas em que participou.

É então que surge a oportunidade de fazer testes de pista com algumas marcas da época, como a Williams, McLaren e Toleman, tendo Ayrton impressionado em todos eles, sendo sistematicamente mais rápido que os pilotos de testes dessas equipas! Estava apresentado o cartão de visita e a Toleman decide “oferecer-lhe” um contrato para a época de 1984 na Fórmula 1.

A sua carreira na categoria rainha do automobilismo iniciou-se no Grande Prémio do Brasil de 1984, tendo ainda nesse ano vivido um dos momentos mais altos da sua carreira ao dar um espetáculo de condução à chuva nas ruas do Mónaco, estando em primeiro lugar quando a corrida foi interrompida e atribuída a classificação da volta anterior, tendo ganho… Alain Prost, que viria a ser o seu grande rival (ou não!) nas pistas. Ganhou a sua primeira corrida em Portugal, em 1985, no Autódromo do Estoril, já com a Lotus e sob um diluvio de chuva copiosa.

A primeira vitória na Fórmula 1, no Estoril (1985)
Mónaco, 1990

Veio a sagrar-se campeão do mundo por três vezes nos anos de 1988, 1990 e 1991 sempre ao volante da McLaren. Foi também vice-campeão do mundo em 1989, com o célebre episódio de Suzuka em que se envolveu num incidente com o seu companheiro de equipa, Alain Prost, terminando a corrida em primeiro mas vindo a ser desclassificado a favor, mais uma vez, de Prost. Este último acabaria por ser campeão do mundo, e também no ano de 1993, ainda com a McLaren.

Senna participou em 162 corridas, venceu 41 Grande Prémios e arrancou do primeiro lugar da grelha por 65 vezes (era uma das suas especialidades). Em 1984, decidiu abordar um novo desafio tendo assinado com a Williams. Participou em três Grande Prémios, tendo falecido num acidente na pista de Ímola no dia 01 de Maio, quando ocupava o único lugar que tinha na sua mente e que era o seu: primeiro.

Tendo sido uma figura envolta em alguma polémica pela forma como abordava a sua profissão, pois afirmou por várias vezes que era guiado pela mão de Deus para atingir a perfeição, não deixou de servir como referência na abordagem à entrega e abnegação que devemos ter àquilo que guia a nossa ambição enquanto executantes de uma determinada tarefa.

O seu exemplo de superação, dedicação e entrega é uma referência para qualquer desportista e não só. Este deve ser um exemplo de vida também no mundo das artes para que os/as artistas atinjam sempre o zénite da criação, e elevem sempre as suas capacidades enquanto criadores.

Ayrton Senna era um homem de carne e osso como todos nós que soube explorar ao limite as suas capacidades mentais, tendo atingido o que no meio automobilístico se considera a perfeição e capacidade de estar sempre um bocadinho, por pequeno que seja, mais à frente. É assim que se distingue os muito bons dos excepcionais.

Protejam-se.

Jorge Gameiro

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: