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“Todos os dias, de todos os pontos de vista, vou cada vez melhor.”


Émile Coué

O livro “O Domínio de Si Mesmo Pela Auto-Sugestão Consciente” (Editora Martin Claret, 144 páginas) é um opúsculo do médico francês Émile Coué (1857-1926). O título é autoexplicativo. O pensador faz a elegia da autossugestão através do pensamento positivo e propõe-se a curar os seus pacientes sem nem ao menos lhes colocar as mãos.

Acerca do pensamento destacado na introdução deste texto, mesmo sem o saber, pratico-o há muito tempo. Sempre que me questionam como está a ser o meu dia e como estão as coisas, respondo que está tudo bem, uma vez que o estado de espírito é maleável às influências energéticas que nos atingem, sejam elas boas ou más. Confesso que destaquei a frase acima como se fosse um mantra, a ser proferido sempre na hora de dormir. Pensei para mim: se bem não fizer, mal não há de fazer.

Contudo, à medida que ia lendo, percebi alguns deslizes e acerca do método, nenhum. Proferir uma autossugestão sem base científica e escrever acerca do inconsciente sem a profundidade de um Sigmund Freud (1856-1939) pareceu-me despropositado. Não percebi nada mais do que um amontoado de frases vazias.

No decorrer das páginas, percebi que há muito o livro em si terminara, e que os anexos apontavam para cartas apócrifas endereçadas a Coué e dá para desconfiar de um sujeito tão bom e competente. Um caso particular ocorre comigo, quando me sinto presunçoso ao publicar loas ao meu trabalho, mas quando não posso evitar essas publicações, o mínimo que exijo é saber quem escreveu, de onde e qual a sua qualificação. E dizer que prefiro até receber os contrapontos, que acrescentam sempre muito mais ao debate.

O psicólogo francês Émile Coué

Mas não é isso que ocorre com o livro de Coué: tudo publicado no livro é excelente, não existe uma vírgula que desabone o escritor médico e as curas obtidas abrangem as dores físicas e psicológicas: neurastenia, prisão de ventre, pressão baixa, depressão, nevrite, reumatismo, cansaço, gota, anemia e vai por aí afora. Lembrei-me que no Brasil, em algumas praças, existem alguns curandeiros que vendem pomadas para a espinhela caída, cólicas, reumatismo, etc. O interessante é que se o incauto sentir alguma coisa, terá conforto naquela pomada milagrosa que tudo cura.

Quando assumo o compromisso de analisar um livro, vou até o fim, mesmo tendo desejos de o abandonar. Penso: serei paciente, quem sabe encontrarei ainda uma pérola? A minha paciência foi recompensada: existe um artigo muito interessante sobre a educação dos miúdos, de como os pais se devem portar na condução da sua educação e devo admitir que a peça é muito boa.

Mas depois retornam as loas a Émile Coué, alguns relatos que o chegam a comparar a Cristo e a sua benevolência de não cobrar um centavo aos seus pacientes. Enfim, um sujeito bonzinho, sábio, destacado e que nos leva a desconfiar de tanta caridade. Foi quando pensei que, caso precisasse de me tratar, procuraria o Dr. House (famoso personagem da série estrelada por Hugh Laurie), pois aprendi com ele que todos mentem. Quem sabe Coué não mentiu acerca dos seus métodos? Pelo sim pelo não, podemos refletir sobre o pensamento que abre este simples artigo.

Marcelo Pereira Rodrigues

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