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Porque A Arte Somos Nós

Todos nós precisamos de um guia, de uma orientação, de um conforto físico (ou simplesmente intelectual ou metafísico) que transcenda todas as certezas e que, apesar disso, minimize, o mais possível, todas as dúvidas. Andamos todos nós, suponho eu, um pouco perdidos neste mundo onde as ilusões predominam, onde não há espaço para fundamentos invioláveis, para conceitos ou ideias indiscutíveis: todos sabemos porque aqui estamos, alguns pelo menos, mas quase ninguém – se é que alguém – sabe para quê, o fundamento.

Precisamos de alguém, ou de algo, que esteja sempre lá; que seja o conforto de sempre, o efeito transformador com que sempre sonhaste, mas que é tão difícil de encontrar. Timing para recordar a célebre epígrafe de Sócrates, “só sei que nada sei“.

Neste filme, “First Reformed” (2017) – em português, “No Coração da Escuridão” –, um padre (interpretado por Ethan Hawke) simples e com uma compreensão de ouro tem, portanto, o dever de espalhar a palavra e de aconselhar os tais “perdidos neste mundo”. Desenvolve desde cedo uma relação muito interessante com uma rapariga que apela ao seu conhecimento e sabedoria para ajudar o seu marido (uma espécie de ambientalista ferrenho) a ver uma nova luz na sua vida, inconformado com o degredo e pessimismo que o assiste perante o que espera o planeta nas próximas décadas de alterações climáticas.

“First Reformed” (2017)

Toller (Ethan Hawke) percebe desde logo, aquando da conversa com o rapaz, que o vazio (eterno) que por vezes o aflige é um cenário demasiado universalizável para ignorar essa angústia. Toller vai com o intuito de acalmar o rapaz, e apesar do descontrolo emocional que este revela, começa desde logo a desenvolver uma admiração profunda por aquilo em que ele acredita fortemente: temos de salvar o mundo e o planeta.

E é aqui que quero chegar. Nestes tempos difíceis que se avizinham, a que é que é essencial nos agarrarmos? Em que é que nos podemos apoiar para sair da nossa esfera de sofrimentos e angústia e, por vezes, desprezo por nós mesmos? Temos de arranjar a crença inabalável, intransponível, imaculada; precisamos de encontrar o meio termo entre ser e sonhar.

No começo a nossa existência preenche todos os requisitos, e quando começamos a querer mais e mais é quando escolhemos ser, sentir e sonhar. Importa enfatizar que nós somos o que sentimos, e a nossa essência vê-se na forma como a nossa irracionalidade brilha genuinamente pelo mundo. A racionalidade serve, portanto, para nos guiar em conflitos de irracionalidade. Porque, se a irracionalidade é o nosso predomínio, e toda a obra de arte não se explica, como podíamos nós decifrar algo tão belo sem uma skill inacta? A verdadeira magia está precisamente em compreender, ou pelo menos aceitar, tudo aquilo que está acima de nós.

“First Reformed” (2017)

Ainda de volta ao filme, o padre comprometeu-se a escrever um diário durante 12 meses, onde apontaria tudo aquilo que lhe vinha à alma, sem nunca riscar ou reescrever o que quer que fosse. E não é isto que é a vida? É como aquela frase de Charles Chaplin: “a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso, canta, chora, dança, ri e vive intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos“. Toller vive tempos de angústia e refugia-se na escrita para escamotear possíveis quebras de identidade.

Este filme, “First Reformed”, é um hino à religião, ao amor pela vida e pelos pilares humanos que transfiguram o nosso rumo. Não é um filme que dá palmadinhas nas costas, tem um argumento fantástico e deixa um vazio a qualquer espectador na forma como fecha a cortina. A título de à parte, qualquer espectador fica atónito ao perceber que Ethan Hawke e o próprio filme estiveram fora das principais categorias para a grande noite dos Óscares, excepção feita à de Melhor Argumento Original.

Neste sentido, e retomando o tema principal e a questão essencial, todos nós, e isso é inquestionável, ambicionamos atingir uma plenitude intelectual e humana que ultrapasse todas as dúvidas, que seja precisamente aí que encontramos o tal conforto de que falei; um refúgio interno, e pode aí estar precisamente o segredo para uma vida plena e feliz: foca-te no essencial, tu. Tu és a pessoa mais importante da tua vida e tens a oportunidade, o direito e o dever de sonhar.

Ethan Hawke (Toller) e Amanda Seyfried (Mary)

É exactamente isso que fará de ti alguém acima de todas as tuas expectativas. Importa não esquecer, independentemente de tudo, tu és a melhor versão de ti mesmo, e não vale a pena negar tamanha fatalidade. Deus está contigo. Seja (sê) o que tu quiseres (ser). Há que dar, portanto, uma palavra de enaltecimento ao argumento e realização de Paul Schrader, conhecido por guiar o argumento de “Taxi Driver” (1976), que com este filme consegue estar perto da dita obra-prima, muito por culpa da sua profundidade e da sua ousadia em explorar temas fortes, por vezes tabus sociais, com uma arte bastante diferenciadora e digna.

Esta obra afigura-se como uma experiência cinematográfica verdadeiramente inesquecível, inexplicável e, como tal, imperdível.

Tiago Ferreira

Rating: 3.5 out of 4.

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